13 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (37)

 

QUALQUER COISA DE INTERMÉDIO

 

                    Eu não sou um nem outro:

                        Sou qualquer coisa de intermédio

                                                                M. de Sá-Carneiro

 

Se eu fosse o outro,

o do chapéu macio e do bigode

eternizado em cúbico arremedo,

angústia dividida em tantas partes

e óculos redondos,

podia-te contar eu guardador e sonhos

 

Se eu fosse o outro,

o delicado e bêbado génio de nós todos,

o que amou estranho e sabia dizer

coisas enormes numa pequena língua

e fraco império,

se eu fosse aquele inteiro

ditado de exageros e exclusões,

falava-te de tudo em ingleses versos

 

E mesmo se não foi ele quem disse

(e podia até ser, que eram amigos

e o século a nascer arrepiava como já não

o fim) há razão nessa história do pilar

e do tédio a escorrer de um

para o outro

 

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê (1990)


12 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (36)

 

O PUGILATO ORTOGRÁFICO

 

Saía a tasquinhar uma banana

e a assobiar o Barba Azul, contente…

quando um homem de farda, e outro à paisana,

se esmurram e assopapam rijamente.

 

Ferro pelo cachaço o mais valente,

o qual me diz com cólera e com gana:

– «Saiba o senhor que esta guerreia insana

«é toda por um chícharo somente!»

 

« – Um chícharo!», guincha o outro mais trigueiro

que tinha as omoplatas num pandeiro,

e em sarrabulho as ventas e o nariz…

 

«Maroteira mais pícara não há!

«Chícharo escrevo eu, com ch.

« Ousa escrevê-lo este marau com x.»

 

GOMES LEAL, Mefistófeles em Lisboa (1907)

 

11 de novembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. VI

 


CANTIGA SUA PARTINDO-SE


Senhora, partem tão tristes

meus olhos por vós, meu bem,

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.


Tão tristes, tão saudosos,

tão doentes da partida,

tão cansados, tão chorosos,

da morte mais desejosos

cem mil vezes que da vida.


Partem tão tristes os tristes,

tão fora d'esperar bem,

que nunca tão tristes vistes

outros nenhuns por ninguém.


JOÃO ROIZ DE CASTEL-BRANCO (Séc. XV-XVI)

101 poemas portugueses - #7


Que assim sai a manhã, serena e bela?
Como vem no horizonte o sol raiando!
Já se vão os outeiros divisando,
já no céu se não vê nenhuma estrela.

Como se ouve na rústica janela
do pátrio ninho o rouxinol cantando!
Já lá vai para o monte o gado andando,
já começa o barqueiro a içar a vela.

A pastora acolá, por ver o amante,
com o cântaro vai à fonte fria;
cá vem saindo alegre o caminhante;

Só eu não vejo o rosto da alegria:
que enquanto de outro sol morar distante,
não há-de para mim nascer o dia.

João Xavier de Matos (c. 1730/35 - Vila de Frades, 1789)
in M. Rodrigues Lapa, Poetas do Século XVIII (1967)

TEM DIAS VI

 

Rentes que aves são...


Rentes que aves são o grito alucinado

deste inverno de carumas frias

roçando o fumo das leiras em fermento


gritos que aves rentes despedaçam

pelos ossos de brancura consumidos

deste frio que o inverno roça


aves que o espaço habita de viagem

de rumor secreto de olhar ferido


este é o inverno que vos dou

na pureza do sal e das carumas.



A. J. VIEIRA DE FREITAS, habitar o tempo, Cadernos do Círculo de Poesia,Moraes Editores, Lisboa, 1975.



[Natural da Madeira foi professor do ensino secundário, poeta, ensaísta e crítico. O seu espectro literário vai de Rilke a Octávio Paz. "Poemas limpos. Palavras-casulo. Sobre elas, (...)desce, por vezes, o pólen de Rilke, de Eugénio de Andrade", disse Jorge Listopad na Colóquio, 1977.].

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (35)

 

LOST WEEKEND

 

Um dia é maior do que a soma

das suas horas, às vezes comporta

todos os invernos e as estações assombradas

pelos prejuízos do prazer.

 

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?

A cidade não foi feita para as nossas pretensões,

está apenas alastrada por dentro de nós, crispação

de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.

 

Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,

é a própria razão que nos ilumina os atalhos

para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente

para tudo o que não nos acontece.

 

RUI PIRES CABRAL, Música Antológica & Onze Cidades (1997)


10 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (34)

 

NAMBUANGONGO MEU AMOR

 

Em Nambuangongo tu não viste nada

não viste nada nesse dia longo longo

a cabeça cortada

e a flor bombardeada

não tu não viste nada em Nambuangongo.

