7 de setembro de 2025
o início de O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO
23 de setembro de 2024
101 poemas portugueses - #49
RECREIO
Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
As crianças confraternizam com a alegria das aves...
A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
-- Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...
As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.
Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
A vida que vai chegando despercebida e breve...
E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes...
Alberto de Serpa (Porto, 1906-1992),
in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler (1956)
21 de junho de 2024
101 poemas portugueses - #42
MEU MENINO, INO, INO
1
Dos versos que exprimem,
Estou cansado!
Das palavras que explicam,
Estou cansado!
Ai, embala-me, fútil, e frágil, no ó-ó dos teus versos,
Ai, encosta-me ao peito...!
Mais não quero que ser embalado.
2
O menino está doente...
-- Diz a mãe.
Qui-é qui-é
Que o menino tem?
Ai...!
Diz o pai.
A criada velha chora pelos cantos
E reza a todos os santos...
Afirma o senhor doutor
Que amanhã que está melhor.
O pai suspira:
-- Quem sabe lá?!
E o menino diz:
-- Papá...!
A mãe chora:
-- Quem já me dera amanhã...!
E o menino diz:
-- Mamã...!
E, com a febre, rezinga,
E choraminga,
Olhando a lua amarela
Como uma vela:
-- Quero aquela péla...!
Mas o Pai do Céu sorri:
-- Vem cá vê-la!
É para ti.
3
-- Acabaste?
-- Meu amor, acabei.
-- Apagaste a candeia? apagaste?
-- Meu amor, apaguei.
- E fechaste o postigo? e fechaste?
- Meu amor..., sim, fechei.
-- Que rumor é aquele? não sentes?
-- Meu amor, que te importa?
É a vida a dar socos na porta.
É lá fora. São eles. É o mundo. São gentes.
-- São gentes? Quem são?
-- São colegas, amigos, parentes...
-- Vai dizer-lhes que não! Vai dizer-lhes que não!
José Régio (Vila do Conde, 1901-1969)
As Encruzilhadas de Deus (1936)
30 de abril de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XIII
OS EPITÁFIOS – EPITÁFIO PARA UM DOS
GRANDES DO MUNDO
Tapando a
ouro as chagas e os agravos,
Lidou com
seus irmãos como com bestas:
Das fêmeas
comprou a carne,
Dos machos,
a consciência e a vontade.
No ódio dos
escravos
Perdurou sua
memória.
De histórias
como estas,
Não continua
a história
Senão na
Eternidade.
--- Filho do Homem, 1961
23 de abril de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XII
O AMOR E A MORTE - MONÓLOGO A DOIS
Sábia talvez inconsciente,
Doseando, com volúpia, uma ancestral
sofreguidão,
Ali onde o desejo mais me dói, mais
exigente,
Me acaricia a tua mão.
De olhos fechados me abandono,
ouvindo
Meu coração pulsar, meu sangue
discorrer,
E, sob a tua mão, na asa do sonho,
eis-me subindo
Àquele auge em que todo, em alma e
corpo, vou morrer…
--- Filho do Homem, 1961
19 de abril de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XI
O AMOR E A
MORTE – POEMA
Crispou-se a
minha mão sobre o teu sexo.
Fecharam-se-me
os olhos sem querer…
De que
abismos voava até ao fundo?
E a minha
mão sondava
E triturava
Aquele mundo
Tão
pequenino e tão complexo:
O teu
mistério de mulher.
--- Filho do Homem, 1961
10 de fevereiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - X
LEGENDA
Não me peças esmola, que sou pobre,
E avaro do meu pouco,
Se mo pedem!
Não me tragas esmola, que sou rico,
Se penso na miséria
Que poderias dar-me!
Dar-te-ei, sem que mo peças.
Dá-me, sem que eu o saiba.
Expulsei os mendigos do meu Reino!
Cá, só amor gratuito.
--- A Chaga do Lado, 1954
31 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - IX
NOSSA SENHORA
Tenho ao cimo da escada, de maneira
Que logo, entrando, os olhos me dão
nela,
Uma Nossa Senhora de madeira
Arrancada a um Calvário de capela.
Põe as mãos com fervor e angústia. O
manto
Cobre-lhe a testa, os ombros, cai
composto;
E uma expressão de febre e espanto
Quase lhe afeia o fino rosto.
Mãe das Dores, seus olhos enevoados
Olham, chorosos, fixos, muito além…
E eu, ao passar, detenho os passos
apressados,
Peço-lhe: – «A sua bênção, Mãe!»
