É um livro, em forma epistolar, que nasceu com o aparecimento da pandemia, e de uma mensagem que o confrade J. A. Marcos Serra endereçou ao seu mundo de familiares, amigos, colegas atuais e antigos, enfim, a todos os que constituem a cadeia humana em que está inserido de modo real.
16 de maio de 2022
ENTREMENTES CONVERSAS (DES)CONFINADAS
11 de maio de 2022
o início de EMIGRANTES
«Preta e branca, preta e branca, o preto mui luzidio e muito níveo o branco, a pega, de cauda trémula, inquieta, saracoteava entre carumas e urgueiras, esconde aqui, surge ali, e por fim erguia voo até a copa alta do pinheiro, levando no bico ramo seco ou graveto.» Ferreira de Castro, Emigrantes [1928], 29.ª ed., Lisboa, Cavalo de Ferro, 2013, p. 13
2 de maio de 2022
o início de O SENTIDO DO FIM
«Lembro, sem nenhuma ordem definida:» Julian Barnes, O Sentido do Fim [2011], trad. Helena Cardoso, 12.ªed., Lisboa, Quetzal, 2020, p. 11.
4 de abril de 2022
Sobre O Sentido do Fim, de Julian Barnes.
O papel da memória na História ( com h grande ) e na nossa história ( com h pequeno ) é fulcral. A questão do envelhecimento e da importância do que não nos lembramos também é relevante. Será que somos o que pensamos ser ? Que memórias construímos mais perto do fim ? Numa entrevista ao jornal Público, Barnes falou do que a memória faz com o tempo e o que tempo faz à memória. E como lidar com o facto de não podermos mudar o passado e qual a nossa responsabilidade nele? Na primeira página do livro encontramos ( é a minha tradução porque li o original, não sei as palavras exatas da tradução portuguesa): “o que acabamos por recordar, nem sempre é o que testemunhámos “ e na última página o livro termina com, “ Há acumulação. Há responsabilidade. E para além destas, há inquietação. Há uma grande inquietação ”. O que nos transporta à descrição deliciosa das aulas de História no inicio “o facto de que necessitamos de saber a história do historiador para compreender a versão que nos é dada “ e do professor cujo “sistema de controle dependia em manter um grau suficiente mas não excessivo de tédio “.
O afastamento do sentir, algum desprezo pelas emoções ( dito tão British) para evitar o sofrimento é também muito presente; achei magníficos os exemplos de quando o Tony recebe a noticia do suicídio de Finn e o pai lhe diz que lamenta e ele diverge para a calvície do pai e se seria hereditária. Ou das memórias de quando Tony acaba a relação com Verónica e acaba por se focar na cor e no perfil sorridente da rainha na lata das bolachas. Ou quando se sabe quem é a mãe do filho de Finn e a narrativa passa para o sal nos diferentes tipos de batatas fritas. No fundo evitar ser magoado, não ganhar nem perder e chamar a isso capacidade de sobrevivência. A questão da “soma versus multiplicação” ao longo da vida, se o carácter se desenvolve com o tempo como nas novelas.
Barnes insinua esta pergunta muitas vezes: preferiam amar menos e sofrer menos ou amar mais e sofrer mais? Mas será que afinal podemos fazer essa escolha conscientemente? Outra pergunta sem resposta .
Agora que estou " em repouso " com chá de limão e mel, está ao meu lado O Homem do Casaco Vermelho, o último livro de Julian Barnes em que o protagonista é um médico ginecologista na Belle Époque em Paris.
Saudações a todos e até Maio.
Zélia Mugli
21 de março de 2022
VATES (6)
Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria
Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta
Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria
Nota: Hoje Dia Mundial da Poesia entendi homenagear Gastão Cruz. Só com a nossa intuição poética ou em registo áudio voltaremos a ouvi-lo. Por ironia do "destino" o poeta voou no início desta primavera tão frágil para outras galáxias donde continuará a inspirar-nos com a sua tão necessária gramática. Este caderno de 72 é um "ensaio" sobre a "imagem da linguagem", da memória literária e da experiência colocando a poesia no mundo. Não é necessário dizer que William Blake assiste em fundo as estes poemas. A transformação é inerente a qualquer poesia e só assim existe novidade e renovação. Nesse campo, aqui há um importante trabalho ao nível da sintaxe e dos elos que prendem o poema nomeadamente na segunda estância que lançam o leitor na captação de sonoridades acrescidas e de uma nova leitura de poesia.
