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4 de janeiro de 2024

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. XX

 

AS FRÁGEIS HASTES


Não voltarei à fonte dos teus flancos

ao fogo espesso do verão

a escorrer infatigável

dos espelhos, não voltarei.


Não voltarei ao leito breve

onde quebrámos uma a uma

todas as frágeis

hastes do amor.


Eis o outono: cresce a prumo.

Anoitecidas águas

em breve em fúria em fogo

arrastam-me para o fundo.


EUGÉNIO DE ANDRADE

20 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (44)

 

AS PALAVRAS

 

São como um cristal,

as palavras.

Algumas, um punhal,

um incêndio.

Outras,

orvalho apenas.

 

Secretas vêm, cheias de memória.

Inseguras navegam:

barcos ou beijos,

as águas estremecem.

 

Desamparadas, inocentes,

leves.

Tecidas são de luz

e são a noite.

E mesmo pálidas

verdes paraísos lembram ainda.

 

Quem as escuta? Quem

as recolhe, assim,

cruéis, desfeitas,

nas suas conchas puras?

 

EUGÉNIO DE ANDRADE, Coração do Dia (1958)


7 de fevereiro de 2022

POEMA ou CANÇÃO... eis a questão

 
De vez em quando, somos surpreendidos pela excelência de um trabalho dedicado, que se revela útil, apelativo, agradável. Mesmo quem não morresse de amores pela poesia acabaria cativado.

Quer experimentar? Então deixe-se prender por esta coletânea organizada pela equipa responsável pela Biblioteca Escolar da Secundária de Amares (até o nome parece fadado...). Basta um clique na imagem, escolher um dos três grupos de poemas e ouça, ouça.

Que tal?

4 de abril de 2020

- 100 cartas a Ferreira de Castro - XL


Meus amigos do Clube de Leitura

Tenho que admitir, que nestes tempos de pandemia as minhas leituras têm andado bastante....direccionadas!  Mas isso pode ter uma explicação, como me escrevia o meu irmão há uns dias já do seu reduto em autoisolamento. E porque é de cartas que tratamos agora, passo a transcrever: “ Agora que virámos todos filósofos e procuramos o sentido da vida, versão Monty Python, não há como seguir os que já pensaram a coisa. «Sobre o futuro todos se enganam. O homem não pode estar seguro que do momento presente. Mas será isto verdade? Pode verdadeiramente conhecer o presente? Terá a capacidade de julgar? De certeza que não. Como é que aquele que não pode conhecer o futuro, poderia conhecer o sentido do presente? Se não sabemos a que futuro o presente nos conduz, como podemos dizer que este presente é bom ou mau, merecendo a nossa adesão, a nossa desconfiança ou o nosso ódio?» Milan Kundera”

             Sim, tenho andado à procura do sentido da vida e a reler muito devagarinho quem já pensou as coisas .“ (...) nesse momento, o ruir da sua coragem, da sua vontade e da sua paciência era tão brusco que lhes parecia que não poderiam jamais sair desse precipício. Então sujeitaram-se a não pensar no termo da sua clausura, a não voltar o olhar para o futuro e a conservar sempre os olhos baixos.  Mas, naturalmente, esta prudência, esta maneira de enganar a dor, de bater em retirada para recusar o combate, eram mal recompensadas. Ao mesmo tempo que evitavam este abatimento que não queriam por nenhum preço, privavam-se com efeito, desses momentos bastantes frequentes em que podiam esquecer a peste nas imagens da sua futura reunião. E, assim, encalhados a meia distância entre estes abismos e estes cumes, mais flutuavam do que viviam, abandonados a dias sem sentido e a recordações estéreis, sombras errantes que só poderiam ter ganho força aceitando criar raízes na terra da sua dor.
             Experimentavam assim o sofrimento profundo de todos os prisioneiros e de todos os exilados que vivem com uma memória que para nada lhes serve. Este próprio passado em que eles reflectiam sem cessar tinha apenas o gosto do arrependimento (...) Impacientes do presente, inimigos do passado e privados do futuro, parecíamo-nos assim bastante com aqueles que a justiça ou o ódio humano fazem viver atrás das grades. Para terminar, o único meio de escapar a estas férias insuportáveis era, pela imaginação, fazer andar de novo os comboios e encher as horas com o tinir repetido de uma campainha, contudo, obstinadamente silenciosa” A. Camus, A Peste, Livros do Brasil, 2016, pp.69-70
            
           Agora, andando eu tão pensativamente atarefada com questões filosóficas, tinha para ler as 100 Cartas a Ferreira de Castro que tão bem o Ricardo António Alves, seleccionou, comentou, anotou e, melhor ainda, nos ofereceu!

