
20 de abril de 2026
"Imagens literárias das Beiras" - Conversas sobre Ferreira de Castro

20 de outubro de 2023
POESIA EM LÍNGUA PORTUGUESA, século XX (14)
CARTA A RUI FEIJÓ SOBRE O MISTÉRIO DE
ORIANA
Oriana adormeceu à beira-mar
e os seus cabelos longos de tristeza
salgou-os nessas ondas a coalhar
que há no mar do silêncio à portuguesa.
Correram-lhe das pálpebras pesadas
o Guadiana e o Tejo, o Minho e o Doiro;
o sol posto deixou-lhe as mãos doiradas,
e adormeceu com luz como um tesoiro.
Que estranho nome o de Oriana: estrela,
mulher ou pátria? flor, constelação?
Palavra numerosa, será ela
o múltiplo acordar desta canção:
aquela por quem eu, e por seu pranto,
sustenho a espada de Amadis e canto.
CARLOS DE OLIVEIRA, Terra de Harmonia (1950)
24 de maio de 2023
7 de fevereiro de 2022
POEMA ou CANÇÃO... eis a questão
De vez em quando, somos surpreendidos pela excelência de um trabalho dedicado, que se revela útil, apelativo, agradável. Mesmo quem não morresse de amores pela poesia acabaria cativado.
Quer experimentar? Então deixe-se prender por esta coletânea organizada pela equipa responsável pela Biblioteca Escolar da Secundária de Amares (até o nome parece fadado...). Basta um clique na imagem, escolher um dos três grupos de poemas e ouça, ouça.
Que tal?
5 de julho de 2021
o início de UMA ABELHA NA CHUVA
«Pelas cinco horas duma tarde invernosa de outubro, certo viajante entrou em Corgos, a pé, depois da árdua jornada que o trouxera da aldeia do Montouro, por maus caminhos, ao pavimento calcetado e seguro da vila: um homem gordo, baixo, de passo molengão; samarra com gola de raposa; chapéu escuro, de aba larga, ao velho uso; a camisa apertada, sem gravata, não desfazia no esmero geral visível em tudo, das mãos limpas à barba bem escanhoada; é verdade que as botas de meio cano vinham de todo enlameadas, mas via-se que não era hábito do viajante andar por barrocais; preocupava-o a terriça, batia os pés com impaciência no empedrado.» Carlos de Oliveira, Uma Abelha na Chuva [1953], 22.ª ed., Lisboa, Sá da Costa, 1984.
1 de julho de 2021
ENCHARCAR-SE DE ORVALHO...
"O primeiro alvor da madrugada na janela do escritório, um começo de luz apenas, ainda por fixar no contorno do mundo. Como a mulher se tivesse recusado a deixá-lo entrar no quarto, passara ali a noite, encolhido no meiple de couro, com a samarra pelas pernas. Não conseguira adormecer, mas alcançara do excesso das palavras e do álcool um pouco de repouso. No entanto, doía-lhe a cabeça. A boca seca, amarga. Levantar-se e abrir a janela. Uma golada de água, a pureza fria da madrugada. A cinza da luz amontoava-se nas vidraças, mas não era possível prever se o dia chegaria ou não. Quando começava a clarear um pouco mais, a lufada de sombra varria a cinza da janela. Um desejo irreprimível de cheirar os campos molhados. Beber água, passar os dedos na casca rugosa dum pinheiro, encharcar-se de orvalho. Atravessou a casa adormecida, abriu a porta com cuidado e saiu."
(Carlos de Oliveira nasceu em 10 de Agosto de 1921 e faleceu em 1 de Julho de 1981, faz hoje 40 anos)



