17 de junho de 2024

o início de CANÇÃO DOCE.

 «O bebé morreu.» Leïla Slimani, Canção Doce [2016], trad. Tânia Ganho, Lisboa, Alfaguara, 2022, p.11.

14 de junho de 2024

"FERREIRA DE CASTRO - Uma biografia" vol, 1, de Ricardo António Alves, edição do Centro de Estudos Ferreira de Castro

 

Apresentação amanhã, às 16 horas, no Museu do Neo-Realismo, em VFX. 

Na p. 36, referindo a genealogia de Ferreira de Castro, admite-se que o escritor de Ossela seja descendente de um filho bastardo de D. Dinis, D. Afonso Sanches, poeta trovador, do qual se encontra em 


https://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=784&pv=sim


esta curiosa, ainda que incompleta, cantiga de escárnio e maldizer. Leia-se com a nota junta esclarecedora do texto.

 

CANTIGA DE AFONSO SANCHES

 

Afonso´Afonses, batiçar queredes

vosso criad´e cura nom havedes

que chamem clérig; en´esto fazedes,

aquant´eu cuido, mui maao recado;

ca sem clérigo, como haveredes,

Afonso’Afonses, nunca batiçado?

 

Nota:

Só esta estrofe chegou até nós de uma cantiga em que D. Afonso Sanches satiriza um tal Afonso Afonses, a propósito do batismo de um seu criado. Tudo indica, no entanto, que a cantiga se basearia num equívoco sobre quem é que nunca teria sido batizado - e que seria o próprio Afonso Afonses, pelo que se depreende do v. 6.

 

 

13 de junho de 2024

101 poemas portugueses - #41


INTANGÍVEL 


«Nuvem, sonho impalpável do desejo»

ANTERO.

Essa que eu amo e beijo e não existe,
embora exista em mim que a beijo e amo,
nunca há-de vir um dia em que eu a aviste,
nunca a voz hei-de ouvir-lhe quando a chamo.

Mas não me fugirá. Por mais que diste
quando eu a sua ausência já proclamo,
assim que me percebe fraco e triste
volta, e eu volto a sentir-me escravo e amo.

Sei que é uma visão, sei que a componho
eu mesmo, à semelhança do meu sonho,
dando-lhe a luz fictícia que ela emite.

Mas se à minha alma pode enfim bastar
essa alma ideal, -- o meu sedento olhar,
esse procura um corpo onde ela habite.


Francisco Costa (Sintra, 1900-1988),
Verbo Austero (1925)

5 de junho de 2024

ENIGMA


I

Ao madrugar põe-se o PÔR-DO-SOL

No FIM DO MUNDO – Nunca se sabe

Quando vier a tempestade vem a bonança

 

II

Assim canta El-Rei

Bem ou Mal todos sabem quem é a Lua

 

III

Estamos a chegar à Primavera…

Eu estou ao pé de ti

Algo acontece aliás acontece um pouco de tudo.

 

--- JOSÉ LAURINDO LEAL DE GÓIS, Águas, Memórias, “Cadernos de Santiago”, Lisboa, Âncora Editora, 2021

 

Poema cujo sentido oculto me foi desvendado na passada segunda-feira, 3 de Junho.

 

101 poemas portugueses - #40


A CORRENTE


Lá vão as folhas secas na corrente...
Lá vão as folhas soltas das ramadas...
Hastes envelhecidas e quebradas
galgando as asperezas da vertente.

A cheia arrasa os frutos e a semente,
a terra inculta, as várzeas fecundadas,
e vai perder-se, ao longe, nas quebradas,
numa fúria cruel e inconsciente.

Em nós ainda é mais funda, ainda é mais vasta,
esta ansiedade enorme e sem perdão,
que nos fere, nos tolhe e nos devasta...

As árvores desprendem-se e lá vão...
Mas nós ficamos porque nada arrasta 
as raízes fiéis dum coração.