Sim, fazemo-nos boa companhia,
E não me assusta a sua dor: quase me
apraz.
O Filho dessa Mãe nunca mais morre.
Aleluia!
Só isto bastaria a me dar paz.
– «Porque choras, Mulher?» – docemente
a repreendo.
Mas à minh´alma, então, chega de
longe a sua voz
Que eu bem entendo:
– «Não é por Ele…»
– «Eu
sei! teus filhos somos nós.»
--- Mas Deus É Grande, 1945
23 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VIII
FADO ALENTEJANO
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Pátria que à força escolhi!
Quando cheguei, quis-te mal,
Alentejo-ai-solidão…
Julguei eu que te quis mal.
Chegava do vendaval,
Tão cego que te nem vi!
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Adro da melancolia!
Tua tristeza me pesa!
Alentejo-ai-solidão…
Quanto, às vezes, me não pesa!
Mas fora de essa tristeza,
Pesa-me toda a alegria.
(…)
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Convento do céu aberto!
Nos teus claustros me fiz monge,
Alentejo-ai-solidão…
Em ti por ti me fez monge.
Perdeu-se-me a terra ao longe,
Chegou-se-me o céu mais perto.
Alentejo, ai solidão,
Solidão, ai Alentejo,
Padre-nosso de infelizes!
Vim coberto de cadeias,
Alentejo-ai-solidão…
Coberto de vis cadeias!
Mas estas com que me enleias,
Deram-me asas e raízes.
--- Fado, 1941 (poema incluído na obra a partir da 3ª edição, de 1969)
15 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VII
ROMANCE DE VILA DO CONDE
Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar…
– Lembra-me Vila do Conde,
Já me ponho a suspirar.
Vento norte, ai vento norte,
Ventinho da beira-mar,
Vento de Vila do Conde,
Que é minha terra natal!,
Nenhum remédio me vale
Se me não vens cá buscar,
Vento norte, ai vento norte,
Que em sonhos sinto assoprar…
Bom cheirinho dos pinheiros,
A que não sei outro igual,
Do pinheiral de Mindelo,
Que é um belo pinheiral
Que em Azurara começa
E ao Porto vai acabar…,
Se me não vens cá buscar,
Nenhum remédio me vale!
Nenhum remédio me vale,
Se te não posso cheirar…
Vila do Conde, espraiada
Entre pinhais, rio e mar!
– Lembra-me Vila do Conde,
Mais nada posso lembrar.
(...)
--- Fado, 1941
13 de janeiro de 2024
101 poemas portugueses - #17
A ESCADA DA VIDA
Encontrou-se a CaridadeSubia o Orgulho uma escada,
E a Caridade descia.
Ela humilde, ele arrogante,
No patamar dessa escada
Os dois, cruzando-se, viram
Uma rosinha pisada.
Emproado, o Orgulho, vendo-a,
Deu-lhe nova pisadela;
De joelhos, a Caridade
Deitou-se aos beijos a ela.
Mas nobres passos se ouviram
De som divino e tremendo:
O Orgulho seguiu subindo,
E a Caridade descendo...
E a voz de Deus, entretanto,
Disse, bramindo e sorrindo,
-- «Tu, que sobes, vais descendo!»
-- «Tu, que desces, vais subindo!»
12 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VI
MEU MENINO, INO, INO
3
– Acabaste?
– Meu amor, acabei.
– Apagaste a candeia? apagaste?
– Meu amor, apaguei.
– E fechaste o postigo? e fechaste?
– Meu amor…, sim, fechei.
– Que rumor é aquele? não sentes?
– Meu amor, que te importa?
É a vida a dar socos na porta.
É lá fora. São eles. É o mundo. São
gentes…
– São gentes? Quem são?
– São colegas, amigos, parentes…
– Vai dizer-lhes que não! Vai
dizer-lhes que não!
--- As Encruzilhadas de Deus, 1936
10 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - V
COLEGIAL
Em cima da minha mesa,
Da minha mesa de estudo,
Mesa da minha tristeza
Em que, de noite e de dia,
Rasgo as folhas, leio tudo
Desses livros em que estudo,
E me estudo,
(Eu já me estudo…)
E me estudo,
A mim,
Também,
Em cima da minha mesa,
Tenho o teu retrato, Mãe!
À cabeceira do leito,
Dentro dum lindo caixilho,
Tenho uma Nossa Senhora
Que venero a toda a hora…
Ai minha Nossa Senhora
Que se parece contigo,
E que tem, ao peito,
Um filho
(O que ainda é mais estranho)
Que se parece comigo,
Num retratinho,
Que tenho,
De menino pequenino…!
