6 de novembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. IV

 

O Esposo:

Quão formosa e encantadora és,

meu amor, minhas delícias.

O teu porte assemelha-se ao da palmeira,

e os teus seios são os seus cachos.

Eu disse: subirei à palmeira,

e colherei os seus frutos.

Os teus seios serão para mim 

como cachos de uvas,

e o perfume da tua boca,

como o odor das maçãs.

A tua palavra é como um vinho excelente

que corre deliciosamente para o amado,

e desliza por entre os seus lábios e os seus dentes.


A Esposa:

Eu sou para o meu amado,

e os seus desejos voltam-se para mim.

Vem, meu amado,

saiamos para o campo,

passemos a noite nos pomares;

madrugaremos para ir às vinhas,

e ver se a vinha lançou rebentos,

e se as flores se abrem,

se as romãzeiras estão em flor.

Ali te darei os meus amores.

As mandrágoras exalam o seu perfume;

e temos à nossa porta

frutos excelentes,

novos e velhos, 

que guardei para ti, meu amado.


(Cântico dos Cânticos, Cap. 7. Edição da Difusora Bíblica)

Poema atribuído a Salomão, por uma velha tradição, sem grande fundamento histórico. 

É mais provável que tenha sido composto no século IV a.C.





POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (30)

 

NO MEIO DO CAMINHO

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, Alguma Poesia (1930)


5 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (29)

 

sida

 

aqueles que têm nome e nos telefonam

um dia emagrecem – partem

deixam-nos dobrados ao abandono

no interior duma dor inútil muda

e voraz

 

arquivamos o amor no abismo do tempo

e para lá da pele negra do desgosto

pressentimos vivo

o passageiro ardente das areias – o viajante

que irradia um cheiro a violetas nocturnas

 

acendemos então uma labareda nos dedos

acordamos trémulos confusos – a mão queimada

junto ao coração

 

e mais nada se move na centrifugação

dos segundos – tudo nos falta

nem a vida nem o que dela resta nos consola

a ausência fulgura na aurora das manhãs

e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos

o rumor do corpo a encher-se de mágoa

 

assim guardamos as nuvens breves os gestos

os invernos o repouso a sonolência

o vento

arrastando para longe as imagens difusas

daqueles que amámos e não voltaram

a telefonar

 

AL BERTO, Horto de Incêndio (1997)


4 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #6


À NOITE DE NATAL

Era noite de inverno longa e fria
Cobria-se de neve o verde prado;
O rio se detinha congelado,
Mudava a folha cor, que ter soía.

Quando nas palhas duma estrebaria,
Entre dois animais brutos lançado,
Sem ter outro lugar no povoado
O Menino Jesus pobre jazia.

-- Meu amor, meu amor, porque quereis
(Dizia Sua Mãe) nesta aspereza
Acrescentar-me as dores que passais?

Aqui nestes meus braços estareis;
Que, se Vos força amor sofrer crueza,
O meu não pode agora sofrer mais.


Frei Agostinho da Cruz (Ponte da Barca, 1540 - Setúbal, 1619)
Poesias Selectas (edição de Augusto C. Pires de Lima) 

TEM DIAS II

 

134

O que pode representar perder ou ganhar tempo? Acha que isso é possível? Acha que o tempo pode outra coisa que não seja perder-se?.


ANA HATHERLY, 73 TISANAS  (INÉDITAS).

Poesia(1958-1978), Círculo de Poesia, Moraes Editores.

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (28)

 

ELÉCTRICO II

 

                                           (Num carro para Campolide. Dia sexual.)

 

Uma mulher de carne azul,

semeadora de luas e de transes,

atravessou o vidro

e veio, voadora,

sentar-se ao meu colo

na nudez reclinada

dum desdém de espelhos.

 

(Mas que bom! Ninguém suspeita

que levo uma mulher nua nos joelhos.)

 

JOSÉ GOMES FERREIRA, Poesia III  (1961)


3 de novembro de 2023

TEM DIAS 1

 O PALÁCIO DA VENTURA


Sonho que sou um cavaleiro andante.

