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29 de dezembro de 2023

21 POEMAS DO SÉCULO 21 - XIX

 

Dei-te o meu corpo como quem estende

um mapa antes da viagem, para que nele

descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses

os dedos devagar, como fazem as aves

quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços

como uma escarpa pronta a desabar, ou

uma cidade do litoral a definhar nas ondas..

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas

nas minhas mãos – tristes geografias,

labirintos de razões improváveis, tão curtas

linhas que a minha vida não teve tempo

senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,

muros e regressos – nem sequer feridas

ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,

as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

 

MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA (1959), O Canto do Vento nos Ciprestes (2001)



8 de maio de 2014

da 1.ª Sessão das Quartas

Ontem leu-se variado e bem. Como estávamos no Museu Ferreira de Castro, foi a ele que coube inaugurar esta nova sessão das quartas: seguiram-se Pepetela, João Ricardo Pedro, Miguel Real, Franz Kafka, Eça de Queirós, Maria do Rosário Pedreira, Bertolt Brecht, Adelino Caldeira, e até dois folhetos: um sobre a morte de Alves Redol, em 1969, e a lista dos candidatos da CDE  no distrito de Lisboa, para o simulacro de eleições havido no mesmo ano, creio, com candidatos que dariam (e alguns ainda dão) que falar...  
Aqui ficam algumas linhas das minhas escolhas:

Ferreira de Castro, «Delfim Guimarães» (a propósito da morte do seu editor): "[...] Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer... [...]". In Memoriam de Delfim Guimarães (1934)

Eça de Queirós, em carta a Jaime Batalha Reis, defendendo-se de não ter participado o seu casamento: "[...] Mil trovões! Estás tu certo disso? O quê! Eu não te disse que ia casar, -- falando de pé, com um gesto largo, lá na casa de Langham St.?... / Bem diz o Santo Antero, como ja o ensinara o Buda divino! Tudo é nada: só há aparencias: o universo é uma grande ilusão: a única realidade é o não-ser! [...]". Cartas Inéditas de Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão, Batalha Reis e Outros (edição de Beatriz Berrini, 1987).

Sarah Adamopoulos, «A Marylin»: "[...] Todos os dias ela ia morrer. Acontecia-lhe em qualquer lugar. Podia ser no supermercado junto às arcas dos ultracongelados. Convencia-se de que ia ter um colapso cardíaco ou uma hemorragia cerebral e imaginava-se a cair e a ficar com a cabeça colada às embalagens dos panadinhos Capitão Iglo. [...]".  A Vida Alcatifada (1997)

Bertolt Brecht, «Desfile do povo alemão»: "Decorridos cinco anos nos disseram / que aquele que a si próprio se intitula / enviado de Deus já aprontou / sua guerra, os armamentos; / [...]".  O Terror e a Miséria no Terceiro Reich (1938 - tradução de Fiama Hasse Pais Brandão).