           Ao folhear, tropecei  numa e fiquei-me logo por ali. “Muito obrigado pela sua carta e pelos seus livros (...), os livros vieram-me lembrar aquele período da minha vida em que há muito de descoberta, de revelação e ao mesmo tempo de mistério (...) Nessa altura eu tinha uma sede de conhecimento enorme, e lia tudo, com uma pressa incrível. (Só mais tarde aprendi que um livro se deve ler devagar, com calma, para conseguirmos tocar, quando a inteligência e a sensibilidade o permitam, o mundo que o autor nos oferece). Durante anos li muitos livros, esqueci outros e reli alguns. Tive prazer em encontrar de novo o Pavel, a Ana Karenine, o Manuel [da] Bouça e o Juvenal, desta vez com mais compreensão da minha parte e já na companhia de Jean Christophe, de João, de Sérgio, Jim, Robert Jordane até mesmo de Lewis Alison.
Durante esses anos aprendi também que, apesar da desgraça comum, nem todos os homens tinham boa-vontade, dignidade e compreensão. E mais – que grande parte dos artistas tinham em si uma secura, uma desumanidade e um desenraizamento tal, que fariam estremecer as pedras, se os seus dedos as tocassem.
   Aqui tem, Ferreira de Castro, um dos motivos da minha admiração por si. Sei que v. lutou sempre por uma dignidade humana e para a construção dum mundo melhor. Como intelectual v. esteve sempre ao lado dos que queriam gritar e o seu grito não passava da garganta. Por isso os seus homens da Selva, dos Emigrantes, da Terra Fria, são vivos, são autênticos. Por isso nós precisamos de homens como V.” Carta de Eugénio de Andrade, Castelo Viegas, Abril 46 

           Imaginando que estou ao pé de vós na nossa tertúlia mensal, pergunto-vos: quem seriam essa "grande parte dos artistas" que E. de A., refere? E a mim, pergunto-me: Se eventualmente os li, será que com esse conhecimento os releria com um sentimento diferente? (estou a lembrar-me do O. Pamuk, n´O Romancista Ingénuo e o Sentimental...)

         Ricardo, confirma-se que o personagem Lewis Alison, poderia ser de um livro de  Charles Langbridge Morgan (1894-1958)? Em A Fonte, publicado em 1932, Lewis A. é um oficial inglês que está preso num castelo holandês durante a Primeira Guerra Mundial, para quem a prisão significa, de algum modo, a liberdade de se poder dedicar somente à leitura, meditação e a um livro que ele próprio está escrevendo.  Charles Morgan, foi ele próprio oficial subalterno na Divisão Naval do Churchill, enviada para a defesa de Antuérpia e esteve prisioneiro na Holanda.

Um abraço saudoso,
Sara Fonseca Ferreira

19 de janeiro de 2020

EPHEMERIDES

19 DE JANEIRO DE 1923 (97 ANOS)
EUGÉNIO DE ANDRADE




"Levar-te à boca
beber a água
mais funda do teu ser

se a luz é tanta
como se pode morrer?"

8 de julho de 2013

TODA A POESIA É LUMINOSA, Eugénio de Andrade

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Os Sulcos da Sede

lido na sessão de 5 de Julho de 2003

3 de maio de 2013

ELEGIA DE SETEMBRO, Eugénio de Andrade

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grande e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se recordam os mortos, sem os ferir
sem os trazer a esta espuma negra
onde os corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada olhando as rosas
e tão alheia
que nem dás por mim.

Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp. 82-85.

(lido na sessão de 5 de Abril de 2013)

17 de abril de 2012

BALANÇA DE PALAVRAS, A. M. Pires Cabral

As palavras têm um tranquilo
peso oculto,
rebelde ao dicionário.