Por desertos, por sóis, por noite escura,

Paladino do amor, busco anelante

O palácio encantado da Ventura!


Mas já desmaio, exausto e vacilante,

Quebrada a espada já, rota a armadura...

E eis que súbito o avisto, fulgurante

Na sua pompa e aérea formosura!


Com grandes golpes bato à porta e brado:

Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...

Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!


Abrem-se as portas d'ouro, com fragor...

Mas dentro encontro só, cheio de dor,

Silêncio e escuridão - e nada mais!


                                         Antero 





POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL - III

 

DE TARDE


Naquele piquenique de burguesas

Houve uma coisa simplesmente bela

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o Sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão-de-ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!


Cesário Verde



POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (27)

 

A MORTE É QUE ESTÁ MORTA

 

                                                          Para José Régio

 

A morte é que está morta.

Ela é aquela Princesa Adormecida

no seu claro jazigo de cristal.

Aquela a quem, um dia – enfim – despertarás…

 

E o que esperavas ser teu suspiro final

é o teu primeiro beijo nupcial!

 

– Mas como é que eu te receava tanto

(no teu encantamento lhe dirás)

e como podes ser assim – tão bela?

Nas tantas buscas, em que me perdi,

vejo que cada amor tinha um pouco de ti…

 

E ela, sorrindo, compassiva e calma:

 

– E tu, porque é que me chamas Morte?

Eu sou, apenas, tua Alma…

 

MARIO QUINTANA, Apontamentos de História Sobrenatural (1976)


2 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTGUESA, século XX (26)

 

TENDO LIDO UMA CARTA ACERCA DE UM SEU LIVRO DE POEMAS, QUE OFERECERA

 

Por que entristeço ao ler o que de meus

versos escrevem, se não é de mim

que escrevem?

Será que chora em mim o que meus versos foram

antes de ser meus?

Por que pergunto, se já sei por quê?

 

Escuto longamente, leio, espero,

e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,

não se tendo ouvido, não a sabem sua.

E vêm chorar em mim o coração traído,

a música perdida em distracções urgentes,

umas palavras que ninguém falou.

 

Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,

e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.

 

                                                                                   5/1/1951

 

JORGE DE SENA, Post-Scriptum (edição póstuma)



1 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #5


ESPARSA

sua ao desconcerto do mundo

Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos
E para mais me espantar
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado
Fui mau mas fui castigado.
Assim que, só para mim,
Anda o mundo concertado.

Luís de Camões, Poesia Lírica
ed. Isabel Pascoal (2002)

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (25)


DO LIVRO SEGUNDO DA NOITE ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ  5

 

Entendo agora a nudez do pobre

E posso tocar-lhe como quem toca a alma às escuras

Mesmo sem a tremenda noite com que lhe toca a mão divina

 

O terceiro modo da paixão são os extremos. Agora entendo

Os dedos dos cegos

Agora entendo o ovo e o mártir quando é cercado para morrer

Entendo o ventre do bicho marinho, o fundo dos golfos

E já sei como abrem os ressuscitados os olhos no sepulcro

 

Sei o que é ser vomitado nas praias

O que é voltar a terra firme – ao dia mais do que à luz

 

Sei o que é o ouro no fogo e no inferno

Sei o que é renascer pelas águas

 

DANIEL FARIA (1971-1999), Poesia (edição póstuma)


31 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (24)

 

Ó tocadora de arpa, se eu beijasse

Teu corpo sem beijar a tua poma

E beijando-o unisse pela soma

Aos quatro sexos meus e te enterrasse

 

Tão fundo o meu caralho que gravasse

Em soberba medalha de cristão

Ajoelhando amigos e irmão

Quando, processional, o entregasse

 

À forma que submete e que extasia,

À forma inteira, igual da luz do dia,

E tu por baixo, árdua, entre os varais.

 

Caverna em estalactites, minha sina.

Não poder eu descê-la, descer mais

Que vê-la e que perdê-la na retina!