 

Falavas de Hiroxima tu que nunca viste

em cada homem um morto que não morre.

Sim nós sabemos Hiroxima é triste

mas ouve em Nambuangongo existe

em cada homem um rio que não corre.

 

Em Nambuangongo o tempo cabe num minuto

em Nambuangongo a gente lembra a gente esquece

em Nambuangongo olhei a morte e fiquei nu. Tu

não sabes mas eu digo-te: dói muito.

Em Nambuangongo há gente que apodrece.

 

Em Nambuangongo a gente pensa que não volta

cada carta é um adeus em cada carta se morre

cada carta é um silêncio e uma revolta.

Em Lisboa na mesma isto é a vida corre.

E em Nambuangongo a gente pensa que não volta.

 

É justo que me fales de Hiroxima.

Porém tu nada sabes deste tempo longo longo

tempo exactamente em cima

do nosso tempo. Ai tempo onde a palavra vida rima

com a palavra morte em Nambuangongo.

 

MANUEL ALEGRE, Praça da Canção (1965)


9 de novembro de 2023

TEM DIAS V

 


Cavalos


 Eu oiço-os cavalgar nas nuvens negras
do crepúsculo da noite da solidão
os meus cavalos perdidos nas batalhas.
Galopam no horizonte sem fronteiras
suas crinas de estrelas e desastres
suas garupas com restos de bandeiras.
Trazem no vento sul as cítaras e a chuva
e trazem os tambores do vento norte.
Eu oiço-os cavalgar nas nuvens negras
os meus cavalos sobre a noite e a morte.


MANUEL ALEGRE, Senhora das Tempestades, Publicações Dom Quixote,Lisboa,1998



[Prefácio de Vitor Aguiar e  Silva que disse: " Manuel Alegre foi sempre um exímio e apurado arquitecto e construtor de ritmos, de  sonoridades e melodias verbais"]

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (33)

 

O MARQUÊS DE CHAMILLY A MARIANA ALCOFORADO

 

Minha senhora deve ter

uma coisa muito urgente e capital

a dizer-me

porque me tem escrito muito

e muitas vezes

porém lamento dizer-lho

mas não percebo

a sua letra

já mostrei as suas cartas

a todas as minhas amigas

e à minha mãe

e elas também não percebem bem

não me poderia dizer

o que tem a dizer-me

em maiúsculas?

ou pedir a alguém

com uma letra mais regular

que a sua

que me escreva

por si?

como vê tenho a maior vontade

em lhe ser útil

mas a sua letra minha senhora

não a ajuda

 

ADÍLIA LOPES,  O marquês de Chamilly (Kabale und Liebe)  (1987)

 

 

8 de novembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. V

 

Não creias, Lídia, que nenhum estio

Por nós perdido possa regressar

    Oferecendo a flor 

    Que adiámos colher.


Cada dia te é dado uma só vez

E no redondo círculo da noite

    Não existe piedade

    Para aquele que hesita.


Mais tarde será tarde e já é tarde.

O tempo apaga tudo menos esse

    Longo indelével rasto

    Que o não-vivido deixa.


Não creias na demora em que te medes.

Jamais se detém Kronos cujo passo

    Vai sempre mais à frente

    Do que o teu próprio passo.


Sophia de Mello Breyner Andresen

(Dual)





TEM DIAS IV

 


Poema


Há seres
que passam entre nós
a nosso lado


e deixamos
que a morte
os tome


sem darmos
pela luz
que veio com eles



FERNANDO J. B. MARTINHO, Um poema para Fiama, Labirinto,2007


[antologia coordenada por Maria Teresa Dias Furtado e Maria do Sameiro Barroso no âmbito da homenagem à Obra Poética de Fiama]

25 poemas passados para português - #1

 

A porta entreaberta,

como cheiram as tílias.

O pingalim, a luva

na mesa esquecidos.


A luz, rodela triste...

A noite a restolhar.

E por que te partiste?

Para mim não é claro...


Amanhã será alegre 

e clara a madrugada.

Como esta vida é bela,

ó meu coração, calma.


Cansado, e te senti

tão surdas as pancadas.

Mas ouve o que eu li:

Nunca morrem as almas.


[1911]

Anna Akhmátova (Odessa, 1889 - Leningrado / São Petersburgo, 1966)

[versão de Nina Guerra e Filipe Guerra, in Só o Sangue Cheira a Sangue (2000)]

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (32)


EPÍSTOLA PARA UM CISNE

 

Cisne, que não conheces na água o teu reflexo verde

quando sob o teu corpo é dia e o sol afaga quedo

ou quando do teu parte há a sombra negra igual

a tudo o que está negro, e é noite, e abandono e medo.