No fundo da minha mala,
Mesmo lá no fundo, a um canto,
Não lhes vá tocar alguém,
(Quem as lesse, o que entendia?
Só riria
Do que nos comove a nós…)
Já tenho três maços, Mãe,
Das cartas que tu me escreves
Desde que saí de casa…
Três maços – e nada leves! –
Atados com um retrós…
Se não fora eu ter-te assim,
A toda a hora,
Sempre à beirinha de mim,
(Sei agora
Que isto de a gente ser grande
Não é como se nos pinta…)
Mãe!, já teria morrido,
Ou já teria fugido,
Ou já teria bebido
Algum tinteiro de tinta!
--- As Encruzilhadas de Deus, 1936
9 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - IV
SONETO DE AMOR
Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma… Abre-me o
seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem
receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem,
desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no
enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua…, –
unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois… – abre-me os teus olhos,
minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada…
Deixa a vida exprimir-se sem
disfarce.
--- Biografia, 1929
8 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - III
SONETO DO JOSÉ MATIAS
Aquela aparição, aquela espuma
Que finge ter também um corpo…,
aquela
Que é por de mais subtil, por de mais
bela,
Para existir aquém do sonho e a
bruma,
Aquela em quem amei nem sei que suma
De nuvem, flor, árvore, névoa,
estrela,
Aquela que a mim próprio me revela,
E me é todas as mais sem ser nenhuma,
Sim, tem um nome, é quase uma
qualquer,
(Tem o nome de Elisa…) e foi mulher
Dum que a deixou, morrendo, ao dono
actual.
Esses, não eu!, te gozem, corpo
triste.
A Beleza que encarnas e traíste
Só desce até cá baixo ao meu portal…
--- Biografia, 1929
3 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - II
A JAULA E AS FERAS
Vivem centos de doidos nesse hospício
(Quem no diria, olhando cá de
fora…?!)
E o portão dança já no velho quício,
Dança, e faz entrar mais a toda a
hora…
Trazem todos um sonho, um crime, um
vício,
E foram reis lá muito longe, outrora…
E em seus rostos de espanto ou de
flagício
Não sei que ausência atroz se
comemora!
Faz medo e angústia olhá-los bem nos
olhos;
E, lá por trás de grades e ferrolhos,
Estoiram de ansiedade desmedida.
– Meu corpo, ó meu hospício de
alienados!
Abre-te aos meus desejos enjaulados,
Deixa-os despedaçar a minha vida!
--- Poemas de Deus e do Diabo, 1925
(Republicado em Biografia, 1929)
2 de janeiro de 2024
JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - I
ÍCARO
ao Fernando Lopes
Graça
A minha Dor, vesti-a de brocado,
Fi-la cantar um choro em melopeia,
Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,
Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.
Por longo tempo, assim fiquei prostrado,
Moendo os joelhos sobre lodo e areia.
E as multidões desceram do povoado,
Que a minha Dor cantava de sereia…
Depois, ruflaram alto asas de agoiro!
Um silêncio gelou em derredor…
E eu levantei a face, a tremer todo:
Jesus! ruíra em cinza o trono de
oiro!
E, misérrima e nua, a minha Dor
Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.
--- Poemas de Deus e do Diabo, 1925
(Republicado em Biografia, 1929)
24 de novembro de 2023
101 poemas portugueses - #9
SONETO
Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo,
Como fervem no pego as crespas vagas.
Razão feroz, o coração me indagas,
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.
Cego a meus males, surdo a teu reclamo
Mil objectos de horror co a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.
Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar; eu ardo, eu amo:
Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro.
Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805)
in José Régio (Vila do Conde, 1901-1969), As Mais Belas Líricas Portuguesas (s.d.)
28 de outubro de 2023
101 poemas portugueses - #4
TROVA À MANEIRA ANTIGA
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse;
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?
3 de outubro de 2023
POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (1)
EPITÁFIO
PARA UM POETA
As asas não
lhe cabem no caixão!
A farpela de
luto não condiz
Com seu ar
grave, mas, enfim, feliz;
A gravata e
o calçado também não.
Ponham-no
fora e dispam-lhe a farpela!
Descalcem-lhe
os sapatos de verniz!
Não vêem que
ele, nu, faz mais figura,
Como uma
pedra, ou uma estrela?
Pois
atirem-no assim à terra dura,
Ser-lhe-á
conforto:
Deixem-no
respirar ao menos morto!
JOSÉ RÉGIO, Filho do Homem (1961)
