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3 de março de 2024

101 poemas portugueses - #24.


CANÇÃO DUMA SOMBRA 


Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha, para ouvir a voz das cousas,
                    Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte, que chorava,
E como nós cantava e que secou...
E este sol que eu comungo de joelhos,
                     Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à vida e se inflitrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
                    Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
                    Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
                    Eu não era o que sou.


Teixeira de Pascoais (Amarante, 1877 - Gatão, 1952),

As Sombras (1907) / Antologia Poética

(ed. por Ilídio Sardoeira)

11 de dezembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL. XIV

 

TRISTEZA


Mas quem sou eu? Um vulto que a tristeza

Modelou numa nuvem do poente...


Sou irmão da tristeza, irmão das sombras

Das árvores que os ventos enlouquecem

E dançam, de mãos dadas, ao luar.


Sou irmão da tristeza; e em nome dela

Ando por estes montes solitários,

Quando as ermas trindades da noitinha,

Em percutidas baladas de oiro,

Parecem despertar na escuridade

Medos, aparições, visões de outrora...


Divago nos pinhais, à luz da lua,

Sozinho, quando o zéfiro acordado

Aligeira, nervoso, as frias asas,

E ouço através da rama verde-negra

Murmúrios, vozes tristes,

Versos de dor em ritmos de penumbra,

Irmãos daqueles versos que eu compus

Nesse divino instante em que senti

Encher-me, para sempre, o coração

Desconhecida mágoa descendida

Das alturas fantásticas da noite.


TEIXEIRA DE PASCOAIS