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19 de novembro de 2018

da escrita romanesca

«Ler a descrição que Tolstoi faz de como Pedro olha para o campo de batalha de Borodino do alto de uma colina, em Guerra e Paz, tornou-se para mim um modelo de como ler um romance. Muitos dos pormenores de que percebemos que o romance é subtilmente tecido e para os quais fomos preparados, sentindo que temos necessidade deles para os encaixar na nossa memória enquanto lemos, parecem surgir nessa cena como um quadro.» Orhan Pamuk, O Romancista Ingénuo e o Sentimental [2010], trad. Álvaro Manuel Machado, Lisboa, Editorial Presença, 2012, p. 12.

Eu diria que será sempre falhado, ou pobre, pelo menos, um romance sem esses pormenores que o escritor vai largando ao longo da narrativa, e que vão dando sentido e compondo o todo -- tecido, escreve o Pamuk, como uma tapeçaria.
Nas nossas leituras, basta pensarmos em A Lã e a Neve, do Ferreira de Castro, exemplo conseguido desse saber-fazer, dessa boa oficina romanesca.

17 de junho de 2018

E se forem 10 ou 11?

Mais vale tarde que nunca, disse não sei quem, e passámos a repetir com mais ou menos convicção.
Há livros que impactam; outros que sabem bem, mas esquecem depois: este desafio tem a virtude de nos levar a esgravatar no saco do natural esquecimento - a melhor das qualidades humanas, alguém opinou - em busca do que permaneceu mais tempo connosco.
Partilho, sem ordem premeditada:
SE ISTO É UM HOMEM
A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER
A LÃ E A NEVE
NOSSA SENHORA DE PARIS
A MISSÃO
DOM CASMURRO
ÚLTIMAS PÁGINAS
O JUDEU
NATHAN, O SÁBIO
Para finalizar, uma confissão: tenho particular admiração pela forma cuidadosa, em rigor e gosto, com que o Confrade Fernando Faria escreve, pelo que refiro ainda, porque "ficaram cá", principalmente a TERRA MÃE e O NOVIÇO.
Missão cumprida.

4 de abril de 2016

Manteigas celebra Ferreira de Castro




A Câmara Municipal de Manteigas, para celebrar os "100 Anos da Vida Literária de Ferreira de Castro", organiza uma caminhada, em parte do percurso trilhado por Horácio e Serafim Caçador, quando, no final da tarde, se dirigiam de Manteigas para a Aldeia do Carvalho, na Covilhã ("A Lã e a Neve").
Oportunidade única para todos os que pretenderem conhecer este trajeto.
PROGRAMA
Manteigas - 24 de Abril (domingo; segunda-feira é feriado)
8H30 - Caminhada "A Lã e a Neve" (concentração frente à CM Manteigas)
1) Plantação de 100 árvores, evocativas dos "100 Anos da Vida Literária de Ferreira de Castro"
2) Almoço na serra
3) Palestra sobre o romancista, por Pedro Calheiros (Univ. Aveiro)
4) Inscrição obrigatória e até 20 Abril (5 Euros, inclui almoço): biblioteca@cm-manteigas.pt ou pessoalmente no Arquivo Municipal (tlf.: 275 980 000).

«[...] Passado o Fundo da Vila e vencido o rio, meteram, de lanterna acesa, à encosta em frente. Subindo o Pinhal, Serafim continuava a parolar sem descanso, como era de seu feitio. Já as luzes do povoado haviam desaparecido, quando eles ouviram, longinquamente, o relógio de Manteigas soltar oito horas, que reboaram, com vagar, pelo vale, imerso na escuridade, lá em baixo, atrás deles.», "A Lã e a Neve".

23 de setembro de 2015

«A LÃ E A NEVE, de Ferreira de Castro: a História escreve-se no presente»

Será o tema da minha comunicação no Museu Ferreira de Castro (25, sexta, pelas 18 horas -- estão todos convidados), no âmbito das Jornadas Europeias do Património, este ano dedicado ao Património Industrial.

11 de setembro de 2015

C O N V I T E

Tenho a honra de convidar para o lançamento do livro Linhas Entre Nós, que será apresentado no dia 19 de setembro, sábado, às 16H30, no Auditório da Biblioteca Municipal de Sintra – Casa Mantero – Rua Gomes de Amorim, 12 – 2710-569 Sintra.
A sessão será enriquecida com atos culturais e recreativos, seguida de “uma jeropiga de honra”.

