17 de junho de 2024
o início de CANÇÃO DOCE.
14 de junho de 2024
"FERREIRA DE CASTRO - Uma biografia" vol, 1, de Ricardo António Alves, edição do Centro de Estudos Ferreira de Castro
Apresentação amanhã, às 16 horas, no Museu do Neo-Realismo, em VFX.
Na p. 36, referindo a genealogia de Ferreira de Castro, admite-se que o escritor de Ossela seja descendente de um filho bastardo de D. Dinis, D. Afonso Sanches, poeta trovador, do qual se encontra em
https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=784&pv=sim
esta curiosa, ainda que incompleta, cantiga de escárnio e maldizer. Leia-se com a nota junta
esclarecedora do texto.
CANTIGA DE AFONSO SANCHES
Afonso´Afonses, batiçar queredes
vosso criad´e cura nom havedes
que chamem clérig; en´esto fazedes,
aquant´eu cuido, mui maao recado;
ca sem clérigo, como haveredes,
Afonso’Afonses, nunca batiçado?
Nota:
Só esta estrofe chegou até nós de uma cantiga em que D. Afonso
Sanches satiriza um tal Afonso Afonses, a propósito do batismo de um seu
criado. Tudo indica, no entanto, que a cantiga se basearia num equívoco sobre
quem é que nunca teria sido batizado - e que seria o próprio Afonso Afonses,
pelo que se depreende do v. 6.
13 de junho de 2024
101 poemas portugueses - #41
INTANGÍVEL
«Nuvem, sonho impalpável do desejo»
embora exista em mim que a beijo e amo,
nunca há-de vir um dia em que eu a aviste,
nunca a voz hei-de ouvir-lhe quando a chamo.
Mas não me fugirá. Por mais que diste
quando eu a sua ausência já proclamo,
assim que me percebe fraco e triste
volta, e eu volto a sentir-me escravo e amo.
Sei que é uma visão, sei que a componho
eu mesmo, à semelhança do meu sonho,
dando-lhe a luz fictícia que ela emite.
Mas se à minha alma pode enfim bastar
essa alma ideal, -- o meu sedento olhar,
esse procura um corpo onde ela habite.
5 de junho de 2024
ENIGMA
I
Ao madrugar
põe-se o PÔR-DO-SOL
No FIM DO
MUNDO – Nunca se sabe
Quando vier
a tempestade vem a bonança
II
Assim canta
El-Rei
Bem ou Mal
todos sabem quem é a Lua
III
Estamos a
chegar à Primavera…
Eu estou ao
pé de ti
Algo
acontece aliás acontece um pouco de tudo.
--- JOSÉ
LAURINDO LEAL DE GÓIS, Águas, Memórias, “Cadernos
de Santiago”, Lisboa, Âncora Editora, 2021
Poema cujo sentido oculto me foi desvendado na passada segunda-feira, 3
de Junho.
101 poemas portugueses - #40
A CORRENTE
Lá vão as folhas secas na corrente...
Lá vão as folhas soltas das ramadas...
Hastes envelhecidas e quebradas
galgando as asperezas da vertente.
A cheia arrasa os frutos e a semente,
a terra inculta, as várzeas fecundadas,
e vai perder-se, ao longe, nas quebradas,
numa fúria cruel e inconsciente.
Em nós ainda é mais funda, ainda é mais vasta,
esta ansiedade enorme e sem perdão,
que nos fere, nos tolhe e nos devasta...
As árvores desprendem-se e lá vão...
Mas nós ficamos porque nada arrasta
as raízes fiéis dum coração.
Fernanda de Castro (Lisboa, 1900-1994)
Jardim (1928)
29 de maio de 2024
25 poemas passados para português - #24
SE
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê... Se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...
Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...
Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...
Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos...
Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!
28 de maio de 2024
101 poemas portugueses - #39
INCONSTÂNCIA
A Aquilino Ribeiro
Tenho, às vezes, vontade de deixar-te.