Fernanda de Castro (Lisboa, 1900-1994)

Jardim (1928)

29 de maio de 2024

25 poemas passados para português - #24


SE


Se podes conservar o teu bom senso e a calma
No mundo a delirar para quem o louco és tu...

Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê... Se vais faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer do pensamento um arco de aliança,
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo o amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio a construir de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos,
Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti à luz da eternidade...

Se quem conta contigo encontra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos...

Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!


Rudyard Kipling (Malabar Hill, Bombaím, 1965 - Londres, 1936),
in Rewards and Fairies (1910)
verão de Félix Bermudes (Porto, 1874 - Lisboa, 1960)

28 de maio de 2024

101 poemas portugueses - #39


 INCONSTÂNCIA

A Aquilino Ribeiro


Tenho, às vezes, vontade de deixar-te.
E tenho, às vezes, medo de perder-te.
Não sei, às vezes, se hei-de abandonar-te,
Não sei, às vezes, se hei-de mais prender-te.

Por mais que queira, às vezes, esquecer-te,
Por mais que entenda, às vezes, ignorar-te,
Sinto o desejo enorme só de ter-te
Junto de mim na ânsia de abraçar-te.

Por mais que feche os olhos p'ra não ver-te
Ainda te encontro mais por toda a parte,
Tenha embora vontade de esconder-te.

Vivo nesta tortura de buscar-te,
Nesta inconstância atroz de não querer-te,
-- Meu fugidio sonho da minha Arte.

Alexandre de Córdova (Santo Tirso, 1896-1969)
Primavera Voluptuosa (1953)

21 de maio de 2024

25 poemas passados para português - #23


ÁRVORE

Era uma árvore sem nome que à noite
não em todas as noites mas em algumas
se tornava quase luminescente
como um tic vegetal da sua alegria

mas as corujas e os morcegos
as corujinhas e os mochos
ficavam tão perplexos
que desapareciam

e no entanto ela era assim
porque aquela árvore albergava
um sentimento em cada folha
e a luminescencia apenas era
a excitaçao do seu coração

numa noite de tempestade
um raio abrigou-se na sua copa
mas esta não apagou as suas luzes
e o raio desfez-se

há que ter em atenção
que em cada amanhecer
a árvore apagava-se
isto é dormia

às vezes despertava
cheia de passarinhos
mas não era a mesma coisa


Mario Benedetti (Paso de los Toros, 1920 - Montevidéu, 2009),
El Mundo que Respiro (2001)
versão de Ricardo António Alves



ÁRBOL

Era un árbol sin nombre que en las noches
no en todas las noches sino algunas
se volvía casi fosforescente
como un tic vegetal de su alegría

pero las lechuzas y los murciélagos
y los mochuelos y los búhos
quedaban tan perplejos
que se desvanecían

y sin embargo ello era así
porque aquel árbol albergaba
un sentimiento en cada hoja
y la fosforescencia apenas era
el pavoneo de su corazón

en una noche de tormenta
un rayo se abrigó en su copa
pero ésta no apagó sus luces
y el raio se hizo nada

hay que considerar
que en cada amanecer
el árbol se apagaba
es decir se dormía

a veces despertaba
lleno de pajaritos
pero no era lo mismo


11 de maio de 2024

101 poemas portugueses - #38


TRÊS PERSONAGENS


Em pleno inverno e no calor de Agosto, 
vejo-os passar, na tarde loira ou baça...
Ela, tem distinção, tem certa graça,
certa elegância calma, de bom gosto.

Leva um livro amarelo. Bem disposto,
um galgo inglês, cheio de nervo e raça,
acompanha-a. Sei sempre a que horas passa,
grave, serena, esfíngica; -- ao Sol posto.

Quem é? Quem são?... Nem lhes conheço o nome!
O acaso, por acaso, destinou-me
a vê-los passar juntos, todos três...