J. A. Marcos Serra (j.a.marcosserra@gmail.com)

Informações complementares:
- estacionamento gratuito no Largo dos Serviços Municipalizados (frente às Finanças e ao SMAS), ou entre o Centro Cultural Olga Cadaval e a Biblioteca, na rua Câmara Pestana.
- confluência a partir das 16H00
- não é necessário imprimir o Convite

11 de agosto de 2015

LINHAS ENTRE NÓS

Sessenta anos depois de ter começado a ler, arrisquei publicar, em livro, uns pedaços do que escrevi.
Resultou, do arrojo, LINHAS ENTRE NÓS, como primeiro trabalho a solo.
Amores congénitos o motivaram sem reservas. Cuidados paternais o desbastaram, até quase à dor.
Deixo o fruto…
(histórias de gente e da terra, e sentimentos perenes)
… à apreciação de quem sabe ler.

Vai nascer oficialmente, em Manteigas, terra-berço, em 15 de agosto, às 21H30, no Ninho de Empresas, espaço agradável para escutar música e palavras.
Sintra o reconfirmará, em 19 de setembro, no Auditório da Biblioteca Municipal (Casa Mantero), às 16H30.

Entretanto, deixo-lhes: https://youtu.be/jzre7xtQ4rY

J. A. Marcos Serra

17 de janeiro de 2015

LER FERREIRA DE CASTRO 40 ANOS DEPOIS

Ontem, no MU.SA, excelente e participada sessão em torno de "A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro. Os membros do Clube de Leitura marcaram presença.

15 de janeiro de 2015

Manuel da Silva Ramos fala sobre A LÃ E A NEVE

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois». No MU.SA -- Museu das Artes de Sintra, sexta-feira, 16 de Janeiro, pelas 19 horas.
tel.: 219238828

(1.ª edição, 1947)
capa de Jorge Barradas


29 de janeiro de 2014

o início de A LÃ E A NEVE

Logo que as cabras e as ovelhas entestaram à corte, o «Piloto» deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os serviços, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismático, como perro vadio de estrada, descoroçoado da vida. Subitamente, porém, sorveu no ar algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num ápice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabeça levantou-se também e nela luziram os olhitos até aí amortecidos. «Piloto» estugou o passo. O caminho estava cheio de tentações, de paragens obrigatórias, estabelecidas por todos os cães que passaram ali desde que Manteigas existia, desde há muitos séculos. Forçado a deter-se, ele regava, à esquerda e à direita, rudes pedras, velhos castanheiros, velhos cunhais, mas fazia-o alegremente e com o visível modo de quem leva pressa. Em seguida, voltava a correr no faro do seu dono. Cada vez o sentia mais perto e cada vez era maior o seu alvoroço. Por fim, lobrigou-o. Horácio estava junto de Idalina, também conhecida de «Piloto»; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrépitas e negrentas casas do Eiró, no cimo da vila. E tão atarefado parecia Horácio com as palavras que ia dizendo à rapariga, que não deu, sequer, pela chegada do cão. Vendo-o assim, «Piloto» hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume quando este o chamava, à hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, lá nos picarotos da serra. Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos, e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo:
-- Olha o «Piloto»! O meu «Piloto!»
A Lã e a Neve [1947], 15.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1990, pp. 17-18.

22 de janeiro de 2014

IMAGENS DE "A LÃ E A NEVE" últimas

Como conta o Romance, o tempo deu em ameaçar borrasca, o céu escureceu, e o Covão da Ametade transformou o seu ar de paraíso perdido em ameaça séria.
Uma névoa intensa envolveu os Cântaros (Os Cântaros, enormes moles magalíticas, são três: O Magro, o Gordo e o Raso).
Os dois primeiros, veem-se a coroar o Covão, na imagem ao lado esquerdo.
Logo depois da primeira chuva grossa, o "Zêzere Menino" que ali nasce, entre os Rochedos que ladeiam A Rua dos Mercadores, deu em engrossar a voz, proferindo ameaças (haviam de vê-lo, como já vi, como um mar largo, inundando todo o Covão, sem garganta suficiente para jorrar toda a água no Vale.)
Entretanto a montanha parecia estalar, como se os Cântaros ameaçassem esboroar-se e esmagar os homens e o rio, com uma raiva ciclópica.












