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13 de janeiro de 2025

101 poemas portugueses #57


FESTA ALEGÓRICA


O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte de soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas:
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.


SB, 7/1/74

Jorge de Sena (Lisboa, 1919 - Santa Bárbara, Califórnia, 1978)´
40 Anos de Servidão (póst., 1979)

23 de agosto de 2024

LIRA MAIOR (3)

 

AMOR

 

Amor, amor, amor, como não amam

os que de amor o amor de amar não sabem,

como não amam se de amor não pensam

os que de amar o amor de amar não gozam.

Amor, amor, nenhum amor, nenhum

em vez do sempre amar que o gesto prende

o olhar ao corpo que perpassa amante

e não será de amor se outro não for

que novamente passe como amor que é novo.

Não se ama o que se tem nem se deseja

o que não temos nesse amor que amamos,

mas só amamos quando amamos o acto

em que de amor o amor de amar se cumpre.

Amor, amor, nem antes, nem depois,

amor que não possui, amor que não se dá,

amor que dura apenas sem palavras tudo

o que no sexo é o sexo só por si amado.

Amor de amor de amar de amor tranquilamente

o oleoso repetir das carnes que se roçam

até ao instante em que paradas tremem

de ansioso terminar o amor que recomeça.

Amor, amor, amor, como não amam

os que de amar o amor de amar o amor não amam.

 

JORGE DE SENA - Peregrinatio ad loca infecta (1969)


18 de junho de 2024

25 poemas passados para português - #25


À ESPERA DOS BÁRBAROS


O que esperamos nós em multidão no Forum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, sùbitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


Konstantínos Kaváfis (Alexandria, 1863-1933)

versão de Jorge de Sena (1919-1978), in Constantino Cavafy,  90 e Mais Quatro Poemas 

daqui - https://lsoares.blogs.sapo.pt/c-p-cavafy-a-espera-dos-barbaros-1162386 

23 de abril de 2024

#25 poemas passados para português - #22


A mim o que me mata,

querido efebo, digo-te:

desejo sem prazer,

versos sem graça ou ritmo

e ceias só com chatos.


Arquíloco (, Jónia, Séc. VII a. C.)

in Jorge de Sena, Poesia de 26 Séculos (1972)

18 de janeiro de 2024

25 poemas passados para português - #10


Entre o meu País -- e os Outros --

Há um Mar --

Mas Flores -- negoceiam entre nós --

Como embaixadas


Emily Dickinson (Hamherst, Massachusetts (1830-1866)

versão de Jorge de Sena, 80 Poemas de Emily Dickinson (1978)

(original aqui)

8 de janeiro de 2024

15 formulações poéticas - #6. Jorge de Sena

 «A melhor poesia tem sempre um tom de conversa intelectual, que é inimigo da brilhante e má retórica.»

29 de novembro de 2023

25 poemas passados para português - #4

 HOMER CLAPP

Muitas vezes Aner Clete no portão
me recusou um beijo de adeus,
dizendo que tínhamos primeiro de estar noivos,
e só com um distante apertar-me da mão
me dava as boas-noites, quando eu a trazia a casa
do ringue de patinagem ou da igreja.
Mal tinha o ruído dos meus passos sumido na distância
e Lucius Atherton
(o que eu soube quando Aner se foi para Peoria)
lhe entrava pela janela ou a levava
no carro puxado pela parelha baia
a passear no campo.
O desgosto levou-me a tratar da vida
e pus todo o dinheiro da herança de meu pai
na fábrica de latas, para conseguir
ser chefe da contabilidade, e perdi tudo.
Foi quando entendi que eu era um dos bobos da Vida,
a quem só a morte trataria como igual
aos outros homens, fazendo que eu me sentisse um homem.


Edgar Lee Masters (Garnett, Kansas, 1868 - Elkins Park, Pensilvânia, 1950)
versão de Jorge de Sena (Lisboa, 1919 - Santa Bárbara, Califórnia, 1978),
Poesia do Século XX (1978) 

 Often Aner Clute at the gate
Refused me the parting kiss,
Saying we should be engaged before that;
And just with a distant clasp of the hand
She bade me good-night, as I brought her home
From the skating rink or the revival.
No sooner did my departing footsteps die away
Than Lucius Atherton,
(So I learned when Aner went to Peoria)
Stole in at her window, or took her riding
Behind his spanking team of bays
Into the country.
The shock of it made me settle down,
And I put all the money I got from my father's estate
Into the canning factory, to get the job
Of head accountant, and lost it all.
And then I knew I was one of Life's fools,
Whom only death would treat as the equal
Of other men, making me feel like a man.

2 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTGUESA, século XX (26)

 

TENDO LIDO UMA CARTA ACERCA DE UM SEU LIVRO DE POEMAS, QUE OFERECERA

 

Por que entristeço ao ler o que de meus

versos escrevem, se não é de mim

que escrevem?

Será que chora em mim o que meus versos foram

antes de ser meus?

Por que pergunto, se já sei por quê?

 

Escuto longamente, leio, espero,

e o poema é voz de toda a gente, todos eles, que,

não se tendo ouvido, não a sabem sua.

E vêm chorar em mim o coração traído,

a música perdida em distracções urgentes,

umas palavras que ninguém falou.

 

Não entristeço, pois. Apenas sou pergunta,

e, sendo eu, me esqueço ao perguntar.