Donde vêm? Onde vão? -- Quem o adivinha?
O que eu sei, é que passam à tardinha
ela, o livro amarelo, e o galgo inglês...

Virgínia Vitorino (Alcobaça, 1895 - Lisboa, 1967),
Renúncia (1926)

4 de maio de 2024

101 poemas portugueses - #37.


A NOITE DESCE

Como pálpebras roxas que tombassem
Sobre uns olhos castanhos, carinhosos,
A noite desce... Ah! doces mãos piedosas
Que os meus olhos tristíssimos fechassem!

Assim mãos de bondade me embalassem!
Assim me adormecessem, caridosas,
E em braçadas de lírios e mimosas,
No crepúsculo que desce me enterrassem!

A noite em sombra e fumo se desfaz...
Perfume de baunilha ou de lilás,
A noite põe-me embriagada, louca!

E a noite vai descendo, muda e calma...
Meu doce Amor, tu beijas a minh'alma
Beijando nesta hora a minha boca!



Florbela Espanca (Vila Viçosa, 1894 - Matosinhos, 1930)
Poesia da Noite, selecção e prefácio de Urbano Tavares Rodrigues


(lido numa sessão de 2011)

3 de maio de 2024

o início de ETERNIDADE

«Manhã alta, toda vestida de azul, com folhos brancos que o mar tecia e esfarrapava ao sabor da ondulação, a sombra escortinada na linha do horizonte ia crescendo e definindo-se em caprichoso recorte.» 

Ferreira de Castro, Eternidade (1933), 14.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1989, p. 21.

2 de maio de 2024

1º DE MAIO COM FERREIRA DE CASTRO

 

1 DE MAIO DE 1974: Ferreira de Castro participa na manifestação do 1º de Maio em Lisboa.
A pedido do cineasta Glauber Rocha, o romancista deixa uma mensagem:
“A mim ainda me parece inverosímil que, após quase 50 anos de opressão e de falta de liberdade, o povo português se tenha libertado dessa mesma opressão e que sinta hoje, sinta nos últimos dias, uma alegria que é verdadeiramente indescritível! E aproveito a ocasião para saudar, no Brasil, os brasileiros, os meus camaradas brasileiros, aos quais estou profundamente ligado pelo coração e pelo espírito!” [Fonte: CENTRO DE ESTUDOS FERREIRA DE CASTRO].

Pela nossa parte, fomos ontem em romagem à sepultura do Mestre na Serra de Sintra:



O ar estava frio, mas alegre. Os turistas abundavam, descendo e subindo as veredas da Serra. Foi bom. 

30 de abril de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XIII

 

OS EPITÁFIOS – EPITÁFIO PARA UM DOS GRANDES DO MUNDO

 

Tapando a ouro as chagas e os agravos,

Lidou com seus irmãos como com bestas:

Das fêmeas comprou a carne,

Dos machos, a consciência e a vontade.

No ódio dos escravos

Perdurou sua memória.

De histórias como estas,

Não continua a história

Senão na Eternidade.

 

--- Filho do Homem, 1961


28 de abril de 2024

101 poemas portugueses - #36


O BALOIÇO


Na minha quinta, em pequeno,
Tive um inquieto baloiço
Que ainda o vejo sereno
E nele os meus gritos oiço.

Longas horas baloiçava
Meu frágil corpo menino.
E ora subia ou baixava
Num constante desatino.

Nesse baloiço, à distância,
Chama por mim minha infância
E eu chamo p'lo que passou.

E sem haver quem me oiça
O baloiço me baloiça
Entre o que fui e o que sou.



Alfredo Guisado  (Lisboa, 1891-1975) 
A Lenda do Rei Boneco (1920) / Líricas Portuguesas - 2.ª Série
(edição de Cabral do Nascimento)

25 de abril de 2024

LIBERDADE !