4 de março de 2022
o início de A GARÇA E A SERPENTE
«"Este Novembro de 1917 continua frio mas dourado.» Francisco Costa, A Garça e a Serpente [1943], 2.ª ed., Lisboa, Parceria A. M. pereira, 1945, p. 11.
28 de fevereiro de 2022
FRANCISCO COSTA E A REVISTA MODERNISTA "ATHENA"
15 de fevereiro de 2022
SETÚBAL
Oferta cultural em Setúbal, terra do grande Elmano Sadino.
Dois tópicos,
entre vários dignos de nota:
– CASA DA
CULTURA, espaço de actividades diversas onde decorre, até 27 de Março, uma
exposição de trabalhos de ilustração tendo como tema a figura de João Paulo
Cotrim.
(R. Detrás
da Guarda, 28)
– CASA DAS IMAGENS, acervo documental, audiovisual e artístico doado por Lauro António ao município.
(R. da Velha
Alfândega, 8)
Informação para os
nossos leitores que queiram incluir algum destes pontos numa eventual passagem
pela cidade.
= Fotos de
12-2-2022
13 de fevereiro de 2022
LOURDES CASTRO
7 de fevereiro de 2022
POEMA ou CANÇÃO... eis a questão
De vez em quando, somos surpreendidos pela excelência de um trabalho dedicado, que se revela útil, apelativo, agradável. Mesmo quem não morresse de amores pela poesia acabaria cativado.
Quer experimentar? Então deixe-se prender por esta coletânea organizada pela equipa responsável pela Biblioteca Escolar da Secundária de Amares (até o nome parece fadado...). Basta um clique na imagem, escolher um dos três grupos de poemas e ouça, ouça.
Que tal?
31 de janeiro de 2022
o início de O ÚLTIMO CAIS
«Diário de Bordo / "Saímos de Quelimane na canhoneira Mandovi, com direcção à ilha de Moçambique, no dia 4 de Setembro de 1879, pelo meio dia.» Helena Marques, O Último Cais (1992), Alfragide, Leya, 2009, p. 9.
21 de janeiro de 2022
VATES (5)
20 de janeiro de 2022
VATES (4)
17 de janeiro de 2022
VATES (3)
16 de janeiro de 2022
CASA DA LUZ, FUNCHAL
15 de janeiro de 2022
VATES (2)
14 de janeiro de 2022
RUY BELO : A NOVA POESIA EM PORTUGAL
Em 78 procuravam-se novos rumos para a cultura portuguesa após uma década de notáveis experimentalismos. Retenho algumas ideias que bebi em "A Vida da Poesia" de Gastão Cruz : a) quando R.B. surge o discurso poético estava por definir-se quanto a direcções a tomar - a linha discursiva que vinha de Sena, Rosa ou Helder estava suspensa.; b) surge um tempo de desconstrução do discurso com o desmantelamento de esquemas lógicos e sintáticos; c) Ruy Belo opta pela reconstrução do discurso.
Na revista Raíz e Utopia que sai no Inverno daquele ano, cuja leitura recomendo vivamente, ( que tenta ocupar o hiato cultural com reflexões muito amplas) é publicado na secção de Poesia um inédito de Ruy Belo que renova tudo o que sabemos ou pensamos a propósito do poeta. Cuidava-se então, neste número, de uma "nova poesia em Portugal" pelas mãos de José Manuel Alexandre, de Manuel Cintra e Luis Miguel Nava. São textos longos, com versos muito longos e irregulares aonde se deixa correr a pena a quente sem preocupações de rima numa confluência temática "delirante". Não sei que é feito desta nova poesia...