 

MÁRIO CESARINY, O Virgem Negra, Fernando Pessoa explicado às criancinhas naturais & estrangeiras por M.C.V. Who Knows Enough About It (1988)

 


30 de outubro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL - II

 

ÉCLOGAS


Lançou-se Limabeu antre uns penedos

Donde via correr um claro rio,

Acostumado a ouvir os seus segredos.


Com os olhos num bosque alto, sombrio,

A quem a primavera já pagava

A perda que lhe fez o tempo frio.


- Aquilo (começou) que vos contava,

Plantas águas, penedos, foi engano;

Já me desenganou quem me enganava.


Mais foi a perda sua que meu dano,

Mas (como dizem) tudo tempo cura,

Pois o que perde o mês não perde o ano.


Enjeita-se no campo a fermosura

Do lírio já colhido, que não cheira:

Mais há de ter o bosque que verdura!


Inda mal! pois não foi esta a primeira

(Como devera ser) que me levara,

Donde não vira mais esta ribeira.


Não falta nos desertos água clara,

A lapa que da clama me defenda,

Se ventar, ou chover, também me ampara.


... ... 


Frei Agostinho da Cruz

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (23)

 

AMOR DA PALAVRA, AMOR DO CORPO

 

                               a Maria Aliete Galhoz

 

A nudez da palavra que te despe.

Que treme, esquiva.

Com os olhos dela te quero ver,

que te não vejo.

Boca na boca através de que boca

posso eu abrir-te e ver-te?

Todo o espaço dou ao espelho vivo

e do vazio te escuto.

Silêncio de vertigem, pausa, côncavo

de onde nasces, morres, brilhas, branca?

És palavra ou és corpo unido em nada?

É de mim que nasces ou do mundo solta?

Amorosa confusão, te perco e te acho,

à beira de nasceres tua boca toco

e o beijo é já perder-te.

 

ANTÓNIO RAMOS ROSA, Nos seus Olhos de Silêncio (1970)


29 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (22)

 

BILHETE PARA O AMIGO AUSENTE

 

Lembrar teus carinhos induz

a ter existido um pomar

intangíveis laranjas de luz

laranjas que apetece roubar.

 

Teu luar de ontem na cintura

é ainda o vestido que trago

seda imaterial seda pura

de criança afogada no lago.

 

Os motores que entre nós aceleram

os vazios comboios do sonho

das mulheres que estão à espera

são o único luto que ponho.

 

NATÁLIA CORREIA, O Vinho e a Lira (1966)


28 de outubro de 2023

101 poemas portugueses - #4

 TROVA À MANEIRA ANTIGA

Comigo me desavim,
Sou posto em todo o perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.


Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse;
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda (Coimbra, 1481 - Amares, 1558)
in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler (1956)

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (21)

 

21.

 

como uma pedra no silêncio

como um chicote na moleza

o pensamento preciso sem cerimónia

dá um passo

 

o ponteiro do relógio com ferrugem

embota as hélices frementes

mas na cilada dos divãs crescente

o pastor de macaco pensa que

não basta cruzar os braços

 

não basta cruzar os braços

esperar a lua entre nuvens

enquanto a paisagem se derrama

não basta pensar um dia

 

roldanas prontas nos guindastes

rolam pesados cabos de aço

 

é preciso criar os dias

é preciso criar o sentido dos dias

 

MÁRIO DIONÍSIO, O Riso Dissonante (1950)


27 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (20)

 

RETRATO DE RAPARIGA

 

Muito hirta     de pé    no patamar do sono

Contornando sem pressa a curva de uma artéria

Por mais ocasional que fosse o nosso encontro

dava-me a entender que estava à minha espera

Com um livro na mão     com um lenço ao pescoço

uma expressão cansada    a palidez inquieta

de quem andasse ao vento ou trouxesse no rosto

em vez de pó-de-arroz um pó de biblioteca

 

surgia de repente onde sempre estivera

em Zurique    em Paris    em Liège    em Colónia

Por único endereço uma carreira aérea

Mas não sei se era louca     ou apenas mitómana

Onde quer que eu a visse uma coisa era certa

Numa rua     num bar    num museu    numa doca

dava-me a entender que estava à minha espera

dava-me a entender que se chamava Europa

 

DAVID MOURÃO-FERREIRA, Do Tempo ao Coração (1966)



26 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (19)

 

Deus,

Precisava bem de ter uma conversa a sério contigo,

se tu não tivesses tido a cobardia de não existires.