(à esquerda, os três Cântaros; à direita, pormenor do Cântaro Magro).
O Covão da Ametade, fica (na foto) à esquerda do Cântaro Magro... lá bem no fundinho).

E, como mandam as regras da natureza, depois da tempestade vem a bonança.
O Tónio partiu para a Vila com a alma escura de preocupações, e o Horácio lá conseguiu avançar até à Nave de Santo António da Argenteira, onde encontrou outros pastores, menos solitários que ele... ou talvez mais, quem sabe?











Muitos mais pormenores poderia dar a conhecer: não quis, porém,  ultrapassar os limites máximos da arte de molestar
Homenageio os meus confrades do Clube de Leitura; o escritor Ferreira de Castro,como nosso patrono literário; a sua obra, A Lã e a Neve, pelo que é e porque se ocupou da ninha terra e da minha serra; Manteigas, berço que (há quem diga) escolhi; os que me antecederam e me foram construindo, mesmo sem saber que o faziam.

IMAGENS DE "A LÃ E A NEVE" 3

Façamos companhia a Horácio, a subir o Vale do Zêzere (Manteigas é a mancha clara, ao fundo), na companhia do "Piloto", coxeando, até ao Covão da Ametade (designação incorreta no Romance), aonde vai encontrar-se com o Tónio.

Apontando à Ribeira, vai saindo da Vila, depois de ter descido do Eirô.
Mil e duzentas passadas depois, aparece à esquerda, a Capela da Senhora dos Verdes. (À direita veem-se as janelas da casa do senhor Francisco Esteves G. de Carvalho, "Vasco da Gama Sotomayor"?)
que desgostoso com a pequenez da Capelinha antiga, decidiu, já nos anos sessenta, arrasá-la e mandar construir, no mesmo lugar, coisa que se visse. Salvou-se a Carvalha multicentenária (ou milenar?) que chegou a estar condenada por várias vezes, mas lá continua, frágil, mas viva e de pé, frente à capela..
(As janelas do casarão lá continuam a espreitar, à direita).

Continuemos a acompanhar o "nosso" pastor e o seu cão.

Passada a zona da Senhora dos Verdes, e depois da conversa com Idalina, em terreno junto ao rio, passou por cima dos edifícios das Caldas de Manteigas.
Construções modernizadas e bem apetrechadas na atualidade, Horácio, viu-as assim: clique AQUI (foto protegida com direitos de autor).
Atravessou, logo de seguida, o Rio Zêzere, para a margem direita, pela Ponte.
Duas curvas sinuosas e bem subidas, e, logo à direita, o engenho industrial, movido a água, pertencente aos Pereiras. Clique AQUI (foto protegida por direitos de autor)
Também a eles metera empenhos o Sr.Vigário, sem resultado.
(Padrinhos de minha Mãe, ainda conheci, por dentro, esta fábrica movida a água; de tal forma espantoso o mecanismo que, apesar de criança, nunca mais o esqueci). Hoje é unidade hoteleira adstrita às Caldas de Manteigas / Inatel).
Ribeira acima, viu, junto ao Rio, uma corte do "Valadares". Assobiou. Não estava ninguém. Encontrou-o, estranhamente, pouco depois.
Moído de saudades e preocupações, lá foi, puxando pelas pernas, até ao Covão da Ametade, onde encontrou o Tónio. Ainda não escurecera...



IMAGENS DE "A LÃ E A NEVE" 2


Horácio era pastor...
Se hoje conheço pastor que se desloca em moto-quatro, no tempo do Romance, era assim:
Será um destes o "Canholas" ou o "Marrafa"? Talvez... as famílias continuam em Manteigas e conservam ainda a alcunha.
O "Piloto", da raça famosa do Cão da Serra da Estrela é que continua a manter-se, sem adornos modernos.
De pelo longo ou pelo curto, os dois tipos caraterísticos da raça, com coleira de picos longos para proteger o pescoço, continua a ser o zelador do rebanho e companhia do pastor.