 LIBERDADE



Do espaço que libertámos um dia

Surgiu límpido o teu nome liberto

Era um pássaro a destruir a noite

Era uma voz a perfurar o silêncio

Era um grito a romper o muro

Um punho fechado em rosa aberta


Habitar o Tempo, Vieira de Freitas, 1975

24 de abril de 2024

José Afonso, «Chamaram-me cigano»


Chamaram-me um dia cigano e maltês
Menino, não és boa rés abri uma covaNa terra mais funda fiz delaA minha sepultura entrei numa grutaMatei um tritão mas tiveO diabo na mão havia um comboioJá pronto a largar e viO diabo a tentar pedi-lhe um cruzadoFiquei logo ali num leitoDe penas dormi puseram-me a ferrosSoltaram o cão mas tive o diabo na mãoVoltei da charola de cilha e arnêsAmigo, vem cá outra vezSubi uma escada ganhei dinheiramaSenhor D fulano Marquês perdi na roletaGanhei ao gamão mas tiveO diabo na mão ao dar uma voltaCaí no lancil e veioO diabo a ganir nadavam piranhasNa lagoa escura tamanhasQue nunca tal vi limpei a viseiraPeguei no arpão mas tiveO diabo na mão


23 de abril de 2024

#25 poemas passados para português - #22


A mim o que me mata,

querido efebo, digo-te:

desejo sem prazer,

versos sem graça ou ritmo

e ceias só com chatos.


Arquíloco (, Jónia, Séc. VII a. C.)

in Jorge de Sena, Poesia de 26 Séculos (1972)

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XII

 

O AMOR E A MORTE - MONÓLOGO A DOIS


Sábia talvez inconsciente,

Doseando, com volúpia, uma ancestral sofreguidão,

Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,

Me acaricia a tua mão.

 

De olhos fechados me abandono, ouvindo

Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,

E, sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo

Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…

 

--- Filho do Homem, 1961


21 de abril de 2024

Pelo Tejo vai-se para o mundo (03)

 BAPTISMO

Cada anoitecer volto a ler as tuas cartas
que nunca me escreveste e guardo nas gavetas
transparentes para os ladrões não as encontrarem
- como observar o ar no ar, a luz na luz?
No interior do passado há muitos passados,
muitas memórias a ramificarem como
pequenos capilares do tempo. Lembrança
também é tudo aquilo que nunca chegámos
a viver, a ver e a dizer um ao outro,
tudo o que ficou levemente colado
ao coração, qual pestana prestes a voar.
Não é por estarem mortas antes de nascerem
que as almas já não são almas. Nem as palavras
palavras. Faltou-lhes apenas a água fria
do baptismo e alguém que acreditasse nelas.



Gemma Gorga (1968) em Resistir Ao Tempo - antologia de poesia catalã (edição bilingue)
Organização e tradução do catalão: Àlex Tarradellas, Rita Custódio e Sion Serra Lopes
Assírio & Alvim
1ª edição, Junho de 2021
Página 585

19 de abril de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XI

 

O AMOR E A MORTE – POEMA

 

Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo.

Fecharam-se-me os olhos sem querer…

De que abismos voava até ao fundo?

E a minha mão sondava

E triturava

Aquele mundo

Tão pequenino e tão complexo:

O teu mistério de mulher.

 

--- Filho do Homem, 1961


17 de abril de 2024

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. XXIV

 

O PALÁCIO DA VENTURA


Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante,

O palácio encantado da Ventura.


Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura...

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes, bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro com fragor...

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão - e nada mais!


Antero de Quental, Sonetos



101 poemas portugueses - #35


QUASE


Um pouco mais de sol -- eu era brasa.

Um pouco mais de azul -- eu era além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...

 

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído

Num baixo mar enganador de espuma;

E o grande sonho despertado em bruma,

O grande sonho -- ó dor! -- quase vivido...

 

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,

Quase o princípio e o fim -- quase a expansão...

Mas na minh'alma tudo se derrama...

Entanto nada foi só ilusão!