E tenho, às vezes, medo de perder-te.
Não sei, às vezes, se hei-de abandonar-te,
Não sei, às vezes, se hei-de mais prender-te.
Por mais que queira, às vezes, esquecer-te,
Por mais que entenda, às vezes, ignorar-te,
Sinto o desejo enorme só de ter-te
Junto de mim na ânsia de abraçar-te.
Por mais que feche os olhos p'ra não ver-te
Ainda te encontro mais por toda a parte,
Tenha embora vontade de esconder-te.
Vivo nesta tortura de buscar-te,
Nesta inconstância atroz de não querer-te,
-- Meu fugidio sonho da minha Arte.
21 de maio de 2024
25 poemas passados para português - #23
ÁRVORE
Era uma árvore sem nome que à noitese tornava quase luminescente
como um tic vegetal da sua alegria
mas as corujas e os morcegos
as corujinhas e os mochos
ficavam tão perplexos
que desapareciam
e no entanto ela era assim
porque aquela árvore albergava
um sentimento em cada folha
e a luminescencia apenas era
a excitaçao do seu coração
numa noite de tempestade
um raio abrigou-se na sua copa
mas esta não apagou as suas luzes
e o raio desfez-se
há que ter em atenção
que em cada amanhecer
a árvore apagava-se
isto é dormia
às vezes despertava
11 de maio de 2024
101 poemas portugueses - #38
TRÊS PERSONAGENS
Ela, tem distinção, tem certa graça,
certa elegância calma, de bom gosto.
Leva um livro amarelo. Bem disposto,
um galgo inglês, cheio de nervo e raça,
acompanha-a. Sei sempre a que horas passa,
grave, serena, esfíngica; -- ao Sol posto.
Quem é? Quem são?... Nem lhes conheço o nome!
O acaso, por acaso, destinou-me
a vê-los passar juntos, todos três...
Donde vêm? Onde vão? -- Quem o adivinha?
O que eu sei, é que passam à tardinha
ela, o livro amarelo, e o galgo inglês...
4 de maio de 2024
101 poemas portugueses - #37.
Sobre uns olhos castanhos, carinhosos,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!
E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!
(lido numa sessão de 2011)
3 de maio de 2024
o início de ETERNIDADE
2 de maio de 2024
1º DE MAIO COM FERREIRA DE CASTRO
30 de abril de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XIII
OS EPITÁFIOS – EPITÁFIO PARA UM DOS
GRANDES DO MUNDO
Tapando a
ouro as chagas e os agravos,
Lidou com
seus irmãos como com bestas:
Das fêmeas
comprou a carne,
Dos machos,
a consciência e a vontade.
No ódio dos
escravos
Perdurou sua
memória.
De histórias
como estas,
Não continua
a história
Senão na
Eternidade.
--- Filho do Homem, 1961
28 de abril de 2024
101 poemas portugueses - #36
O BALOIÇO
Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.
Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.
Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.
E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.
25 de abril de 2024
LIBERDADE !
LIBERDADE
Do espaço que libertámos um dia
Surgiu límpido o teu nome liberto
Era um pássaro a destruir a noite
Era uma voz a perfurar o silêncio
Era um grito a romper o muro
Um punho fechado em rosa aberta
Habitar o Tempo, Vieira de Freitas, 1975
24 de abril de 2024
José Afonso, «Chamaram-me cigano»
Na terra mais funda fiz dela
A minha sepultura entrei numa gruta
Matei um tritão mas tive
O diabo na mão havia um comboio
Já pronto a largar e vi
O diabo a tentar pedi-lhe um cruzado
Fiquei logo ali num leito
De penas dormi puseram-me a ferros
Soltaram o cão mas tive o diabo na mão
Voltei da charola de cilha e arnês
Amigo, vem cá outra vez
Subi uma escada ganhei dinheirama
Senhor D fulano Marquês perdi na roleta
Ganhei ao gamão mas tive
O diabo na mão ao dar uma volta
Caí no lancil e veio
O diabo a ganir nadavam piranhas
Na lagoa escura tamanhas
Que nunca tal vi limpei a viseira
Peguei no arpão mas tive
O diabo na mão
23 de abril de 2024
#25 poemas passados para português - #22
A mim o que me mata,
querido efebo, digo-te:
desejo sem prazer,
versos sem graça ou ritmo
e ceias só com chatos.
