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7 de setembro de 2025

o início de O PRÍNCIPE COM ORELHAS DE BURRO

«Era de uma vez, no reino da Traslândia, um casal que não tinha filhos.» José Régio, O Príncipe com Orelhas de Burro [1942], 6.ª ed., Porto, Brasília Editora, 1978, p. 7.

23 de setembro de 2024

101 poemas portugueses - #49


RECREIO


Na claridade da manhã primaveril,
Ao lado da brancura lavada da escola,
As crianças confraternizam com a alegria das aves...

A mão doce do vento afaga-lhes os cabelos,
E o sol abre-lhes rosas nas faces saudáveis
-- Um sol discreto que se esconde às vezes entre nuvens brancas...

As meninas dançam de roda e cantam
As suas cantigas simples, de sentido obscuro e incerto,
Acompanhadas de gestos senhoris e graves.

Os rapazes correm sem tino e travam lutas,
Gritam entusiasmados o amor espontâneo à vida,
A vida que vai chegando despercebida e breve...

E a jovem mestra olha todos enlevadamente,
Com um sorriso misterioso nos lábios tristes...


Alberto de Serpa (Porto, 1906-1992), 

in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler (1956)

21 de junho de 2024

101 poemas portugueses - #42

 

MEU MENINO, INO, INO


1

 

Dos versos que exprimem,

Estou cansado!

 

Das palavras que explicam,

Estou cansado!

 

Ai, embala-me, fútil, e frágil, no ó-ó dos teus versos,

Ai, encosta-me ao peito...!

 

Mais não quero que ser embalado.

 

 

2

 

O menino está doente...

-- Diz a mãe.

 

Qui-é qui-é

Que o menino tem?

 

Ai...!

Diz o pai.

 

A criada velha chora pelos cantos

E reza a todos os santos...

 

Afirma o senhor doutor

Que amanhã que está melhor.

 

O pai suspira:

-- Quem sabe lá?!

 

E o menino diz:

-- Papá...!

 

A mãe chora:

-- Quem já me dera amanhã...!

 

E o menino diz:

-- Mamã...!

 

E, com a febre, rezinga,

E choraminga,

Olhando a lua amarela

Como uma vela:

-- Quero aquela péla...!

 

Mas o Pai do Céu sorri:

-- Vem cá vê-la!

É para ti.

 

 

3

 

-- Acabaste?

 

-- Meu amor, acabei.

 

-- Apagaste a candeia? apagaste?

 

-- Meu amor, apaguei.

 

- E fechaste o postigo? e fechaste?

 

- Meu amor..., sim, fechei.

 

-- Que rumor é aquele? não sentes?

 

-- Meu amor, que te importa?

É a vida a dar socos na porta.

É lá fora. São eles. É o mundo. São gentes.

 

-- São gentes? Quem são?

 

-- São colegas, amigos, parentes...

 

-- Vai dizer-lhes que não! Vai dizer-lhes que não!


José Régio (Vila do Conde, 1901-1969)

As Encruzilhadas de Deus (1936)

30 de abril de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XIII

 

OS EPITÁFIOS – EPITÁFIO PARA UM DOS GRANDES DO MUNDO

 

Tapando a ouro as chagas e os agravos,

Lidou com seus irmãos como com bestas:

Das fêmeas comprou a carne,

Dos machos, a consciência e a vontade.

No ódio dos escravos

Perdurou sua memória.

De histórias como estas,

Não continua a história

Senão na Eternidade.

 

--- Filho do Homem, 1961


23 de abril de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XII

 

O AMOR E A MORTE - MONÓLOGO A DOIS


Sábia talvez inconsciente,

Doseando, com volúpia, uma ancestral sofreguidão,

Ali onde o desejo mais me dói, mais exigente,

Me acaricia a tua mão.

 

De olhos fechados me abandono, ouvindo

Meu coração pulsar, meu sangue discorrer,

E, sob a tua mão, na asa do sonho, eis-me subindo

Àquele auge em que todo, em alma e corpo, vou morrer…

 

--- Filho do Homem, 1961


19 de abril de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - XI

 

O AMOR E A MORTE – POEMA

 

Crispou-se a minha mão sobre o teu sexo.

