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28 de janeiro de 2015

de Ferreira de Castro

«Zola teve um grande papel na Literatura. Para se avaliar toda a sua extensão, basta imaginarmos que ele não existiu: basta imaginar a literatura dos últimos oitenta anos sem a sua presença. Depois deste pequeno passatempo, rapidamente encontraremos um enorme vazio, que não sabemos como preencher, uma enorme corrente partida, que não sabemos como ligar...»

(Último parágrafo dum texto publicado no volume colectivo Présence de Zola (Paris, 1953), republicado, nesse mesmo ano, na Vértice. Estávamos no cinquentenário da morte do autor de Germinal ). Coligi-o para a antologia de dispersos, que intitulei «A Unidade Fragmentada», Vária Escrita #3, Sintra, 1996)

(lido na sessão de quarta-feira, 21.I.2015)

7 de janeiro de 2013

Dois ou três lugares-comuns a pretexto duma obra maior

     Gostaria de escrever aprofundadamente sobre este livro de Primo Levi, mas não me é possível. Não posso, por outro lado, deixar de me referir a uma das melhores obras que vieram a debate no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro.
     Assim, com toda a disposição mas pouco tempo, direi a primeira banalidade: a ficção realista é sempre ultrapassada pela realidade, trate-se de um ambiente concentracionário na floresta amazónica (A Selva, de Ferreira de Castro), uma migração colectiva na América da Grande Depressão (As Vinhas da Ira, de John Steinbeck) ou uma exploração mineira em França (Germinal, de Émile Zola).
Se Isto É um Homem, de 1947, é um relato verídico de um sobrevivente, escrito ao longo de mais de um ano, tão intensamente vivo como profundamente meditado. E, por isso, o horror pôde ser descrito com objectividade, a benefício da narrativa, que não se deixa seduzir pela magnitude do tema (a vivência do próprio autor no infame campo de Auschwitz, até à libertação pelas tropas soviéticas, em Janeiro de 1944), conduzindo a narrativa porventura com uma grandiloquência que só a prejudicaria. Como Levi é um grande escritor, serve o texto com absoluta mestria, num estilo contido e recurso frequente a frases curtas, remates de períodos que nos deixam k.o.
Se Isto É um Homem: a condição simultaneamente trágica e patética do bicho-homem que conhecemos de nós próprios, mas que aqui outrém -- o autor -- revela. E, embora revelando-se, apenas o faz parcialmente, pois o autor/narrador fala de um eu que só em determinados e ocasionais momentos o é, porque do que se trata é a confirmação à outrance, e pelos meios conhecidos, do desiderato dos alemães nesta perseguição insana: a de retirar os judeus da humanidade -- não apenas exterminando-os, mas, naqueles que não eram desde logo executados, esvaziando-os dessa mesma humanidade, como que para comprovar teorias rácicas tão dementes quanto extraordinariamente estúpidas (um racista biológico, quando não for um doido varrido, será sempre um cretino, ignorante e por vezes perigoso).
    

à margem, mas a propósito

Outro lugar-comum, que por o ser não é menos verdadeiro, é o da natureza excepcionalmente maligna do feixe de ideias imbecil e mal cozinhado que foi o nacional socialismo, pior do que o estalinismo, na medida em que este, entre outras coisas, pintava o despotismo com as cores do humanismo (como embuste, talvez nada lhe leve a palma); o nazismo, pelo contrário, não ocultou a sua natureza degeneradamente maligna: a da suposta e absurda existência de uma raça superior, doutras inferiores, e até de uma categoria que estava -- nas cabeças deformadas dos --, abaixo da humanidade e que havia que exterminar, não sem  antes ser sugada, metodicamente, pelo trabalho até à exaustão, com rigor e cultura germânicos.
    

19 de setembro de 2011

um biógrafo português de Diderot

Antes de me lançar ao próximo livro, apeteceu-me reler a sucinta biografia Diderot e a Sua Época, de Jaime Brasil, publicada nos magníficos «Cadernos Culturais» da Editorial Inquérito, em Fevereiro de 1940.
Brasil foi um cultor do género biográfico, como poucos entre nós (Mário Domingues e Agostinho da Silva serão os casos mais salientes). Senhor de um grande estilo, jornalístico, na melhor acepção da palavra, dedicou-se a esquadrinhar as vidas de Ferreira de Castro (de quem foi grande amigo), Diderot, Victor Hugo, Zola, Rodin, Leonardo (esta recentemente reeditada), Velázquéz, Balzac... -- para além de outros géneros literários: da polémica à reportagem, da divulgação científica à bibliografia, sem esquecer as traduções ou a epistolografia, em que foi exímio.
Durante esta semana, colocarei uns pòzinhos deste estudo biográfico, que, diga-se, foi escrito em Paris, cidade em que se exilou até à ocupação alemã, que ainda viveu.