Arquíloco (, Jónia, Séc. VII a. C.)
in Jorge de Sena, Poesia de 26 Séculos (1972)
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XII
O AMOR E A MORTE - MONÓLOGO A DOIS
Sábia talvez inconsciente,
Doseando, com volúpia, uma ancestral
sofreguidão,
Ali onde o desejo mais me dói, mais
exigente,
Me acaricia a tua mão.
De olhos fechados me abandono,
ouvindo
Meu coração pulsar, meu sangue
discorrer,
E, sob a tua mão, na asa do sonho,
eis-me subindo
Àquele auge em que todo, em alma e
corpo, vou morrer…
--- Filho do Homem, 1961
21 de abril de 2024
Pelo Tejo vai-se para o mundo (03)
19 de abril de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XI
O AMOR E A
MORTE – POEMA
Crispou-se a
minha mão sobre o teu sexo.
Fecharam-se-me
os olhos sem querer…
De que
abismos voava até ao fundo?
E a minha
mão sondava
E triturava
Aquele mundo
Tão
pequenino e tão complexo:
O teu
mistério de mulher.
--- Filho do Homem, 1961
17 de abril de 2024
POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. XXIV
O PALÁCIO DA VENTURA
Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante,
O palácio encantado da Ventura.
Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!
Com grandes golpes, bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!
Abrem-se as portas d'ouro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!
Antero de Quental, Sonetos
101 poemas portugueses - #35
QUASE
Um pouco mais de sol -- eu era brasa.
Um pouco mais de azul -- eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho -- ó dor! -- quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim -- quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
-- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... --
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templo aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol -- vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
...............................................................
...............................................................
Um pouco mais de sol -- e fora brasa,
Um pouco mais de azul -- e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 1890 - Paris, 1916),
Dispersão (1914)
14 de abril de 2024
101 poemas portugueses - #34
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.
10 de abril de 2024
25 poemas passados para português - #21
TRABALHAR CANSA
Atravessar uma rua para fugir de casa
só um rapaz é que o faz, mas este homem que vagueia
todo o dia pelas ruas já não é um rapaz
e não está a fugir de casa.
Há tardes
no verão em que até as praças ficam vazias, estendidas
sob o sol que está prestes a pôr-se, e este homem, vindo
por uma alameda de inúteis plantas, pára.
Vale a pena estar sozinho, para se estar cada vez mais sozinho?
Vaguear por elas apenas, as praças e as ruas
estão vazias. É preciso travar uma mulher
e falar com ela e convencê-la a viver a dois.
Ou então fica-se a falar sozinho. Daí que por vezes
haja o bêbedo nocturno que mete conversa,
e conta os projectos de uma vida inteira.
Não é certamente aguardando na praça deserta
que se encontra alguém, mas quem vagueia pelas ruas
detém-se por vezes. Se fossem dois,
mesmo a andar pela rua, a casa seria
onde está aquela mulher, e valeria a pena.
Volta a praça a ficar deserta à noite,
e este homem, que passa, não vê as casas
entre as luzes inúteis, já não ergue os olhos:
sente apenas a calçada, que outros homens fizeram
com mão endurecidas, como são as suas.
Não é justo ficar na praça deserta.
Andará com certeza pela rua a mulher
que, rogada, daria com gosto um jeito na casa.
Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, Piemonte, 1908 - Turim, 1950),
Trabalhar Cansa (1936)
Versão de Vasco Gato, Lisboa, 1978)
8 de abril de 2024
101 poemas portugueses - #33
AMOR-METEORO
Encontrei-a no cais, ao embarcar,
E, após um curto olhar retribuído,
Tão preso me senti, tão seduzido,
Que até como isto foi nem sei contar.
Só sei que agradeceu o meu olhar
Com outro mais gentil e enternecido,
E que fiquei em terra possuído
De um ódio torvo e estranho contra o mar.
Não mais em minha face inconsolável
Demorará seus olhos de veludo!
Não mais aquele instante inolvidável!
Um protesto de amor ardente e mudo,
Um sorriso, uma dor incomportável,
Um triste volver de olhos... e foi tudo.
5 de abril de 2024
o início de O MEU TIO DE NANTES
«Os ossos vão em caixinhas para Lisboa, para o Porto, para Coimbra.» Carlos Daniel, O Meu Tio de Nantes, Fundão e Amadora, Jornal do Fundão / Canto Redondo, 2023, p. 9.
4 de abril de 2024
25 poemas passados para português - #20
FIM DO MUNDO
Salvo sem pressa um
cristal de rocha, uma
medalha; salvo um verso
e uma pluma no ar;
um cheiro a pão,
uma janela sobre o nada
aberta de par em par.
Ángel Crespo (Alcolea de Calatrava, 1926 - Barcelona, 1995)
30 Poemas (1984)
versão de Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão, 1923 - Porto, 2005)
3 de abril de 2024
O MEU TIO DE NANTES
"Nós íamos a pé para os aterros do rio e demorávamos mais de uma hora a chegar lá, troc, troc, por aquelas veredas abaixo e ele no seu cestinho de vime à cabeça da tia Teresa que já teria para aí uns dezoito ou dezanove anos (... ...) Depois pousava-o numa sombra, ou embrulhadinho em cobertores, no pino do inverno, e quando ele chorava muito ela dizia-me assim: «Ó Gilda toma lá conta dele que tu és ainda muito pequenina para andares aqui com as perninhas dentro desta água tão fria o dia inteiro.» E às vezes era eu que ficava com ele ao colo. Eu acho que ele chorava de fome, coitadinho, e eu abanava-o, abanava-o até a tia Teresa ter outra vez um bocadinho de leite para ele mamar porque ela tinha muito pouco leite. Ó filho, quando hoje me lembro disto tudo até me parece que aquilo não pode ter acontecido: irmos três garotas, no pino do frio e do calor, para o Cabeço do Pião com uma merendita para o dia inteiro e a tia Teresa com aquela cestinha de vime à cabeça, com o Floriano lá dentro, que veio a casar com uma Palmira de Moncorvo e eram primos da Fernanda do Lúcio que trabalhava na Câmara do Barreiro e que o marido a deixou. E passávamos o dia inteiro a arear, a arear dentro do rio... e aquele menino à cabeça para trás e para diante.
Ai filho(...)"
(Pg. 79-80)
Este belíssimo livro, que se lê com gula e deleite, é assinado por Carlos Daniel. Contudo, podemos afirmar que a verdadeira autora é a Senhora sua Mãe, Dona Gilda, que em grande parte lho 'ditou', através de longos telefonemas ou em conversas dispersas ao longo da vida. A Carlos Daniel coube a meritória tarefa de, com talento e arte, converter os monólogos telefónicos e os pitorescos relatos da anciã em belíssimas peças de prosa.
Um abraço de parabéns, Carlos Daniel. Antevejo uma sessão animada e enriquecedora, na qual, com muita pena minha, não poderei estar presente.
F. Faria
1 de abril de 2024
101 POEMAS PORTUGUESES - #31
SONETO DA VISITAÇÃO
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!
Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!
E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.
Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.
29 de março de 2024
101 POEMAS PORTUGUESES - #30
CANÇÃO DO NU
LindoSurpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.
Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.
Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.