Nem concebes o amor, nem Leda, nem sequer eu mesma

que te amo no poema e temo o canto imaginado

que não cantaste agora ou não ouvi, de madrugada

quando a minha mãe morta era somente insone.

Nunca viste a beleza, nem a vida e os lábios

que sopram as primeiras e últimas palavras, ou

o hálito que sai sem voz da dor mais desolada.

Nem a doença, a morte e os olhos sem imagens

do ar e das cores várias viste em que tu vogas branco.

É falso que celebres sozinho a tua morte e o fim,

se não sabes que só o teu outro cisne se perde.

Mas quando vi insone e logo morta a minha mãe

estou certa de que a cega, a muda, falsa ave cantou.

 

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO, Epístolas e Memorandos (1996)

 

7 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (31)

 

nada os meus olhos deixarão na cinza

das vastas folhas envidraçadas: nem

o astrológico número das horas

autorizadas pela autoridade e a sua penumbra.

a «penumbra da autoridade» vem vestida

de muitos horizontes com, aqui ou além, um barco

de velas estilhaçadas, ou a capa de um livro

de viagens na vitrina.

então o amor mistura-se com as coisas breves,

os pássaros, o rumor dos alicates na gaveta branca.

foi esta a sua história? esta canção pertence-lhe?

a «greve» alourou-lhe as sobrancelhas? estes olhos

têm o plástico ao contrário. e o ruído

das torneiras no balde, mesmo

à beira do precipício,

é um inconveniente que convém manter

sob vigilância.

 

ANTÓNIO FRANCO ALEXANDRE, Os Objectos Principais (1979)


TEM DIAS III

 

Vozes para além do rio. São água
também, correm até à foz
do meu ouvido. E refluem agora,
líquidas, da foz do meu olvido.
Além do rio, vozes e acenos. Gritos
tão leves, sobre os anos voando.
A minha mão, a minha mão também
esgueira um gesto curto enquanto
a outra escreve. Desenha 
no papel seco a ponte, as pontes, todos
os corredores das vozes donde chego
à relva desta margem.


PEDRO TAMEN, Memória Indescritível, gótica, Lisboa,2000

o início de MIL SÓIS RESPLANDECENTES

«Mariam tinha cinco anos a primeira vez que ouviu a palavra harami.» 

Khaled Hosseini, Mil Sóis Resplandecentes [2007], 8.ª ed.,  trad. Manuel Madureira, Queluz de Baixo, Editorial Presença, 2021, p.11.

6 de novembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. IV

 

O Esposo:

Quão formosa e encantadora és,

meu amor, minhas delícias.

O teu porte assemelha-se ao da palmeira,

e os teus seios são os seus cachos.

Eu disse: subirei à palmeira,

e colherei os seus frutos.

Os teus seios serão para mim 

como cachos de uvas,

e o perfume da tua boca,

como o odor das maçãs.

A tua palavra é como um vinho excelente

que corre deliciosamente para o amado,

e desliza por entre os seus lábios e os seus dentes.


A Esposa:

Eu sou para o meu amado,

e os seus desejos voltam-se para mim.

Vem, meu amado,

saiamos para o campo,

passemos a noite nos pomares;

madrugaremos para ir às vinhas,

e ver se a vinha lançou rebentos,

e se as flores se abrem,

se as romãzeiras estão em flor.

Ali te darei os meus amores.

As mandrágoras exalam o seu perfume;

e temos à nossa porta

frutos excelentes,

novos e velhos, 

que guardei para ti, meu amado.


(Cântico dos Cânticos, Cap. 7. Edição da Difusora Bíblica)

Poema atribuído a Salomão, por uma velha tradição, sem grande fundamento histórico. 

É mais provável que tenha sido composto no século IV a.C.





POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (30)

 

NO MEIO DO CAMINHO

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Alguma Poesia (1930)


5 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (29)

 

sida

 

aqueles que têm nome e nos telefonam

um dia emagrecem – partem

deixam-nos dobrados ao abandono

no interior duma dor inútil muda

e voraz

 

arquivamos o amor no abismo do tempo

e para lá da pele negra do desgosto

pressentimos vivo

o passageiro ardente das areias – o viajante

que irradia um cheiro a violetas nocturnas

 

acendemos então uma labareda nos dedos

acordamos trémulos confusos – a mão queimada

junto ao coração

 

e mais nada se move na centrifugação

dos segundos – tudo nos falta

nem a vida nem o que dela resta nos consola

a ausência fulgura na aurora das manhãs

e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos

o rumor do corpo a encher-se de mágoa

 

assim guardamos as nuvens breves os gestos

os invernos o repouso a sonolência

o vento

arrastando para longe as imagens difusas

daqueles que amámos e não voltaram

a telefonar

 

AL BERTO, Horto de Incêndio (1997)


4 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #6


À NOITE DE NATAL

Era noite de inverno longa e fria
Cobria-se de neve o verde prado;
O rio se detinha congelado,
Mudava a folha cor, que ter soía.

Quando nas palhas duma estrebaria,
Entre dois animais brutos lançado,
Sem ter outro lugar no povoado
O Menino Jesus pobre jazia.

-- Meu amor, meu amor, porque quereis
(Dizia Sua Mãe) nesta aspereza
Acrescentar-me as dores que passais?

Aqui nestes meus braços estareis;
Que, se Vos força amor sofrer crueza,
O meu não pode agora sofrer mais.


Frei Agostinho da Cruz (Ponte da Barca, 1540 - Setúbal, 1619)
Poesias Selectas (edição de Augusto C. Pires de Lima) 

TEM DIAS II

 

134

O que pode representar perder ou ganhar tempo? Acha que isso é possível? Acha que o tempo pode outra coisa que não seja perder-se?.


ANA HATHERLY, 73 TISANAS  (INÉDITAS).

Poesia(1958-1978), Círculo de Poesia, Moraes Editores.

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (28)

 

ELÉCTRICO II

 

                                           (Num carro para Campolide. Dia sexual.)

 

Uma mulher de carne azul,

semeadora de luas e de transes,

atravessou o vidro

e veio, voadora,

sentar-se ao meu colo

na nudez reclinada

dum desdém de espelhos.

 

(Mas que bom! Ninguém suspeita

que levo uma mulher nua nos joelhos.)

 

JOSÉ GOMES FERREIRA, Poesia III  (1961)


3 de novembro de 2023

TEM DIAS 1

 O PALÁCIO DA VENTURA


Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante

O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura...

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão - e nada mais!


                                         Antero 





POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL - III

 

DE TARDE


Naquele piquenique de burguesas

Houve uma coisa simplesmente bela

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o Sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão-de-ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!


Cesário Verde



POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (27)

 

A MORTE É QUE ESTÁ MORTA

 

                                                          Para José Régio

 

A morte é que está morta.

Ela é aquela Princesa Adormecida

no seu claro jazigo de cristal.

Aquela a quem, um dia – enfim – despertarás…

 

E o que esperavas ser teu suspiro final

é o teu primeiro beijo nupcial!

 

– Mas como é que eu te receava tanto

(no teu encantamento lhe dirás)

e como podes ser assim – tão bela?

Nas tantas buscas, em que me perdi,

vejo que cada amor tinha um pouco de ti…

 

E ela, sorrindo, compassiva e calma:

 

– E tu, porque é que me chamas Morte?

Eu sou, apenas, tua Alma…

 

MARIO QUINTANA, Apontamentos de História Sobrenatural (1976)


2 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTGUESA, século XX (26)

 

TENDO LIDO UMA CARTA ACERCA DE UM SEU LIVRO DE POEMAS, QUE OFERECERA

 

Por que entristeço ao ler o que de meus

versos escrevem, se não é de mim

que escrevem?

Será que chora em mim o que meus versos foram

antes de ser meus?

Por que pergunto, se já sei por quê?

 

Escuto longamente, leio, espero,

e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,

não se tendo ouvido, não a sabem sua.

E vêm chorar em mim o coração traído,

a música perdida em distracções urgentes,

umas palavras que ninguém falou.

 

Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,

e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.

 

                                                                                   5/1/1951

 

JORGE DE SENA, Post-Scriptum (edição póstuma)



1 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #5


ESPARSA

sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado
Fui mau mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

Luís de Camões, Poesia Lírica
ed. Isabel Pascoal (2002)

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (25)


DO LIVRO SEGUNDO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ  5

 

Entendo agora a nudez do pobre

E posso tocar-lhe como quem toca a alma às escuras

Mesmo sem a tremenda noite com que lhe toca a mão divina

 

O terceiro modo da paixão são os extremos. Agora entendo

Os dedos dos cegos

Agora entendo o ovo e o mártir quando é cercado para morrer

Entendo o ventre do bicho marinho, o fundo dos golfos

E já sei como abrem os ressuscitados os olhos no sepulcro

 

Sei o que é ser vomitado nas praias

O que é voltar a terra firme – ao dia mais do que à luz

 

Sei o que é o ouro no fogo e no inferno

Sei o que é renascer pelas águas

 

DANIEL FARIA (1971-1999), Poesia (edição póstuma)