O inédito manuscrito de Ruy Belo intitula-se "Na Noite de Madrid" (escrito na Póvoa de Varzim, à vista do mar, 10 horas da manhã do dia 29 de Dezembro de 1971). Chama-se a atenção para este texto por ser o passo seguinte a Homem de Palavras(s) transportando contudo todas as abordagens temáticas que conhecemos no poeta nomeadamente a problemática da exclusão do sujeito e do anonimato do outro que tão humanamente expôs nos seus poemas: "que jornal contaria a imensidão do nome/de quem como um insulto ali jazia?/que pensamentos próximos tivera?/e o que levaria ele nos bolsos?/Donde viria?sorriria?onde ia?".
Para concluir: Foi esta forma de expressão aquela que mais me atingiu e deixou possivelmente algumas marcas nos meus escritos e nos da minha geração nas entrelinhas de finais de 70 despoletando em nós alguma poesia política despertando-nos para várias realidades do país real que eramos e país sonhado que continuamos a ser por muitos anos.
13 de janeiro de 2022
VATES (1)
8 de janeiro de 2022
"NO WAY OUT", de RUY BELO
26 de dezembro de 2021
10 de dezembro de 2021
RUA DA AMARGURA - Texto lido por Ana Cristina Carvalho na apresentação pública de 15-10-2021
Rua da Amargura
(de Fernando Faria)
1. Penso que a escrita, em particular a escrita das nossas memórias, é um ato de íntima exposição (passe a incoerência), e o que desse ato resulta, como estes "Episódios de uma comarca de Província", iluminará para sempre o fio biográfico do seu autor, ocupando um lugar especial na vida que se lhe anuncia pela frente. Confiar a alguém a apresentação pública desse fruto é sinal de estima e consideração pessoal - distinção que muito agradeço ao Fernando Faria. companheiro de muitas e boas e partilhadas leituras no Museu Ferreira de Castro, aqui em Sintra. Como agradeço a todos os aqui presentes por, com essa presença, homenagearem o livro e o autor.
2 . Algumas profissões, mais intensamente do que outras, lidam de perto com os limites da velha condição humana: as misérias, as expectativas, as dores e os deveres... A atividade de magistrado, particularmente numa comarca rural de um país que na década de 1980 respirava os primeiros ares de livre desenvolvimento, é uma delas. Disso só tive noção através da leitura deste testemunho ficcionado, que nos desvenda a partir de dentro, com os recortes e cores de quem a viveu, uma realidade que a maioria de nós só conhece de ouvido, para lá das baias da nossa própria experiência. Pois para isso serve a literatura: para nos trazer à vista aquilo que nós, desarmados de ângulos e perspetivas alheios, sozinhos não alcançaríamos.
3. Sabemos que a Rua (ou as ruas) da Amargura não é lugar onde se recomende demorarmo-nos. É "um vale de lágrimas", "um descer ao fundo do poço", é "ser tido em baixa consideração", diz o Dicionário Criativo na net. Mas esta Rua da Amargura do Fernando Faria percorrem-na 170 páginas que, aos amargos do quotidiano, vêm juntar o "bucolismo da região" (expressão do autor), a ambiência familiar dos cafés de província, o afeto cúmplice entre um cão e o seu dono coxo, a vivacidade das infâncias e até certo dilema ontológico do protagonista...
4. Por acaso, o GoogleMaps aponta-nos umas quantas "Rua da Amargura" em localidades portuguesas (Caldas da Rainha, Machico, etc...). Mas não em Figueiró dos Vinhos. Esta obra vive de uma toponímia fictícia que, parece-me, poupa deliberadamente um elemento incontornável da geografia real: o Zêzere. Respeita-se o grande rio da Estrela e a sua margem direita, já a rondarem o Tejo. Tudo o mais - a Vilar de Prantos onde Feliciano Feijó desagua com a família; o cemitério de Vale Escuro onde desce à terra o corpo do enforcado Serafim; ou o alto panorâmico de Santa Tecla, escolhido por Vitalino Próspero para liquidar a desonra com um tiro na têmpora - são lugares de clara designação figurativa, uma espécie de padroeiros linguísticos da dramaticidade de cada história.