 

De tudo houve um começo... e tudo errou...

-- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... --

Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,

Asa que se elançou mas não voou...

 

Momentos de alma que desbaratei...

Templo aonde nunca pus um altar...

Rios que perdi sem os levar ao mar...

Ânsias que foram mas que não fixei...

 

Se me vagueio, encontro só indícios...

Ogivas para o sol -- vejo-as cerradas;

E mãos de herói, sem fé, acobardadas,

Puseram grades sobre os precipícios...

 

Num ímpeto difuso de quebranto,

Tudo encetei e nada possuí...

Hoje, de mim, só resta o desencanto

Das coisas que beijei mas não vivi...

 

...............................................................

...............................................................

 

Um pouco mais de sol -- e fora brasa,

Um pouco mais de azul -- e fora além.

Para atingir, faltou-me um golpe de asa...

Se ao menos eu permanecesse aquém...


Mário de Sá-Carneiro (Lisboa, 1890 - Paris, 1916),

Dispersão (1914)

14 de abril de 2024

101 poemas portugueses - #34


Que somos nós? Navios que passam um pelo outro na noite,
Cada um a vida das linhas das vigias iluminadas
E cada um sabendo do outro só que há vida lá dentro e mais nada.
Navios que se afastam ponteados de luz na treva,
Cada um indeciso diminuindo para cada lado do negro
Tudo mais é a noite calada e o frio que sobe do mar.

Fernando Pessoa (Lisboa, 1888-1935),
Álvaro de Campos -- Livro de Versos
(edição de Teresa Rita Lopes)

10 de abril de 2024

25 poemas passados para português - #21


TRABALHAR CANSA


Atravessar uma rua para fugir de casa

só um rapaz é que o faz, mas este homem que vagueia

todo o dia pelas ruas já não é um rapaz

e não está a fugir de casa.

                                             Há tardes

no verão em que até as praças ficam vazias, estendidas

sob o sol que está prestes a pôr-se, e este homem, vindo

por uma alameda de inúteis plantas, pára.

Vale a pena estar sozinho, para se estar cada vez mais sozinho?

Vaguear por elas apenas, as praças e as ruas

estão vazias. É preciso travar uma mulher

e falar com ela e convencê-la a viver a dois.

Ou então fica-se a falar sozinho. Daí que por vezes

haja o bêbedo nocturno que mete conversa,

e conta os projectos de uma vida inteira.


Não é certamente aguardando na praça deserta

que se encontra alguém, mas quem vagueia pelas ruas

detém-se por vezes. Se fossem dois,

mesmo a andar pela rua, a casa seria

onde está aquela mulher, e valeria a pena.

Volta a praça a ficar deserta à noite,

e este homem, que passa, não vê as casas

entre as luzes inúteis, já não ergue os olhos:

sente apenas a calçada, que outros homens fizeram

com mão endurecidas, como são as suas.

Não é justo ficar na praça deserta.

Andará com certeza pela rua a mulher

que, rogada, daria com gosto um jeito na casa.


Cesare Pavese (Santo Stefano Belbo, Piemonte, 1908 - Turim, 1950),

Trabalhar Cansa (1936)

Versão de Vasco Gato, Lisboa, 1978) 


 original

8 de abril de 2024

101 poemas portugueses - #33


AMOR-METEORO


Encontrei-a no cais, ao embarcar,
E, após um curto olhar retribuído,
Tão preso me senti, tão seduzido,
Que até como isto foi nem sei contar.

Só sei que agradeceu o meu olhar
Com outro mais gentil e enternecido,
E que fiquei em terra possuído
De um ódio torvo e estranho contra o mar.

Não mais em minha face inconsolável
Demorará seus olhos de veludo!
Não mais aquele instante inolvidável!

Um protesto de amor ardente e mudo,
Um sorriso, uma dor incomportável,
Um triste volver de olhos... e foi tudo.


