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23 de dezembro de 2023

101 poemas portugueses - #14


MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de Inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;
Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

Cesário Verde (Lisboa, 1855-1866)
O Livro de Cesário Verde (1867)

3 de novembro de 2023

POEMAS IMORTAIS - UMA SELECÇÃO POSSÍVEL - III

 

DE TARDE


Naquele piquenique de burguesas

Houve uma coisa simplesmente bela

E que, sem ter história nem grandezas,

Em todo o caso dava uma aguarela.


Foi quando tu, descendo do burrico,

Foste colher, sem imposturas tolas,

A um granzoal azul de grão-de-bico

Um ramalhete rubro de papoulas.


Pouco depois, em cima duns penhascos,

Nós acampámos, inda o Sol se via;

E houve talhadas de melão, damascos,

E pão-de-ló molhado em malvasia.


Mas, todo púrpuro, a sair da renda

Dos teus dois seios como duas rolas,

Era o supremo encanto da merenda

O ramalhete rubro das papoulas!


Cesário Verde



25 de junho de 2018

12+12=12 - uma lista (im)possível, válida para agora

Fazer listas é-me tão agradável quanto insatisfatório, pelo que se deixa para trás. Remorsos.


No caso dum clube de leitura em que se participou em todas as sessões, vários, muitos, foram os livros já lidos, e mesmo relidos, noutras ocasiões. Noutros tantos casos -- provavelmente a maioria --, a leitura tornou-se revelação, pelo primeiro contacto com o texto, e por vezes com o próprio autor dele.


Estas evidências, características dum clube de leitura, suscitaram-me a seguinte reflexão: neste tipo de avaliações, mesmo (ou sempre) subjectivas, os livros não estão em igualdade de circunstâncias, pois se nunca somos a mesma pessoa -- o mesmo leitor -- que agora lê o outrora já lido,  uma coisa é conhecer, outra lembrar. Daí que, fazendo batota, tenha resolvido furar o esquema, e escolher os doze livros de que mais gostei, mas que já lera noutras ocasiões; e os doze livros cuja leitura fiz pela primeira vez no âmbito do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro. E no fim, cruciado, fazer uma síntese das duas listas numa terceira.


A este drama pungente soma-se outra dificuldade: comecei por pensar não incluir mais do que uma obra por autor, mas tal opção iria prejudicar a minha avaliação relativamente aos livros do Ferreira de Castro, meu patrono (meu patrão), que assinou três dos romances que mais gostei ler na minha vida (e ainda uma novela), não contando com a importância histórica e literária que tiveram e têm na novelística portuguesa do século XX. Deixarei, porém, de fora esses critérios, credores dum cabedal demonstrativo -- se necessário fosse para os livros em causa -- e eventualmente argumentativo,  que seria descabido neste blogue.
Chega de conversa, não sem antes rematar informando que a ordem é unicamente a da data da primeira edição de cada título, e que a lista é válida para hoje. Amanhã (ou para a semana), poderia ser diferente...


Lista 1. 12 livros já lidos noutras ocasiões:


Lista 2. 12 livros lidos pela primeira vez no Clube de Leitura:


Lista 3. a lista impossível.


Assim,


Lista 1


1- O Livro de Cesário Verde (1887)
2- Húmus (1917), de Raul Brandão
3- O Malhadinhas (1922), de Aquilino Ribeiro
4- Emigrantes (1928), de Ferreira de Castro
5- A Selva (1930), de Ferreira de Castro
6- Vinte e Quatro Horas da Vida de uma Mulher (1935), de Stefan Zweig
7- Bichos (1940), de Miguel Torga
8- A Lã e a Neve (1947), de Ferreira de Castro
9- Barranco de Cegos (1961), de Alves Redol
10- O que Diz Molero (1977), de Dinis Machado
11- Na Patagónia (1977), de Bruce Chatwin
12- As Primeiras Coisas (2013), de Bruno Vieira Amaral


Lista 2


1- Nossa Senhora de Paris (1831), de Victor Hugo
2- As Pupilas do Senhor Reitor (1867), de Júlio Dinis
3- Platero e Eu (1914), de Juan Ramón Jimenez
4- Se Isto É um Homem (1947), de Primo Levi
5- Contos Exemplares (1962), de Sophia de Mello Breyner Andresen
6- Lavoura Arcaica (1974), de Raduan Nassar
7- A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich
8- Gente Feliz com Lágrimas (1988), de João de Melo
9- O Deus das Pequenas Coisas (1997), de Arundhati Roy
10- Império à Deriva (2004), de Patrick Wilcken
11- A Arte de Voar (2009) de Antonio Altarriba & Kim
12- Entre o Céu e a Terra (2012), de Rui Chafes


a lista impossível


1- O Livro de Cesário Verde (Outubro de 2009)
2- Platero e Eu (Junho de 2008)
3- Húmus (Julho de 2012)
4- O Malhadinhas(Junho de 2013)
5- Emigrantes (Maio de 2008)
6- A Selva (Julho de 2009)
7 - A Lã e a Neve (Fevereiro de 2014)
8 - Se Isto É um Homem (Janeiro de 2013)
9- Barranco de Cegos (Junho de 2014)
10- O Amor nos Tempos de Cólera (1985) (Março de 2014)
11- A Guerra não tem Rosto de Mulher (Setembro de 2017)
12- Gente Feliz com Lágrimas, João de Melo (Setembro de 2015)






9 de março de 2014

POESIA E PROSA (II)


TEXTO ESQUISITO E ESCASSO (NÃO DÁ PARA ADORMECER) ONDE SE FALA DO LEITO DE PROCUSTO, DE OUTROS MITOS E DE IDEIAS DE GRANDES MESTRES MALBARATADAS PELO ESCREVENTE.
 
Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
            Do que escrever em prosa.
 
CESÁRIO VERDE, “Contrariedades”
 
Respeite-se o sentimento do grande Cesário, cada um nasce para a sua arte. “Contrariedades” é um belo poema: dezassete quadras de rima interpolada (ABBA) estruturadas segundo três versos de doze silabas (alexandrinos) com remate de um verso hexassilábico. Foi bom ouvi-lo na sessão da passada sexta-feira do Clube de Leitura.
A opção entre verso rimado e verso branco, como entre verso medido e verso livre, é hoje uma questão resolvida: a rima e a métrica são auxiliares rítmicos do poema, mas são igualmente uma limitação do poeta. Mário de Andrade, vulto grande do Modernismo brasileiro, escreverá em 1922 no “Prefácio interessantíssimo” de Pauliceia Desvairada: “Não acho mais graça nenhuma nisso da gente submeter comoções a um leito de Procusto para que obtenham, em ritmo convencional, número convencional de sílabas (…) Minhas reivindicações? Liberdade. Uso dela.”
Sem rima nem métrica, o que distingue a poesia da prosa? Disse Shelley que  “a distinção entre poetas e prosadores é um erro vulgar”, acrescentando: “Um poema é a própria imagem da vida, expressa na sua verdade eterna. Uma diferença existe entre uma história e um poema, que é esta: uma história é um catálogo de factos desligados, que não possuem nenhuma outra conexão que não seja o tempo, lugar, circunstâncias, causa e efeito; o poema é a criação das acções de acordo com as formas imutáveis da natureza humana, como existem no espírito do Criador, que é ele próprio a imagem de todos os outros espíritos.” E Edgar Allan Poe não anda longe desta ideia. Segundo ele, a diferença entre poema e romance é que aquele tem por seu objecto um prazer indefinido, enquanto o romance se realiza no domínio do prazer definido. Ou seja: “O romance apresenta imagens perceptíveis com sensações definidas, e a poesia com sensações indefinidas, para cujo fim a música é uma parte essencial, dado que a nossa concepção mais indefinida é a compreensão de um som doce.”
No prefácio-dedicatória de O Spleen de Paris, diz Baudelaire: “Qual de nós não sonhou, nos seus dias de ambição, com o milagre de uma prosa poética, musical sem ritmo e sem rima, suficientemente maleável e suficientemente contrastante para se adaptar aos movimentos líricos da alma, às ondulações do devaneio, aos sobressaltos da consciência?”
Não é então da condição perene da poesia nem a rima nem a métrica. O poema pode estar disposto em prosa, a prosa pode ser poesia. Assim o entendeu Wordsworth, para quem a arte verbal abriga, sob uma mesma concepção estética, tanto a poesia metrificada como a prosa artística, sendo que “algumas das partes mais interessantes dos melhores poemas pertencem rigorosamente à linguagem da prosa, quando a prosa é bem escrita.
Confuso? Não será por falta de clareza dos mestres citados; só se for pelo pouco jeito do escrevente que ainda mal entende destas coisas e já se apressa em as “explicar” aos outros. Desculpem-no lá, coitado.   
 
Citações tiradas de:
= BAUDELAIRE, Charles – O Spleen de Paris, tradução de Jorge Fazenda
Lourenço, Relógio de Água Editores, 2007.
= DOLOZEL, Lubomir – A Poética Ocidental, tradução de Vivina de Campos Figueiredo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1990.
= POE, Edgar Allan – Poética (textos teóricos), tradução de Helena Barbas, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.
= RIBEIRO, Maria Aparecida – Literatura Brasileira, Lisboa, Universidade Aberta, 1994.
= SHELLEY, Percy – Defesa da Poesia, tradução de J. Monteiro-Grillo, Lisboa, Editores Reunidos, 1996.
= VERDE, Cesário – O Livro de Cesário Verde, Lisboa, Editora Ulisseia, s/d.
 
E em jeito de nota final: safa!, este texto quase tem mais linhas de citações do que de escrita original. Uma verdadeira arte de recorte e colagem!
 
 

25 de fevereiro de 2012

Cesário, 157

Cesário Verde nasceu em Lisboa, a 25 de Fevereiro de 1855.

26 de julho de 2011

resenha de 2009 (9)

O Livro de Cesário Verde (Outubro). O livro do nosso poeta mais moderno.