 

                                                                                   5/1/1951

 

JORGE DE SENA, Post-Scriptum (edição póstuma)



14 de janeiro de 2022

RUY BELO : A NOVA POESIA EM PORTUGAL


 

                    Em 78 procuravam-se novos rumos para a cultura portuguesa após uma década de notáveis experimentalismos. Retenho algumas ideias que bebi em "A Vida da Poesia" de Gastão Cruz : a) quando R.B. surge o discurso poético estava por definir-se quanto a direcções a tomar - a linha discursiva que vinha de Sena, Rosa ou Helder estava suspensa.; b) surge um tempo de desconstrução do discurso com o desmantelamento de esquemas lógicos e sintáticos; c) Ruy Belo opta pela reconstrução do discurso.

Na revista Raíz e Utopia que sai no Inverno daquele ano, cuja leitura recomendo vivamente, (  que tenta ocupar o hiato cultural com reflexões muito amplas) é publicado na secção de Poesia um inédito de Ruy Belo que renova tudo o que sabemos ou pensamos a propósito do poeta. Cuidava-se então, neste número, de uma "nova poesia em Portugal" pelas mãos de José Manuel Alexandre, de Manuel Cintra e Luis Miguel Nava. São textos longos, com versos muito longos e irregulares aonde se deixa correr a pena a quente sem preocupações de rima numa confluência temática "delirante".  Não sei que é feito desta nova poesia...

O inédito manuscrito de Ruy Belo intitula-se "Na Noite de Madrid"  (escrito na Póvoa de Varzim, à vista do mar, 10 horas da manhã do dia 29 de Dezembro de 1971). Chama-se a atenção para este texto por ser o passo seguinte a Homem de Palavras(s) transportando contudo todas as abordagens temáticas que conhecemos no poeta nomeadamente a problemática da exclusão do sujeito e do anonimato do outro que tão humanamente expôs nos seus poemas: "que jornal contaria a imensidão do nome/de quem como um insulto ali jazia?/que pensamentos próximos tivera?/e o que levaria ele nos bolsos?/Donde viria?sorriria?onde ia?".

Para concluir: Foi esta forma de expressão aquela que mais me atingiu e deixou possivelmente algumas marcas nos meus escritos e nos da minha geração nas entrelinhas de finais de 70 despoletando em nós alguma poesia política despertando-nos para várias realidades do país real que eramos e país sonhado que continuamos a ser por muitos anos.       

                         

                

23 de março de 2020

da carta de Raul Brandão a Ferreira de Castro:

«São raras efectivamente as pessoas que em Portugal estimam os meus livros, mas essas bastam-me, quando compreendem não o que vale a minha obra necessariamente imperfeita, mas o esforço que faço para arrancar alguns farrapos ao Sonho…»

Carta I, datada da Nespereira, Guimarães, em 28 de Março de 1922.
Resposta a um artigo sobre Brandão escrito por Ferreira de Castro, na revista  A Hora. Brandão foi uma das principais referências de Castro, como já o dissera Jorge de Sena.
100 Cartas a Ferreira de Castro, edição de Ricardo António Alves, Sintra, Câmara Municipal e Rede Portuguesa de Museus, 2007, p. 7.



2 de novembro de 2019

EPHEMERIDES

2 DE NOVEMBRO DE 2019 (100 ANOS!)
JORGE DE SENA 








"Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida."

19 de maio de 2015

2 poemas de Hermann Hesse




UM ENXAME DE MOSQUITOS

Miríades em poalha rebrilhante
Se agrupam ávidos e avançam
Em círculos trémulos
Desenfreadamente divertidos
Uma hora e logo sumidos
No delírio se esgotam zubinando
De pura alegria da morte.

Impérios decadentes e arruinados,
Tronos dourados desaparecidos
Na voragem da noite e da lenda, sem deixar traço,
Jamais conheçeram dança tão frenética.


NA NÉVOA

Como é estranho andar no nevoeiro!
Sòzinha a pedra e a planta,
Uma árvore não vê a outra,
Solidão tanta.

Muitos amigos eu tinha
No tempo da vida viva;
Agora que a névoa cai,
De tudo a vista me priva.

Nada sabe quem não sabe
Como a treva nos separa
De tudo e todos, tão doce,
Inescapável, avara.

Como é estranho andar no nevoeiro!
A vida é solitude -- não adianta.
Ninguém conhece um outro.
Solidão tanta.

in Jorge de Sena, Poesia do Século XX, 2.ª ed., Coimbra, Fora do Texto, 1994, pp. 190-192

(lido na sessão de 8 de Maio de 2015) 

15 de março de 2014

CADERNOS CALIBAN

 Máscara de Angoche
Lourenço Marques, 1971. Capa e segunda página de um dos preciosos "Cadernos Caliban", adquirido naquela cidade do Índico no ano da sua publicação. A coordenação destes cadernos de poesia estava a cargo de J. P. Grabato Dias e Rui Knopfli. Além dos coordenadores, colaboraram neste número Jorge de Sena, Eugénio Lisboa (com uma tradução de T. S. Eliot), José Craveirinha, Rui Nogar, Sebastião Alba e Jorge Viegas.
Caliban é personagem de A Tempestade, de W. Shakespeare. J. P. Grabato Dias era um dos pseudónimos de António Quadros (pintor).

14 de junho de 2013

...DE PASSAREM AVES, Jorge de Sena

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.

Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando,
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp.110-111.
(lido na sessão de 7 de Junho)

15 de agosto de 2011

e assim começa O VELHO E O MAR

Era um velho que pescava sòzinho num esquife da Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., pp. 7-8.