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10 de dezembro de 2024

Pelo Tejo vai-se para o mundo (04)

 UMA ALEGRE PRUDÊNCIA
(César Franck: Sonata para Violoncelo e Piano em Lá Maior)

Tanto foi o que ignorei e o que perdi.
E no entanto salva-me o poderoso
som de Jacqueline du Prè, a violoncelista
que morreu muito jovem.
Cada um é o solista do seu próprio silêncio:
tem de saber muito bem quando deve entrar.
Se calhar sou um rato empedernido pela dor
que numa manhã de Primavera
parou para ouvir o canto dos pássaros.



UNA ALEGRE PRUDÈNCIA
(César Franck: Sonata per a violoncel i piano en la major)

És tant el que he ignorat i el que he perdut.
I, en canvi, com em salva aquell so poderós
de Jacqueline du Prè, la violoncel-lista
que va morir tan jove.
Cadascú és el solista del seu propi silenci:
li cal saber molt bé quan ha d'entrar.
Potser soc una rata que el dolor
va endurir i que, un matí de primavera,
s'ha parat a escoltar el cant dels ocells.



Joan Margarit em "Animal de Bosque"
Tradução de Àlex Tarradellas, Rita Custódio e Miguel Filipe Mochila
Língua Morta | Flâneur
Abril de 2024

22 de dezembro de 2023

Pelo Tejo vai-se para o mundo (01)

 TANTAS CIDADES A QUE DEVÍAMOS TER IDO

O nosso sonho é feito de cidades cultas,
com música e cafés familiares,
a majestade de um porto e estações
de ferro e de vidro com comboios brunidos pela noite
e pela chuva, a mesma chuva 
que nos acompanha num pequeno hotel
ou nas janelas de um museu.
Há recantos ao abrigo de grandes árvores,
gente calada, educada e bem vestida
e as silenciosas livrarias
onde os olhos vagueiam enquanto cai a tarde.

Tantas cidades onde devíamos ter ido, meu amor.
A lua emerge para lá daquelas pontes de ferro
dos anos que mudaram a nossa lei.
Desde então o tempo é uma chuva
que nos inunda como inunda os telhados.
Mas na luz do pátio vemos os templos
de mármore branco e dourado travertino.
Encontramos, nas ruas de pequenas aldeias,
faustosos estuques cor de terra
esgrafiados pelo vento. Esta casa
da varanda e do pátio tem uma luz
de conversas e conforto. De nós,
aquele que ficar terá por companhia
a memória do cipreste e das heras
até nos reencontrarmos nas cidades do sonho.



Joan Margarit em L'Ordre Del Temps (1975-1986)
Da antologia Misteriosamente Feliz (Língua Morta, 2015)