5. Igualmente contêm muito de sugestivo, e até de irónico, os nomes próprios e apelidos atribuídos às personagens. Estas, já agora, são-nos apresentadas numa galeria, que a cada uma faz corresponder um capítulo. As nove vivem o tempo dos telexes, das tamancas, dos Citroën dois cavalos, do êxito Nikita do Elton John...
6. Sobre um cenário natural de "Pinhais ondulantes e sem fim", "vinhedos, pomares, prados", "hortas e canaviais" que beneficiam das águas do Zêzere [e sabe-se lá quanto, de tudo isto, sobrou do tempo entretanto decorrido e dos incêndios de 2017...], desenha-se um quadro social de interioridade rústica, eivado de analfabetismo, desespero, alcoolismo, trabalho infantil e declínio dos ofícios artesãos, como o do sapateiro do Capítulo 7.
7. O primeiro capítulo, dedicado à violência portas dentro, cujas nuances pouco mudaram em quarenta anos, menos mal que relata com vivacidade e humor como os vapores do morangueiro tanto seduziam homem como mulher, resultando num modus vivendi doméstico de "dás mas também levas". E lá está o desfecho a recordar-nos que nem tudo é o que parece...
8. Outras vívidas passagens de humor são o bate-boca entre Gertrudes e Arquimínio frente ao Dr. Delegado, nas páginas 41 a 43, risível apesar do alcoolismo e da pobreza subjacentes; ou o monólogo interior de autorrecriminação de Feliciano Feijó, arrependido do excesso de ética deontológica que o levara a recusar um potezinho de mel ao velho apicultor Salomão Lampreia, última personagem a entrar em cena.
9. Há momentos do livro em que a "realidade" excede a ficção, como se costuma dizer, incorrendo o autor na acusação injusta de faltar à verosimilhança. Um desses momentos é o furto do porco (vivo e vacinado), no capítulo dedicado à personagem Pencas, "uma trave de um metro e noventa" batizado como Expedito Manso Rouxinol. Outro é o suicídio no exato meio geométrico do paredão da Barragem da Feitosa e o corpo de Cesaltina mais tarde pescado com um anzol...
10. O livro de Fernando Faria exprime-se numa linguagem elegante e rica, num estilo que é realista, por vezes cru mas muitas vezes cândido. A natureza também lá aparece, com o ar da sua graça, em descrições da vila encaixada na vertente, da noite de inverno rodeando um lagar de azeite onde decorre um jantar de amigos, etc. Mas surge também prestando um último serviço ao desespero humano, como quando um suicida pede no bilhete de despedida que lhe enterrem o cão debaixo de um loureiro, ou quando a figura de Serafim Baleia se destaca na paisagem, pendendo de uma oliveira.
11. Rua da Amargura tem a legitimidade da vida experienciada e a riqueza de um olhar simultaneamente maduro (do autor que o escreve) e fresco (do jovem magistrado que viveu o ambiente retratado). Mas, saberes profissionais e papeis sociais à parte, este livro do Fernando Faria lembra-me um verso da cantora Mafalda Veiga (do álbum Pássaros do Sul, 1987), verso onde se diz que, acima de tudo, "Nós somos o ser extravasado que o nosso sentir nos dá".
ACC, Sintra, 15Out2021
29 de novembro de 2021
13 de novembro de 2021
ALENTEJO(S)
Livro de estudiosos, para estudiosos, teve de se contentar, no que me diz respeito, com a leitura de um curioso.
Gosto de obras que me ensinem, ou que me alimentem a memória, ou que me revelem informações inesperadas. Aqui, em ALENTEJO(S) - imagens do ambiente natural e humano na literatura de ficção, editado / organizado por Ana Cristina Carvalho e Albertina Raposo, petisquei de tudo.
Mas, quando resolvi realçar alguns pontos que mais me tinham acordado, dei comigo a fazer a lista de quase todos os autores... não podia ser, porque acabaria a fazer um resumo que não estaria à altura do original.
