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12 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - VI

 

MEU MENINO, INO, INO

 

3

 

– Acabaste?

 

– Meu amor, acabei.

 

– Apagaste a candeia? apagaste?

 

– Meu amor, apaguei.

 

– E fechaste o postigo? e fechaste?

 

– Meu amor…, sim, fechei.

 

– Que rumor é aquele? não sentes?

 

– Meu amor, que te importa?

É a vida a dar socos na porta.

É lá fora. São eles. É o mundo. São gentes…

 

– São gentes? Quem são?

 

– São colegas, amigos, parentes…

 

– Vai dizer-lhes que não! Vai dizer-lhes que não!

 

--- As Encruzilhadas de Deus, 1936


10 de janeiro de 2024

JOSÉ RÉGIO: 11 OBRAS, 22 POEMAS - V

 

COLEGIAL

 

Em cima da minha mesa,

Da minha mesa de estudo,

Mesa da minha tristeza

Em que, de noite e de dia,

Rasgo as folhas, leio tudo

Desses livros em que estudo,

E me estudo,

(Eu já me estudo…)

E me estudo,

A mim,

Também,

Em cima da minha mesa,

Tenho o teu retrato, Mãe!

 

À cabeceira do leito,

Dentro dum lindo caixilho,

Tenho uma Nossa Senhora

Que venero a toda a hora…

Ai minha Nossa Senhora

Que se parece contigo,

E que tem, ao peito,

Um filho

(O que ainda é mais estranho)

Que se parece comigo,

Num retratinho,

Que tenho,

De menino pequenino…!

 

No fundo da minha mala,

Mesmo lá no fundo, a um canto,

Não lhes vá tocar alguém,

(Quem as lesse, o que entendia?

Só riria

Do que nos comove a nós…)

Já tenho três maços, Mãe,

Das cartas que tu me escreves

Desde que saí de casa…

Três maços – e nada leves! –

Atados com um retrós…

 

Se não fora eu ter-te assim,

A toda a hora,

Sempre à beirinha de mim,

(Sei agora

Que isto de a gente ser grande

Não é como se nos pinta…)

Mãe!, já teria morrido,

Ou já teria fugido,

Ou já teria bebido

Algum tinteiro de tinta!

 

--- As Encruzilhadas de Deus, 1936