Mas safaste-te, não exististe e agora?

Para aqui sem te poder pedir satisfações

e atirar-te à cara com umas tantas questões urgentes

e algum cuspo que viesse atrás.

Se tivesses um pouco de vergonha,

existias mesmo para aguentar com dignidade

o que todos temos para te dizer,

eu, particularmente.

Mas és assim, sem espinha dorsal

e cavaste para onde é o não ser.

Porque eu queria que me dissesses aqui sem tergiversares

para que é que fizeste esta merda.

E não me venhas com o palanfrório da eternidade e o mais,

que não adianta.

Olha agora a gente a aturar os anjinhos e os seus alaúdes

como se isso não fosse mais chatice

do que a chatice que querias compensar.

Não, a coisa é mais séria.

A coisa é que me puseste aqui sem me dares cavaco

e eu que aguente.

A coisa é que és pior que os antigos senhores

com os seus caprichos que metiam sangue, torturas

e outros passatempos

de quem está farto e não sabe como distrair-se.

Estavas chateado?

Fizeste a criação por não teres que fazer?

Mas não vale a pena adiantar mais conversa.

És assim

um tipo invertebrado,

sem um mínimo de vergonha,

e com tipos assim não gosto de conversar.

Se não és o cobarde que te digo na cara que és,

então existe mesmo, existe,

que depois sim, a gente vai ter a sério

uma conversa de homens como deve ser.

Até lá, metes-me náusea e não quero sequer ouvir falar

de ti,

sequer ouvir,

sequer ouvir…

 

VERGÍLIO FERREIRA, Conta-Corrente III (1980-1981)


25 de outubro de 2023

o início de EURICO O PRESBÍTERO

 «A raça dos Visigodos, conquistadora das Espanhas, subjugara toda a Península havia mais de um século.»  Alexandre HerculanoEurico o Presbítero, [1844], edição crítica dirigida por Vitorino Nemésio, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d., p. 1.

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (18)

 

CALAI

 

Calai os versos abstractos

E a mansidão dos olhos que têm os bois pacatos.

 

Calai tanto, tanto espírito na terra,

E a cristianíssima paz que nos faz guerra.

 

Calai, promessas de anjo, o céu sublime,

Quando as mãos, cheias de oiro, trazem máscaras de crime.

 

Calai loas de amor às crianças maltrapilhas

Que esses farrapos de alma não lhes cobrem as virilhas.

 

Calai as lágrimas à beira dos enfermos:

Prefiro a solidão que é soluço nos ermos.

 

Calai, palhinhas de Jesus, que sois o ai de quem ama:

Paz na terra e no céu: ao cristão, ao judeu, e à gentílica moirama.

 

Calai-vos, bêbedos aos bordos nas estradas:

Para matar tristezas, Nossa Senhor das Dores com suas sete espadas.

 

AFONSO DUARTE, Ossadas (1947)

24 de outubro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL - I

 O MENINO DE SUA MÃE


No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

- Duas, de lado a lado -,

Jaz morto, e arrefece.


Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos,

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

E cego os céus perdidos.


Tão jovem! Que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

«O menino da sua mãe.»


Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe. Estava inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.


De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo, 

A brancura embainhada

De um lenço... Deu-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.


Lá longe, em casa, há a prece:

«Que volte cedo, e bem!»

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.


Fernando Pessoa


(F. Faria)

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (17)

 

AS PEQUENINAS COISAS

 

São elas, as pequeninas coisas.

Nos portos que toquei, por música,

no estribilho agridoce em que sempre

me põem as danças, elas lá estão,

as graciosas,

mas trazendo pela mão

rosas blindadas por um azeite feroz.