Permiti-me, portanto, algumas referências de cunho mais pessoal, que a leitura me despertou:
- Manuel Ribeiro é autor cuja personalidade e obra me cativa desde os meus longínquos tempos de bibliotecário em Manteigas; vim encontrá-lo aqui e surpreendi-me com o que li;
- assim como José Régio (aqui, pela mão de Manuel Nunes) que, por enviesamento meu, teimo sempre em associar (só) a Vila do Conde (espraiada, entre pinhais...);
- tive possibilidade de conhecer pessoalmente Manuel da Fonseca e de trocar algumas impressões com ele, em tertúlia pós-revolucionária (a maior parte, se não todos os livros dele estão autografados e dormem cá por casa); a sessão alongou-se muitíssimo para lá do tempo previsto, e acabou com ele a levantar-se, clamando, com ar a condizer: «tenham paciência, mas temos de acabar, senão mijo-me todo...»; inesquecível, concordem;
- Florbela Espanca é ela mesma: a maior sonetista da língua portuguesa;
- o último livro que meu pai me recomendou que não perdesse, depois de ele ter lido, é de Fernando Namora; uma boa parte li no hospital, acompanhando os últimos dias dele;
- Bismarck disse que, contrariamente à estupidez, a ignorância tem cura; aqui vim descobrir o papel histórico de Branquinho da Fonseca nas Bibliotecas que alimentaram de prazer das melhores horas da minha vida.
Bem hajas, Cristina; valeu a pena o teu trabalho e saber, a que juntaste fotografias a desenhar a realidade descrita.
Recomendo.
11 de novembro de 2021
9 de novembro de 2021
6 de novembro de 2021
17 de outubro de 2021
Geografias Literárias
Estão online, em acesso aberto ao público, os dois livros que a Ana Cristina Carvalho organizou em 2020 e 2021, início da coleção “Literatura e Ambiente”, inédita em Portugal, que “correrá” todas as regiões do país e envolve dezenas de autores e revisores de várias universidades de Portugal, Brasil e Espanha:
Amazónia – Reflexos do Lugar nas Literaturas Portuguesa e Brasileira:
https://research.unl.pt/ws/
Alentejo(s) – Imagens do Ambiente Natural e Humano na Literatura de Ficção:
https://research.unl.pt/ws/
Os livros em papel podem ser adquiridos na Almedina, Bertrand, FNSC e outras livrarias de Portugal e do Brasil.
Sendo verdadeiramente um "trabalho coletivo que poderá constituir um manual de promoção de novas leituras, novos debates e novas reflexões", é uma obra de leitura e/ou de consulta indispensável e merecedora de ampla divulgação.
9 de outubro de 2021
8 de outubro de 2021
NOTAS SIMPLES SOBRE "RUA DA AMARGURA", DE FERNANDO FARIA
Rua da Amargura, de subtítulo “Episódios de uma comarca de província”, é
constituído por nove narrativas decorrentes de experiências do autor durante o
período em que, nos anos oitenta do século XX, desempenhou funções de delegado
do Procurador da República na comarca de Figueiró dos Vinhos.
A transposição ficcional dá como espaço de acção Vilar de Prantos, topónimo que se ajusta ao espírito da matéria narrada, tendo em conta a vida miserável de algumas personagens, os episódios de violência e os suicídios cometidos nas diferentes histórias (ao todo, quatro!), embora haja nelas, por vezes, um acento de picaresco e trágico-cómico.
Na diversidade do
narrado, há figuras que aparecendo em várias ou todas as histórias reforçam a
unidade dos textos já por si subordinados ao denominador comum de «episódios de
comarca» : o funcionário judicial Gonçalves, o médico Dr. Teófilo Assunção, o
cabo da GNR Secundino Dias e, naturalmente, Feliciano Feijó, cujos nomes são formados com as mesmas iniciais dos nomes do autor, Fernando Faria.
