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2 de novembro de 2019

EPHEMERIDES

2 DE NOVEMBRO DE 2019 (100 ANOS!)
JORGE DE SENA 








"Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida."

19 de maio de 2015

2 poemas de Hermann Hesse




UM ENXAME DE MOSQUITOS

Miríades em poalha rebrilhante
Se agrupam ávidos e avançam
Em círculos trémulos
Desenfreadamente divertidos
Uma hora e logo sumidos
No delírio se esgotam zubinando
De pura alegria da morte.

Impérios decadentes e arruinados,
Tronos dourados desaparecidos
Na voragem da noite e da lenda, sem deixar traço,
Jamais conheçeram dança tão frenética.


NA NÉVOA

Como é estranho andar no nevoeiro!
Sòzinha a pedra e a planta,
Uma árvore não vê a outra,
Solidão tanta.

Muitos amigos eu tinha
No tempo da vida viva;
Agora que a névoa cai,
De tudo a vista me priva.

Nada sabe quem não sabe
Como a treva nos separa
De tudo e todos, tão doce,
Inescapável, avara.

Como é estranho andar no nevoeiro!
A vida é solitude -- não adianta.
Ninguém conhece um outro.
Solidão tanta.

in Jorge de Sena, Poesia do Século XX, 2.ª ed., Coimbra, Fora do Texto, 1994, pp. 190-192

(lido na sessão de 8 de Maio de 2015) 

15 de março de 2014

CADERNOS CALIBAN

 Máscara de Angoche
Lourenço Marques, 1971. Capa e segunda página de um dos preciosos "Cadernos Caliban", adquirido naquela cidade do Índico no ano da sua publicação. A coordenação destes cadernos de poesia estava a cargo de J. P. Grabato Dias e Rui Knopfli. Além dos coordenadores, colaboraram neste número Jorge de Sena, Eugénio Lisboa (com uma tradução de T. S. Eliot), José Craveirinha, Rui Nogar, Sebastião Alba e Jorge Viegas.
Caliban é personagem de A Tempestade, de W. Shakespeare. J. P. Grabato Dias era um dos pseudónimos de António Quadros (pintor).

14 de junho de 2013

...DE PASSAREM AVES, Jorge de Sena

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.

Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando,
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp.110-111.
(lido na sessão de 7 de Junho)

15 de agosto de 2011

e assim começa O VELHO E O MAR

Era um velho que pescava sòzinho num esquife da Corrente do Golfo, e saíra havia já por oitenta e quatro dias sem apanhar um peixe. Nos primeiros quarenta dias um rapaz fora com ele. Mas, após quarenta dias sem um peixe, os pais do rapaz disseram a este que o velho estava definitivamente e declaradamente salao, o que é a pior forma de azar, e o rapaz fora por ordem deles para outro barco que na primeira semana logo apanhou três belos peixes. Fazia tristeza ao rapaz ver todos os dias o velho voltar com o esquife vazio e sempre descia a ajudá-lo a trazer as linhas arrumadas ou o croque e o arpão e a vela enrolada no mastro. A vela estava remendada com quatro sacos de farinha e, assim ferrada, parecia o estandarte da perpétua derrota.

Ernest Hemingway, O Velho e o Mar, tradução de Jorge de Sena, Lisboa, Livros do Brasil, s. d., pp. 7-8.