 

Abrem-se sussurram

com lâminas fininhas

entalam-nos entre o peso dos dias.

Mas elas, as pequeninas coisas,

bem pouco se parecem com a política

ou com essa gramática que se usa agora

enquanto se espera pelo almoço.

 

Eu falo delas

das que roçam o que têm

por um antigo e infelicíssimo modo de chorar.

 

ARMANDO DA SILVA CARVALHO, O Comércio dos Nervos (1968)



23 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (16)

 

A ÁRVORE

 

Semelhante à sombra do homem,

assim chego à luz das chamas. Ardo

em dúvida, múltiplo e dividido,

e também ouço o barulho dos que medem

a dupla distância: da razão à loucura,

da cabeça aos pés.

Na verdade, os áridos olhos evitam o azul,

a cor uníssona,

e rendem ao túmulo solar o culto

da sua própria abertura.

Pródigos em sagrado

para que eu, receosamente, nomeie

os grandes braços da tempestade.

 

NUNO JÚDICE, O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975)

 


21 de outubro de 2023

101 poemas portugueses - #3


Serranilha


A serra é alta, fria e nevosa:
vi venir serrana, gentil, graciosa.
Vi venir serrana gentil graciosa
cheguei-me per'ela con gran cortezia.
Cheguei-me per'ela com gran cortezia,
disse-lhe: «Senhora, quereis companhia?»
Disse-me: «Escudeiro segui vossa via.»

Gil Vicente (c. 1465 - c. 1576)
in Sophia de Mello Breyner Andresen, Primeiro Livro de Poesia (1991)

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (15)

 

SE TU VIESSES VER-ME…

 

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços…

 

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca… o eco dos teus passos…

O teu riso de fonte… os teus abraços…

Os teus beijos… a tua mão na minha…

 

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

 

E é como um cravo ao sol a minha boca…

Quando os olhos se me cerram de desejo…

E os meus braços se estendem para ti…

 

FLORBELA ESPANCA, Charneca em Flor (1931)


20 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (14)

 

CARTA A RUI FEIJÓ SOBRE O MISTÉRIO DE ORIANA

 

Oriana adormeceu à beira-mar

e os seus cabelos longos de tristeza

salgou-os nessas ondas a coalhar

que há no mar do silêncio à portuguesa.

Correram-lhe das pálpebras pesadas

o Guadiana e o Tejo, o Minho e o Doiro;

o sol posto deixou-lhe as mãos doiradas,

e adormeceu com luz como um tesoiro.

Que estranho nome o de Oriana: estrela,

mulher ou pátria? flor, constelação?

Palavra numerosa, será ela

o múltiplo acordar desta canção:

aquela por quem eu, e por seu pranto,

sustenho a espada de Amadis e canto.

 

CARLOS DE OLIVEIRA, Terra de Harmonia (1950)


19 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (13)

 

DAQUI, DESTA LISBOA…

 

Daqui, desta Lisboa compassiva,

Nápoles por suíços habitada,

onde a tristeza vil e apagada

se disfarça de gente mais activa;

 

daqui, deste pregão de voz antiga,

deste traquejo feroz de motoreta

ou do outro de gente mais selecta

que roda a quatro a nalga e a barriga;

 

daqui, deste azulejo incandescente,

da soleira de vida e piaçaba,

da sacada suspensa no poente,

do ramudo tristôlho que se apaga;

 

daqui, só paciência, amigos meus!

Peguem lá o soneto e vão com Deus…

 

ALEXANDRE O´NEILL, De Ombro na Ombreira (1969)


18 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (12)

 

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL

 

Põe devagar os dedos

devagar…

 

e sobe     devagar

até ao cimo

 

o suco lento que sentes

escorregar

é o suor das grutas

o seu vinho

 

Contorna o poço

aí tens de parar

descer, talvez

tomar outro caminho…

 

Mas põe os dedos e sobe

devagar…

 

Não tenhas medo

daquilo que te ensino

 

MARIA TERESA HORTA, Educação Sentimental (1975)