Ed. Bramão de Almeida (1887-?), 
Maré Alta (1934)

5 de abril de 2024

o início de O MEU TIO DE NANTES

«Os ossos vão em caixinhas para Lisboa, para o Porto, para Coimbra.» Carlos Daniel, O Meu Tio de Nantes, Fundão e Amadora, Jornal do Fundão / Canto Redondo, 2023, p. 9.

4 de abril de 2024

25 poemas passados para português - #20


FIM DO MUNDO


Salvo sem pressa um

cristal de rocha, uma

medalha; salvo um verso

e uma pluma no ar;

um cheiro a pão,

uma janela sobre o nada

aberta de par em par.


Ángel Crespo (Alcolea de Calatrava, 1926 - Barcelona, 1995)

30 Poemas (1984)

versão de Eugénio de Andrade (Póvoa de Atalaia, Fundão, 1923 - Porto, 2005)

3 de abril de 2024

 O MEU TIO DE NANTES


"Nós íamos a pé para os aterros do rio e demorávamos mais de uma hora a chegar lá, troc, troc, por aquelas veredas abaixo e ele no seu cestinho de vime à cabeça da tia Teresa que já teria para aí uns dezoito ou dezanove anos (... ...) Depois pousava-o numa sombra, ou embrulhadinho em cobertores, no pino do inverno,  e quando ele chorava muito ela dizia-me assim: «Ó Gilda toma lá conta dele que tu és ainda muito pequenina para andares aqui com as perninhas dentro desta água tão fria o dia inteiro.» E às vezes era eu que ficava com ele ao colo. Eu acho que ele chorava de fome, coitadinho, e eu abanava-o, abanava-o até a tia Teresa ter outra vez um bocadinho de leite para ele mamar porque ela tinha muito pouco leite. Ó filho, quando hoje me lembro disto tudo até me parece que aquilo não pode ter acontecido: irmos três garotas, no pino do frio e do calor, para o Cabeço do Pião com uma merendita para o dia inteiro e a tia Teresa com aquela cestinha de vime à cabeça, com o Floriano lá dentro, que veio a casar com uma Palmira de Moncorvo e eram primos da Fernanda do Lúcio que trabalhava na Câmara do Barreiro e que o marido a deixou. E passávamos o dia inteiro a arear, a arear dentro do rio... e aquele menino à cabeça para trás e para diante.

Ai filho(...)"

(Pg. 79-80)


Este belíssimo livro, que se lê com gula e deleite, é assinado por Carlos Daniel. Contudo, podemos afirmar que a verdadeira autora é a Senhora sua Mãe, Dona Gilda, que em grande parte lho 'ditou', através de longos telefonemas ou em conversas dispersas ao longo da vida. A Carlos Daniel coube a meritória tarefa de, com talento e arte, converter os monólogos telefónicos e os pitorescos relatos da anciã em belíssimas peças de prosa.  

Um abraço de parabéns, Carlos Daniel. Antevejo uma sessão animada e enriquecedora, na qual, com muita pena minha, não poderei estar presente. 

F. Faria



1 de abril de 2024

101 POEMAS PORTUGUESES - #31


SONETO DA VISITAÇÃO


Vinde, adorai! Criados e parentes!
Tenho o presépio em nossa casa armado.
Vinde adorar o meu menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!

Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? o meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!

E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante dum festivo altar.

Que perfeição! Que enlevo de criança!
-- E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p'ra o criar.

António Sardinha (Monforte, 1887 - Elvas, 1925)
A Epopeia da Planície (1915) /
/ Líricas Portuguesas - 2.ºªSérie
(edição de Cabral do Nascimento)

29 de março de 2024

101 POEMAS PORTUGUESES - #30


CANÇÃO DO NU

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.


Afonso Duarte (Ereira, Montemor-o-Velho, 1884 - Coimbra, 1958),
Rapsódia do Sol-Nado seguido de Ritual do Amor (1916)