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19 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (13)

 

DAQUI, DESTA LISBOA…

 

Daqui, desta Lisboa compassiva,

Nápoles por suíços habitada,

onde a tristeza vil e apagada

se disfarça de gente mais activa;

 

daqui, deste pregão de voz antiga,

deste traquejo feroz de motoreta

ou do outro de gente mais selecta

que roda a quatro a nalga e a barriga;

 

daqui, deste azulejo incandescente,

da soleira de vida e piaçaba,

da sacada suspensa no poente,

do ramudo tristôlho que se apaga;

 

daqui, só paciência, amigos meus!

Peguem lá o soneto e vão com Deus…

 

ALEXANDRE O´NEILL, De Ombro na Ombreira (1969)


21 de janeiro de 2022

VATES (5)


AOS VINDOUROS, SE OS HOUVER...

Vós que trabalhais só duas horas
a ver trabalhar a cibernética,
que não deixais o átomo a desoras
na gandaia, pois tendes uma ética;

que do amor sabeis o ponto e a vírgula
e vos engalfinhais livres de medo,
sem preçarios, calendários, Pílula,
jaculatórias fora, tarde ou cedo; 

computai, computai a nossa falha
sem perfurar demais vossa memória,
que nós fomos pràqui uma gentalha
a fazer passamanes com a história;

que nós fomos (fatal necessidade!)
quadrúmanos da vossa humanidade.

ALEXANDRE O' NEILL, De Ombro na Ombreira (1969)

Nota: O' Neill, uma poesia que vai do satírico ao elegíaco (lembremo-nos de "Seis poemas confiados à memória de Nora Mitrani", Poemas com Endereço, 1962), aqui com uma saborosa antevisão de tempos  marcados pelo imaginário do nuclear, da computação, do amor livre e da sociedade do lazer. Mais de meio século depois, que dizer das palavras do poeta?