Quem esperar destas narrativas
um desenvolvimento literário na tradição dos vultos da modernidade habitualmente
citados – Allan Poe, Kafka, Borges, etc. – pode desiludir-se. Fernando Faria
escreve nos moldes de um realismo focado nos estratos sociais mais
desfavorecidos, com situações e personagens típicas, mas ultrapassando o mero memorialismo
ou o testemunho chão com apontamentos de valor artístico como este do conto “A
barragem da Feitosa (Cesaltina)”:
«Afastado, um pouco, do parapeito mágico e, consequentemente,
liberto do síndrome vertiginoso, Feliciano pôde apreciar a jusante da barragem
o fundo desfiladeiro cavado pelo rio ao longo de milénios, de cujas margens
calcárias brotavam carvalhos e medronheiros, os quais, à distância, dir-se-ia
não passarem de simples arbustos. A água, terminado o cativeiro da represa e
vencida a provação das turbinas, retomara o trilho no velho leito e deslizava
já, álacre como uma escolopendra, abrindo caminhos por entre arbustos e calhaus
brancos.» p. 70.
De salientar as múltiplas
referências técnicas ao trabalho do delegado, o qual até chega a funcionar como
uma espécie de Juiz de Paz (conto “Rua da Amargura (Gertrudes)”), promovendo a
concórdia entre os esposos e tentando evitar, em relação ao filho, o abandono
escolar e o trabalho infantil. Igualmente os processos de investigação dos
pequenos crimes – o porco roubado em “Só ficaram os ossos… (Pencas)” – e
aspectos de medicina legal – cremos poder chamar-lhes assim –, nas considerações feitas
em “O homem pênsil (Serafim)” – um título perfeito! – relativamente às várias
possibilidades do «aspecto do enforcado»:
«(…) expressão serena ou terrífica?; olhos abertos ou
fechados?; língua projectada ou mantida entre os maxilares?; cabeça decaída
para o peito ou tombada para um dos lados (dependendo da posição do laço)?;
maior ou menor profundidade do sulco causado pela corda na cerviz?; presença ou
ausência de protuberância nas calças, indiciadora de erecção peniana? Havia
casos, explicados pela neurologia.» p. 86
Estamos – como desde
logo fica exposto na nota introdutória –, perante um conjunto de ficções de
pendor autobiográfico, mostrando na sua vertente testemunhal a pobreza
existente no interior- centro do país num período já marcado pela consolidação
do regime democrático. Como Feliciano Feijó de imediato verificou, não iria
encontrar naquela vilória pastores da Arcádia, nem Lianores descalças a caminho
da fonte, nem sequer moleirinhas, toc, toc, toc, sobre os seus jumentinhos,
como nos versos de Guerra Junqueiro. A realidade era outra!
Diga-se que a Igreja e
a Política– normalmente presentes em histórias de província através de
personagens determinantes como o padre e o regedor – estão ausentes deste livro. Tudo se passa no
seio do povo e dos agentes da Justiça, havendo entre estes grande lisura e
cooperação, situação talvez idílica, mas que foi a adoptada pelo autor na sua
estratégia narrativa.
Feliciano Feijó não
fala muito da sua vida pessoal, sabendo-se apenas que está familiarmente
acompanhado e que tem dois filhos de dois e quatro anos que são deixados
diariamente no infantário. Situação comovente, aquela da separação imposta aos
pequenos em cada dia de trabalho dos progenitores, já sentida em algum momento
por todos os que são pais e até, em contexto mais adiantado, quando arribam à
condição de avós.
Outro ponto digno de
nota: o facto de a cada título de história se associar o nome do protagonista,
revelador do cunho pessoal das narrativas, da dimensão humanista que as enforma.
Para além disto – e abreviando,
para não roubar muito tempo aos visitantes do blogue – , cumpre dizer que se
sente neste livro a grande alegria de narrar. Alegria antiga, vinda dos poemas
homéricos, das Mil e Uma Noites e de
obras imortais como o Decameron.
Que seria do homem sem narrativas? Ouvir ou ler o que é narrado é um imperativo de sobrevivência. Pelo poder da narrativa se salvou Sherazade da morte anunciada, também por via dele resistiram Pimpinea e os seus jovens amigos e amigas ante a peste que grassou em Florença no ano de 1348, tal como nos relata a ficção admirável de Boccaccio.
Todos nos salvamos um
pouco quando escrevemos ou lemos ficções. E
especialmente nós, leitores, quando estamos perante livros, como este Rua da Amargura, que se lêem com
simpatia e agrado.