Fecharam-se-me os olhos sem querer…

De que abismos voava até ao fundo?

E a minha mão sondava

E triturava

Aquele mundo

Tão pequenino e tão complexo:

O teu mistério de mulher.

 

--- Filho do Homem, 1961


10 de fevereiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - X

 


LEGENDA

 

Não me peças esmola, que sou pobre,

         E avaro do meu pouco,

                 Se mo pedem!

Não me tragas esmola, que sou rico,

          Se penso na miséria

          Que poderias dar-me!

          Dar-te-ei, sem que mo peças.

          Dá-me, sem que eu o saiba.

Expulsei os mendigos do meu Reino!

          Cá, só amor gratuito.

 

--- A Chaga do Lado, 1954



31 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - IX

 

NOSSA SENHORA

 

Tenho ao cimo da escada, de maneira

Que logo, entrando, os olhos me dão nela,

Uma Nossa Senhora de madeira

Arrancada a um Calvário de capela.

 

Põe as mãos com fervor e angústia. O manto

Cobre-lhe a testa, os ombros, cai composto;

E uma expressão de febre e espanto

Quase lhe afeia o fino rosto.

 

Mãe das Dores, seus olhos enevoados

Olham, chorosos, fixos, muito além…

E eu, ao passar, detenho os passos apressados,

Peço-lhe: – «A sua bênção, Mãe!»

 

Sim, fazemo-nos boa companhia,

E não me assusta a sua dor: quase me apraz.

O Filho dessa Mãe nunca mais morre. Aleluia!

Só isto bastaria a me dar paz.

 

– «Porque choras, Mulher?» – docemente a repreendo.

Mas à minh´alma, então, chega de longe a sua voz

Que eu bem entendo:

– «Não é por Ele…»

                                   – «Eu sei! teus filhos somos nós.»

 

--- Mas Deus É Grande, 1945



23 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VIII

 

FADO ALENTEJANO

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Pátria que à força escolhi!

Quando cheguei, quis-te mal,

Alentejo-ai-solidão…

Julguei eu que te quis mal.

Chegava do vendaval,

Tão cego que te nem vi!

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Adro da melancolia!

Tua tristeza me pesa!

Alentejo-ai-solidão…

Quanto, às vezes, me não pesa!

Mas fora de essa tristeza,

Pesa-me toda a alegria.

 

(…)

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Convento do céu aberto!

Nos teus claustros me fiz monge,

Alentejo-ai-solidão…

Em ti por ti me fez monge.

Perdeu-se-me a terra ao longe,

Chegou-se-me o céu mais perto.

 

Alentejo, ai solidão,

Solidão, ai Alentejo,

Padre-nosso de infelizes!

Vim coberto de cadeias,

Alentejo-ai-solidão…

Coberto de vis cadeias!

Mas estas com que me enleias,

Deram-me asas e raízes.

 

--- Fado, 1941 (poema incluído na obra a partir da 3ª edição, de 1969)



15 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VII

 

ROMANCE DE VILA DO CONDE

 

Vila do Conde, espraiada

Entre pinhais, rio e mar…

– Lembra-me Vila do Conde,

Já me ponho a suspirar.

 

Vento norte, ai vento norte,

Ventinho da beira-mar,

Vento de Vila do Conde,

Que é minha terra natal!,

Nenhum remédio me vale

Se me não vens cá buscar,

Vento norte, ai vento norte,

Que em sonhos sinto assoprar…

 

Bom cheirinho dos pinheiros,

A que não sei outro igual,

Do pinheiral de Mindelo,

Que é um belo pinheiral

Que em Azurara começa

E ao Porto vai acabar…,

Se me não vens cá buscar,

Nenhum remédio me vale!

Nenhum remédio me vale,

Se te não posso cheirar…

 

Vila do Conde, espraiada

Entre pinhais, rio e mar!

