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29 de dezembro de 2023

TEM DIAS XXV

 


ARTE PRIMEIRA


Do ponto mais recôndito

da mente,

um tigre salta em direcção

à luz:


para depois retroceder

o gesto,

estacado membro

e som


Fere-lhe o vento

uma flecha de azul,

um recanto onde o tempo

mais se apega,

até iluminar toda a 

clareira


e sobressaltar

tudo



ANA LUÍSA AMARAL, A Arte de Ser Tigre.




5 de dezembro de 2023

21 POEMAS DO SÉCULO 21 - IV

 

A ARANHA: ROMANCE OUVIDO NUM JARDIM, POR ENTRE DENSA FOLHAGEM

 

Adoro as tuas pernas, meu amor,

as mais bonitas que entre folhas vi!

Se as pudesse afagar aqui, e aqui…

Oh, o prazer de as conhecer de cor!

 

Na sua cor de céu vazio de estrelas

como hão-de os pêlos delas ser macios!

Destas pernas virão supremos fios

de teias como tule, lisas e belas.

 

Aranha minha, tesouro viscoso,

a minha dor é não poder tocar-te

no perigo de depois me achares delicioso,

a mim, que desfaleço em êxtase e na arte

 

de querer tecer-te linhas muito ternas

carregadas de fina sedução

e insistindo contigo a minha sorte:

 

poder ter-te encostada no meu peito

dizer-te tanta perna para tão curto feito!

 

Por uma perna tua eu suportava a morte –

toma os meus palpos, patas, linfa, coração.

 

ANA LUÍSA AMARAL (1956-2022), Mundo (2021)



13 de novembro de 2023

POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (37)

 

QUALQUER COISA DE INTERMÉDIO

 

                    Eu não sou um nem outro:

                        Sou qualquer coisa de intermédio

                                                                M. de Sá-Carneiro

 

Se eu fosse o outro,

o do chapéu macio e do bigode

eternizado em cúbico arremedo,

angústia dividida em tantas partes

e óculos redondos,

podia-te contar eu guardador e sonhos

 

Se eu fosse o outro,

o delicado e bêbado génio de nós todos,

o que amou estranho e sabia dizer

coisas enormes numa pequena língua

e fraco império,

se eu fosse aquele inteiro

ditado de exageros e exclusões,

falava-te de tudo em ingleses versos

 

E mesmo se não foi ele quem disse

(e podia até ser, que eram amigos

e o século a nascer arrepiava como já não

o fim) há razão nessa história do pilar

e do tédio a escorrer de um

para o outro

 

ANA LUÍSA AMARAL, Minha Senhora de Quê (1990)