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5 de outubro de 2024

Poesia Portuguesa (04)

 VII

Não, não queremos cantar
as canções azuis
dos pássaros moribundos.

Preferimos andar aos gritos
para que os homens nos entendam
na escuridão das raízes.

Aos gritos como os pescadores quando puxam as redes
em tardes de fome pitoresca para quadros de exposição.
Aos gritos como os fogueiros que se lançam vivos nas fornalhas
para que os navios cheguem intactos aos destinos dos outros.
Aos gritos como os escravos que arrastaram as pedras no Deserto
para o grande monumento à Dor Humana do Egipto.
Aos gritos como o idílio dum operário e duma operária
a falarem de amor
ao pé duma máquina de tempestade
a soluçar cidades de fome
na cólera dos ruídos ...

Aos gritos, sim, aos gritos.

E não há maior orgulho
do que o nosso destino
de nascer em todas as bocas ...

... Nós, os poetas viris
que trazemos nos olhos
as lágrimas dos outros.



José Gomes Ferreira em "Poesia I"
Heróicas 1936. 1937. 1938
Portugália Editora
3ª edição, Março de 1967
Páginas 108 e 109

4 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (28)

 

ELÉCTRICO II

 

                                           (Num carro para Campolide. Dia sexual.)

 

Uma mulher de carne azul,

semeadora de luas e de transes,

atravessou o vidro

e veio, voadora,

sentar-se ao meu colo

na nudez reclinada

dum desdém de espelhos.

 

(Mas que bom! Ninguém suspeita

que levo uma mulher nua nos joelhos.)

 

JOSÉ GOMES FERREIRA, Poesia III  (1961)


25 de setembro de 2014

Roteiro Castriano de Sintra


Ferreira de Castro, Jaime Cortesão e Luís da Câmara Reys
Sintra, Setembro de 1952

 O primeiro Roteiro Castriano de Sintra vai realizar-se no dia 26 de Setembro de 2014, no âmbito das Jornadas Europeias do Património.
O encontro terá lugar no pátio do Museu Ferreira de Castro (Rua Consiglieri Pedroso, 34), às 14,30 h. e terminará junto ao túmulo do escritor, na Serra de Sintra.
A acompanhar o percurso, leremos textos do próprio Ferreira de Castro, de Agustina Bessa Luís,  Francisco Costa, Vergílio Ferreira, Jaime Cortesão, José Gomes Ferreira, Luís de Oliveira Guimarães e Jorge Segurado, entre outros.
Recomenda-se calçado confortável.

9 de junho de 2012

14 de dezembro de 2011

um poema de José Gomes Ferreira

(Finjo que não vejo as mulheres
que passam, mas vejo.)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Reacata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

In Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 31.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)