– Lembra-me Vila do Conde,

Mais nada posso lembrar.

 

(...)

 

--- Fado, 1941


13 de janeiro de 2024

101 poemas portugueses - #17


A ESCADA DA VIDA

Encontrou-se a Caridade
Com o Orgulho, certo dia:
Subia o Orgulho uma escada,
E a Caridade descia.

Ela humilde, ele arrogante,
No patamar dessa escada
Os dois, cruzando-se, viram
Uma rosinha pisada.

Emproado, o Orgulho, vendo-a,
Deu-lhe nova pisadela;
De joelhos, a Caridade
Deitou-se aos beijos a ela.

Mas nobres passos se ouviram
De som divino e tremendo:
O Orgulho seguiu subindo,
E a Caridade descendo...

E a voz de Deus, entretanto,
Disse, bramindo e sorrindo,
-- «Tu, que sobes, vais descendo!»
-- «Tu, que desces, vais subindo!»


Eugénio de Castro (Coimbra, 1869-1944)
in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler (1956)

12 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VI

 

MEU MENINO, INO, INO

 

3

 

– Acabaste?

 

– Meu amor, acabei.

 

– Apagaste a candeia? apagaste?

 

– Meu amor, apaguei.

 

– E fechaste o postigo? e fechaste?

 

– Meu amor…, sim, fechei.

 

– Que rumor é aquele? não sentes?

 

– Meu amor, que te importa?

É a vida a dar socos na porta.

É lá fora. São eles. É o mundo. São gentes…

 

– São gentes? Quem são?

 

– São colegas, amigos, parentes…

 

– Vai dizer-lhes que não! Vai dizer-lhes que não!

 

--- As Encruzilhadas de Deus, 1936


10 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - V

 

COLEGIAL

 

Em cima da minha mesa,

Da minha mesa de estudo,

Mesa da minha tristeza

Em que, de noite e de dia,

Rasgo as folhas, leio tudo

Desses livros em que estudo,

E me estudo,

(Eu já me estudo…)

E me estudo,

A mim,

Também,

Em cima da minha mesa,

Tenho o teu retrato, Mãe!

 

À cabeceira do leito,

Dentro dum lindo caixilho,

Tenho uma Nossa Senhora

Que venero a toda a hora…

Ai minha Nossa Senhora

Que se parece contigo,

E que tem, ao peito,

Um filho

(O que ainda é mais estranho)

Que se parece comigo,

Num retratinho,

Que tenho,

De menino pequenino…!

 

No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo, a um canto,

Não lhes vá tocar alguém,

(Quem as lesse, o que entendia?

Só riria

Do que nos comove a nós…)

Já tenho três maços, Mãe,

Das cartas que tu me escreves

Desde que saí de casa…

Três maços – e nada leves! –

Atados com um retrós…

 

Se não fora eu ter-te assim,

A toda a hora,

Sempre à beirinha de mim,

(Sei agora

Que isto de a gente ser grande

Não é como se nos pinta…)

Mãe!, já teria morrido,

Ou já teria fugido,

Ou já teria bebido

Algum tinteiro de tinta!

 

--- As Encruzilhadas de Deus, 1936



9 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - IV

 

SONETO DE AMOR

 

Não me peças palavras, nem baladas,

Nem expressões, nem alma… Abre-me o seio,

Deixa cair as pálpebras pesadas,

E entre os seios me apertes sem receio.

 

Na tua boca sob a minha, ao meio,

Nossas línguas se busquem, desvairadas…

E que os meus flancos nus vibrem no enleio

Das tuas pernas ágeis e delgadas.

 

E em duas bocas uma língua…, – unidos,

Nós trocaremos beijos e gemidos,

Sentindo o nosso sangue misturar-se.

 

Depois… – abre-me os teus olhos, minha amada!

Enterra-os bem nos meus; não digas nada…

Deixa a vida exprimir-se sem disfarce.