Quando a invernia deixava a serra sem pastos e sem condições de alimentar o gado, fazia-se a transumância para terras a sul, para a Idanha. "Foi para a Idanha" era expressão comum durante a minha meninice e juventude.
Era assim um rebanho em transumância... talvez um destes homens seja o "nosso" Horácio.
Na Vila de Manteigas estabeleceram-se três designações sócio-económicas. Os Corropios que viviam da agricultura e pastorícia, geralmente sem bens próprios, ou com pequenas courelas e meia dúzia de cabeças de gado. Os Cardinchas que eram os assalariados das fábricas e dos engenhos. Os Cães-Grandes onde estavam englobados os industriais, os donos de muitas terras ou de gado e (por alguma forma) os ricos.
No Romance aparecem claramente vários Corropios e Cardinchas. Cães-Grandes, seriam o Valadares (?) e Vasco da Gama Sotomayor (que julgo ser, na realidade, Francisco Esteves Gaspar de Carvalho, industrial e dono de terras empreendedor. Tem busto na Vila. Já eu era adulto, era ela ainda (de longe) o homem mais rico de Manteigas).
Há dois anos, José Paixão publicou um romance, Corropios, Cardinchas e Cães Grandes, onde retrata, com riqueza etnográfica, esta estrutura social.

IMAGENS DE "A LÃ E A NEVE"

A leitura ficcional sugere as imagens reais que a inspiraram.
Trago-lhes algumas claramente referenciadas no texto.
O senhor PADRE BARRADAS, vigário de Santa Maria, a quem Horácio foi pedir empenhamento na obtenção de trabalho numa das fábricas de Manteigas.

De seu verdadeiro nome, Padre Joaquim Dias Parente. Músico distinto, chegou a reger o Coro Papal, em visita a Roma. Compôs um cântico religioso que se universalizou, "Santos Anjos e Arcanjos". Com a colaboração preciosíssima do seu Sacristão, Bernardo Marcos Leitão, impulsionou a Arte e a Cultura em Manteigas. Têm nomes em Largo e Rua contíguos. Casou meus avós e meus pais e ainda me batizou. Faleceu dois dias antes de eu fazer 6 anos, a ouvir, de pessoas próximas, o cântico que o imortalizou.

A IGREJA DE SANTA MARIA, cujo sino se vai ouvindo, aqui e ali, no romance. Sob a soleira da porta de entrada ficou enterrada uma lápide romana indicando templo dedicado a Lúcifer. É assim na atualidade, com duas torres, decorrente de obra do Sr. Padre Parente:
Ao tempo do romance, tinha apenas a torre da direita; era menos ampla e tinha acabamentos mais rústicos como pode ver clicando AQUI (foto protegida por direitos de autor).

O EIRÔ (com escrita errada no Romance) é um dos centros de ação. Dos núcleos mais antigos da vila, aqui moram Horácio e Idalina, por aqui se encontram e namoram.


Raras habitações conservam a traça e caraterísticas antigas; também muitas das ruas já se alargaram. Quelhas (não pátios) foram arrasadas sem porquê.


23 de julho de 2011

e assim, em 1928, mudava de ponto de vista o romance português

A personagem arquetípica, a "personagem-multidão", como Castro caracterizou o seu Manuel da Bouça, o romance de intenções revolucionárias, a luta de classes -- tudo o que viria a designar-se por neo-realismo, exceptuando o vínculo ao PCP, porque o anarquismo inspirado em Kropótkin era pouco compatível com o autoritarismo de  Marx e de Lénin -- está neste romance, e vigorou hegemonicamente durante vinte anos, até à Aparição, de Vergílio Ferreira, de 1949, ano em que Ferreira de Castro, após A Lã e a Neve (1947), aparenta mudar, escrevendo A Curva da Estrada, publicado no ano seguinte:

     «[...] Nasce o homem e, se não dispõe de riqueza acumulada pelos seus maiores, fica a mais no Mundo. Entra na vida -- já se disse e é bem certo -- para a luta! Luta para criar o seu lugar, luta contra os outros homens, luta pelas coisas mesquinhas e não pelas verdadeiramente nobres, por aquelas que contribuiriam para uma maior elevação humana. Para essas quase não há tempo de existência de cada um.
           / [...] /
     Biógrafos que somos das personagens que não têm lugar no Mundo, imprimimos neste livro despretensiosa história de homens que, sujeitos a todas as vicissitudes provenientes da sua própria condição, transitam de uma banda a outra dos oceanos, na mira de poderem também, um dia, saborear aqueles frutos de oiro que outros homens, muitas vezes sem esforço de maior, colhem às mãos cheias.»

     Ferreira de Castro, do «Pórtico» de Emigrantes, 28.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988.