26 de janeiro de 2026

as aberturas de FLORES AO TELEFONE

3. «O casamento»: «O padre disse:»

2. «A estranha ressonância do nome de Alma». «A mulher rompeu o silêncio e disse: "Queres ouvir, Hermes?"»

1. «Flores ao telefone». «A mulher pegou no auscultador subitamente vivo, ser-objecto preto e luzidio, às vezes repugnante quando vomitava coisas sujas de que ela não gostava, embora as devorasse, esfomeada, pegou-lhe e disse numa voz ausente, demasiado fria, voluntariamente fria, que estava, sim, que era ela, sim.»


Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.

24 de janeiro de 2026

101 poemas portugueses - #75

 

ARDE UM FULGOR EXTINTO

Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.

Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.

Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:

são palavras e não sangram
.

Rui Knopfli (Inhambane, 1932 - Lisboa, 1997)
Mangas Verdes com Sal (1969)

19 de janeiro de 2026

Um poema de Carlos Poças Falcão

 
"É na fragilidade do teu nome que resguardas
palavras para um tempo de secura e de esquecimento.
A liberdade ampara-as e o desejo pronuncia-as
até que sejam corpo de teu corpo e irradies.

Não é de muita água que precisa o dia fértil
numa concha da palavra é ouvido o mundo todo
- e a vida vai fendendo as durezas mais rugosas
não como veios de água ou aflorações do sangue
mas com uns versos frágeis e volantes, quase ditos.

Do poema é a voz pobre. Respirando a céu aberto
ele vem da escuridão, já perdido de si mesmo.
Até que ouça luz de alguma luz - e fique escrito."


Carlos Poças Falcão em "Sombra Silêncio"
Opera Omnia
Outubro de 2018

16 de janeiro de 2026

o início de O BANQUEIRO ANARQUISTA

«Tínhamos acabado de jantar.» Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista [1922], Lisboa, Guerra & Paz, 1921, p. 21.  

10 de janeiro de 2026

101 poemas portugueses - #73

 

Ferido de inocência desde sempre

Boston

Novembro 90


Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928 - Londres, 2007),

Átrio (1997)

5 de janeiro de 2026

as aberturas de CONTOS BÁRBAROS

5. «O Doutor Hermenegildo». «Saiu de casa à tardinha para dar o passeio do costume.»

4.«A Mimosa de Carrapatelo». «Em todo o Carrapatelo não havia o que se diz uma árvore!»

3. «Os figos de pau». «O tio António Chapeleiro -- assim chamado, porque a sogra, falecida havia muitos anos, fabricava de sua mão chapéus de palha centeia e os vendia nas feiras --, era um velhote rijo e conservado como trave de castanho cortado em boa lua.»

2. «Milagre». «Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas.»

1. «A Velha das Panelas». «Debaixo do grande carrego dos púcaros, tão grande, que tapava o sol, a velha sacudia os pés nus sem tropeção, pós-catrapós, à flor das pedras, em caminhos que se estiravam desde a Candelária, subindo e descendo montes, preguiçosamente, até o campo da feira.»

João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.