 

--- Biografia, 1929



8 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - III

 

SONETO DO JOSÉ MATIAS

 

Aquela aparição, aquela espuma

Que finge ter também um corpo…, aquela

Que é por de mais subtil, por de mais bela,

Para existir aquém do sonho e a bruma,

 

Aquela em quem amei nem sei que suma

De nuvem, flor, árvore, névoa, estrela,

Aquela que a mim próprio me revela,

E me é todas as mais sem ser nenhuma,

 

Sim, tem um nome, é quase uma qualquer,

(Tem o nome de Elisa…) e foi mulher

Dum que a deixou, morrendo, ao dono actual.

 

Esses, não eu!, te gozem, corpo triste.

A Beleza que encarnas e traíste

Só desce até cá baixo ao meu portal…

 

--- Biografia, 1929


3 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - II

 

A JAULA E AS FERAS

 

Vivem centos de doidos nesse hospício

(Quem no diria, olhando cá de fora…?!)

E o portão dança já no velho quício,

Dança, e faz entrar mais a toda a hora…

 

Trazem todos um sonho, um crime, um vício,

E foram reis lá muito longe, outrora…

E em seus rostos de espanto ou de flagício

Não sei que ausência atroz se comemora!

 

Faz medo e angústia olhá-los bem nos olhos;

E, lá por trás de grades e ferrolhos,

Estoiram de ansiedade desmedida.

 

– Meu corpo, ó meu hospício de alienados!

Abre-te aos meus desejos enjaulados,

Deixa-os despedaçar a minha vida!

 

--- Poemas de Deus e do Diabo, 1925

(Republicado em Biografia, 1929)

 


2 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - I

  

ÍCARO  

                       ao Fernando Lopes Graça          

 

A minha Dor, vesti-a de brocado,

Fi-la cantar um choro em melopeia,

Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,

Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

 

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,

Moendo os joelhos sobre lodo e areia.

E as multidões desceram do povoado,

Que a minha Dor cantava de sereia…

 

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!

Um silêncio gelou em derredor…

E eu levantei a face, a tremer todo:

 

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!

E, misérrima e nua, a minha Dor

Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

 

--- Poemas de Deus e do Diabo, 1925

(Republicado em Biografia, 1929)


24 de novembro de 2023

101 poemas portugueses - #9

 

SONETO


Sobre estas duras, cavernosas fragas,

Que o marinho furor vai carcomendo,

Me estão negras paixões n'alma fervendo,

Como fervem no pego as crespas vagas.


Razão feroz, o coração me indagas,

De meus erros a sombra esclarecendo,

E vás nele (ai de mim!) palpando e vendo

De agudas ânsias venenosas chagas.


Cego a meus males, surdo a teu reclamo

Mil objectos de horror co a ideia eu corro,

Solto gemidos, lágrimas derramo.


Razão, de que me serve o teu socorro?

Mandas-me não amar; eu ardo, eu amo:

Dizes-me que sossegue: eu peno, eu morro.


Manuel Maria Barbosa du Bocage (Setúbal, 1765 - Lisboa, 1805)

in José Régio (Vila do Conde, 1901-1969), As Mais Belas Líricas Portuguesas (s.d.)

28 de outubro de 2023

101 poemas portugueses - #4

 TROVA À MANEIRA ANTIGA

Comigo me desavim,
Sou posto em todo o perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.


Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse;
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

Sá de Miranda (Coimbra, 1481 - Amares, 1558)
in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler (1956)

3 de outubro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (1)

 

EPITÁFIO PARA UM POETA

 

As asas não lhe cabem no caixão!

A farpela de luto não condiz

Com seu ar grave, mas, enfim, feliz;

A gravata e o calçado também não.

Ponham-no fora e dispam-lhe a farpela!

Descalcem-lhe os sapatos de verniz!

Não vêem que ele, nu, faz mais figura,

Como uma pedra, ou uma estrela?

Pois atirem-no assim à terra dura,

Ser-lhe-á conforto:

Deixem-no respirar ao menos morto!

 

JOSÉ RÉGIO, Filho do Homem (1961)