Por isso são palavras,
não vocábulos apenas.

Fossem todas as palavras
pesadas em balança como a sua,
Eugénio,
tumultuosa balança de palavras.
 
in Aproximações a Eugénio de Andrade, coordenação de José da Cruz Santos, 2.ªedição, Edições Asa, Porto, 2001, p. 13.
 
(lido na sessão de13 de Abril de 2012) 

8 de março de 2012

um poema de Gastão Cruz

Revimos a grosseira superfície do
amor
Ninguém pudera corrompê-la tanto
por actos e palavras Estivemos
novamente deitados na aspereza
do seu leito
Um ramo na mão tinhas e quiseste
medi-lo com os lábios e metê-lo

no centro doloroso do teu corpo
Eu via as tuas mãos que procuravam
inseri-lo e guardavam
nas linhas ávidas o seu limite grosso
Interrompeste o
sono magoado do meu corpo
e comigo
dormiste sobre as manchas depois

in Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 69.

(lido na sessão de 2 de Março)

13 de fevereiro de 2012

PRESÍDIO, David Mourão-Ferreira

Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...

É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 50.

(lido na sessão de 3 de Fevereiro de 2012)

16 de janeiro de 2012

POEMA CONFIADO À MEMÓRIA DE NORA MITRANI, Alexandre O'Neill

Se eu pudesse dizer-te: -- Senta aqui
nos meus joelhos, deixa-me alisar-te,
ó amável bichinho, o pêlo fino;
depois, a contra-pêlo, provocar-te!
Se eu pudesse juntar no mesmo fio
(infinito colar!) cada arrepio
que aos viajeiros comprazidos dedos
fizesse descobrir novos enredos!
Se eu pudesse fechar-te nesta mão,
tecedeira fiel de tantas linhas,
de tanto enredo imaginário, vão,
e incitar alguém: -- Vê se adivinhas...
     Então um fértil jogo amor seria.
     Não este descerrar a mão vazia!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 48.

Lido na sessão de 6 de Janeiro de 2012

10 de janeiro de 2012

POEMA, Mário Cesariny

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto    tão perto    tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 46.

Lido na sessão de 6 de Janeiro

14 de dezembro de 2011

um poema de José Gomes Ferreira

(Finjo que não vejo as mulheres
que passam, mas vejo.)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Reacata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

In Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 31.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)

9 de dezembro de 2011

SONETO DE AMOR, José Régio

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., -- unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... -- abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 27.

(lido na sessão de 7 de Dezembro de 2011)

8 de novembro de 2011

VOLÚPIA, Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 21.

(lido na sessão de 4 de Novembro de 2011)

28 de outubro de 2011

CANÇÃO DO NU, Afonso Duarte

Lindo
Mármore precioso que na alcova
Surpreendi dormindo!
E lindo
À luz dum fósforo, acendido a medo,
Despertou sorrindo.
E, lindo,
Dos olhos as meninas me saltaram
Para o nu que se estava descobrindo.

Linda!
Ficou-se ao desgasalho adormecida,
Ai vida,
Como ainda não vi coisa tão linda.

Linda,
Braços abertos em desnudo amplexo,
Seu corpo era uma púbere mendiga,
E ele é que estava pedindo,
Lindo,
O meu sexo.

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 13.
(lido na sessão de 7 de Outubro de 2011).

10 de outubro de 2011

Eros de Passagem, (org.) Eugénio de Andrade

A colectânea de poesia erótica contemporânea Eros de Passagem é a segunda edição revista da colectânea Variações de um corpo. Nessa primeira edição, de 1987, cada um dos poemas seleccionados dava corpo a um desenho do escultor José Rodrigues. Em 1997, Eugénio de Andrade, responsável pela selecção, decidiu alterar os critérios de selecção, deixando os poemas, por exemplo, de acompanhar ilustrações, e, deste modo, dar conta de alterações entretanto ocorridas na produção poética nacional, nomeadamente no modo como esta dá corpo o erotismo.
A obra reúne poemas de 58 autores, em que o erotismo que se apresenta como forma de expressão física do sentimento amoroso, registando o corpo e as suas pulsões.


Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny