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6 de novembro de 2019

EPHEMERIDES

6 DE NOVEMBRO DE 1919 (100 ANOS!)
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN



(infelizmente,
 não consegui inserir
 uma imagem da 
POETISA)



"Pelas tuas mãos medi o mundo

E na balança pura dos teus ombros

Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua"

31 de dezembro de 2018

Sobre o GERMINAL, de Émile Zola

No Declínio da Mentira, ensaio de O. Wilde contra a arte mimésis do real, explicitando sobremaneira o naturalismo, Zola citado, defende-se a perspectiva de ser o mundo real a inspirar-se nas obras, assumindo o que a arte sugere, cria, sonha, com as correlativas reconfigurações escalares do humano, assim se invertendo a habitual polarização. Adoro Wilde, como Zola, este não se revelando indigente do imaginário, nem pecando por imitatio, ou nem haveria arte na sua obra. Injecta-o na dimensão crucial do Germinal, a da sementeira de novas sociedades a serem relegadas para desejado próximo porvir, o mês Floral - ou outro mais ou menos distante. Vencidos ou não, os mineiros e demais explorados prolongam lutas pelos seus direitos. Expandiram a própria consciência no sofrimento da luta. E não se trata de combate deles, é nosso, da humanidade. Tocam-se ideais  que nos movem e, passo a passo, transformam formas de vida. Hipóteses se formulam, dependentes de condições. Combata-se por estas e avançar-se-á nos direitos do mundo do trabalho -- veja-se a profusão de predicadores no condicional, formas verbais interdependentes das mencionadas condições  proliferantes pela obra. Sem minério como existir ainda hoje? Próteses, TM, medicamentos, pirites, ouro, electricidade, aquecimento, siderurgia, etc, alguns anotados desde que a escrita aparece e lhes referencia custos e comércio. Equacionar um dos trabalhos mais violentos e difíceis no sonho! Eis o meu fio condutor na nossa pluralidade de leituras, outras tantas camadas interpretativas. Estilo não fotográfico, olha-se num certo enquadramento social e ideológico, segundo metas claras. Crítico e lúcido, Zola procede como «um olho da história; torna-se visível algo suspenso por um ciclone de justas lutas comunitárias, frase de um certo Didi Huberman (estropiei o nome?). Todavia é arte literária, romance, ficção sobre excelente observação, aflorando-se súmula de correntes anárquicas e marxistas, abundantes em cisões -- não se requer maior exactidão, como se não critica a ausência descritiva das vítimas de desabamentos ou explosões, cadáveres explodidos. Basta de belo horrível.  Ainda que Étienne venha de fora, provoca a greve com alguma preparação. Não é longa a organização, algo de frágil revelado nele mesmo que, no fim, retorna a Paris, convidado para a área política - então como hoje... 
A substância do romance naturalista em pauta é a de se convocarem outras formas de relações laborais, ainda que elididas de efectivação. Publicada em 1885, após: Manifesto Comunista, 1848, auge da revolução industrial, e já de Liga formada em 1847; Associação Internacional dos Trabalhadores, 1864; a Comuna de paris,  1871. Germinal edita-se um ano depois de A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, 1884, em Zurik, parcial retoma de anteriores notas de Marx,  em alemão, língua que ignoro ser do conhecimento de Zola. Há  evidentes afinidades temáticas na descrição dos horrores laborais na extracção da hulha, possíveis pelo contexto de então, circulação de ideias e ideólogos por Londres, Paris, etc. Se calhar é de facto Zola, que viveu mais tarde em Londres, quem primeiro retrata a vida dos mineiros carboníferos, em simultaneidade com Engels, sem interconhecimento de obras ao tempo da respectiva escrita. Todavia cruzaram-se as teorias, aliás e também com as teses anarquistas de então,  considerada ampla variedade de linhas... No livro surge um anarquismo insurreccional, contra «limitações» das lutas reivindicativas, virados para a acção, bombas e sabotagens do poder capitalista, na mira de os fins justificarem os meios - tipo Ravachol (troco palatais francesas...?), Netchaev e outros, como os que posteriormente alinham na tchernoe znamia. Bakunin citado não foi tipicamente da frente «terrorista» deste anarquismo revolucionário, definia-se mais pela federação de comunidades, algum anarco-sindicalismo - tinha pertencido à II Internacional, 1864. Kroprotkin, anterior, era mais mutualista. Ambos deixam rasto na greve e subsequentes acções, todavia Suvarin sabotador, alguém que vem do exterior, age de modo a suscitar crítica do leitor, julgo eu.
Gosto muito da 1ª parte, cap 1, cap 3, la mine; 3ª parte , cap 3 chez Maheu; 4ª parte, cap 4, le charbon, maior energia de então e que enriqueceu desmedidamente a burguesia afectada a tal produção, aniquilando os mineiros; 5ª parte, cap 5, a massa do proletariado em raiva descontrolada. Tremendos subterrâneos da vida laboral! Até ao presente sem eficaz solução, vejam-se: Quénia (os Masai, orgulho da causa libertadora africana, exploram em regime selvagem os mais pobres deles e outros), R P do Congo ( idem, à margem de toda a legislação laboral); pouco após graves acidentes há encerramento de minas em Moçambique, no Chile (lembram-se dos homens encerrados entre galerias, um longo processo de salvamento,  houve fecho da extracção uns 2 anos depois...; China, Rússia, Rhur...etc. O hino dos mineiros romenos começa com o verso «Nós que nunca vemos a luz do sol....» e recorde-se o hino dos mineiros de Aljustrel. No regime soviético os mineiros de primeira linha, de broca perfuradora da parede carbonífera, auferiam tanto quanto um reitor de universidade ou um astronauta. Tinham acesso a melhor habitação, a viatura, a mais meses de férias e em bons locais. Todavia, pelos 40 anos preferiam licenciar-se no Instituto de Carvão, passar  a engenheiros com um quinto do salário... Duríssimas condições de trabalho. Se não tivessem os referidos direitos laborais, jamais a URSS teria alcançado o poder económico a que chegou, pese a corrupção (mais de 50 % do carvão mundial).E como teriam construído os tanques cruciais para a vitória sobre os nazis?!
 A ciência ainda não atingiu o ponto de solucionar graves consequências como a antracose, os desabamentos (com rigoroso escombramento pode haver leves movimentos da placa tectónica ou afins, caindo  a «tampa de caixão» da gíria mineira); e prever bolsas de gás atrás da zona em exploração nem sempre é possível - vibrações da broca quente basta para uma explosão. Processos há que diminuem consequências, mas não há total prevenção. Nem sempre a extracção a céu aberto é viável, e a silicose dessas «pedreiras», em cima da antracose, além de ...(reflectir sobre o mármore em Borba...)
Zola, algo determinista, não totalmente fatalista, descreve efeitos da atroz miséria sobre os trabalhadores e familiares, responsabilizando o sistema capitalista, seus governos, a burguesia, o clero, polícia e exércitos (era a III República de Thiers, promotor do massacre da Comuna). E cito (li original francês, outra paginação) « Abrir os horizontes daquelas pessoas....elevá-las ao bem estar e às boas maneiras da burguesia...torná-las patrões» (também a Sophia M Breyner afirmava que todos deveriam ser aristocratas, parece-me que em sentido etimológico). Ora penso que não é de «tornar patrões», como nível, é de pôr fim a tal mentalidade e estilo de vida. Estava-se a dar primeiros passos com certas confusões, penso. Assim, «do fundo da terra germinará uma semente....um exército de homens que viria restabelecer a justiça» (criá-la, não existiu antes, creio... O desfecho «....os homens brotavam, era um exército coberto de carvão, vingador, que germinará lentamente da terra para crescer nas colheitas do século seguinte....»  . Palavra do ser humano...
Se reflectirmos, DESDE QUE A MINERAÇÃO SE FAZ, HÁ MILÉNIOS, é maior o número de mortos em acidentes ou devido a doenças profissionais  que a população mundial do agora. Nessa tragédia nasceu imensa parte da nossa evolução. A ciência derivou mais para armamento e guerras. Adoro a caracterização das minas, onde Zola até trabalhou, como: em evocação da Antiguidade Greco-romana, qual Ogre, Minotauro exigindo filhos da terra, Eríneas vingadoras, Fúrias, Tártaro; numa menção a outra Antiguidade mediterrânica, qual Molok (entre os amorreus divindade, com cabeça de touro ou leão, que exige sacrifício de crianças a serem lançadas ao fogo); numa referência à tradição judaico-cristã qual Sodoma (destacando-se Étienne com um Cristo branco, iluminado ao luar...), trompetas do Apocalipse, «dieu accroupi au fond de son tabernacle», inacessível... Os subterrâneos da mineração, as profundezas da terra, o inferno de sucessivas mitologias, onde diversas religiões  se  destacam. O Advento de uma justiça dos explorados é contraposto à actuação do clero junto da burguesia exploradora, grosso modo... Palavra operária seguindo-se a séculos, a milénios, de sacrifício como animais em redil de gado, escravos ( literatura latina informa que estes valem menos que um cavalo por não poderem ser montados...), que o protagonista pretende libertar no modelo da luta de classes Só isso alterará o que aparenta ser hereditariamente sem fim e os confina, mineiros e familiares, à desumanidade. Cessam as patologias noutras condições de vida. O romance lembra-me filmes de Murnau e Zimmermann, Metrópolis e o Sal da Terra, como tanta obra artística sobre a escravatura e formas mais agudas de exploração humana, por vezes sobre a mineração. Zola descreve as condições das mulheres e das crianças, como aquelas gritam de cabelos ao vento, quais figuras de Delacroix, como elas emasculam o predador da mercearia, Maigrat. O todo num fabuloso estilo descritivo-dramático, de imagens estáticas ou dinâmicas, objectivas e de tal força! Léxico de quem observou bem a povoação mineira.
Um naturalismo formatado por ideal e justiça que passa por regeneração, pelo fogo se transforma, metáfora poderosa, como a figura do cavalo, apresentado como os humanos e estes como os cavalos.
Maria José Carvalho

27 de junho de 2014

um parágrafo de Sophia de Mello Breyner Andresen


«É uma cidade antiga onde estagnada se desagrega e se dissolve lentamente uma vida desvivida gesto por gesto, sílaba por sílaba.»

«Vila d'Arcos», Histórias da Terra e do Mar, Lisboa, Edições Salamandra, 1984, pp. 115-117.
(lido na sessão de 25.VI.2014)

23 de dezembro de 2012

o inesquecível Búzio

«O Búzio chegava de dia, rodeado de luz e de vento e, dois passos à sua frente, vinha o seu cão, que era velho, esbranquiçado e sujo, com o pêlo grosso, encaracolado e comprido e o focinho preto.» 

Sophia de Mello Breyner Andresen, «Homero», Contos Exemplares, 3.ª edição, Porto, Portugália Editora, 1970, p. 143.

(imagem)

2 de novembro de 2012

PORQUE, Sophia de Mello Breyner Andresen

Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se comprem e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, edição de Ana Hatherly, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1961, p. 96.

(lido na sessão de 12 de Outubro de 2012)

26 de outubro de 2012

LIBERDADE, Sophia de Mello Beyner Andresen

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 41.

(lido na sessão de  de 12 de Outubro de 2012)

25 de outubro de 2012

OS NAVEGADORES, Sophia de Mello Breyner Andresen

Eles habitam entre um mastro e o vento.

Têm as mãos brancas de sal
E os ombros vermelhos de sol.

Os espantados peixes se aproximam
Com olhos de gelatina.

O mar manda florir seus roseirais de espuma.

No oceano infinito
Estão detidos num barco
E o barco tem um destino
Que os astros altos indicam.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, p. 33.

(lido na sessão de  de 12 de Outubro de 2012)

12 de setembro de 2012

LUSITÂNIA, Sophia de Mello Breyner Andresen

Os que avançam de frente para o mar
E nele enterram como uma aguda faca
A proa negra dos seus barcos
Vivem de pouco pão e de luar.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, s.d.

(lido na sessão de 7 de Setembro de 2012)

11 de julho de 2012

AS ROSAS, Sophia de Mello Breyner Andresen

Quando à noite desfolho e trinco as rosas
É como se prendesse entre os meus dentes
Todo o luar das noites transparentes,
Todo o fulgor das tardes luminosas,
O vento bailador das Primaveras,
A doçura amarga dos poentes,
E a exaltação de todas as esperas.

Um Ramo de Rosas -- Colhidas por José da Cruz Santos na Poesia Portuguesa e Estrangeira, Porto, Modo de Ler, 2010, p. 52

(lido na sessão de 6 de Julho de 2012)

22 de fevereiro de 2012

ao encontro de Deus

--Ah! -- disse ela --, mesmo perdida, vejo como tudo é perfumado e maravilhoso. Mesmo sem saber se jamais chegarei, apetece-me rir e cantar em honra da beleza das coisas. Mesmo neste caminho que eu não sei onde leva, as árvores são verdes e frescas como se as alimentasse uma certeza profunda. Mesmo aqui a luz pois leve nos nossos rostos como se nos reconhecesse. Estou cheia de medo e estou alegre.

«A Viagem», Contos Exemplares, 3.ª edição, Portugália Editora, Lisboa, 1970, p. 102.

24 de novembro de 2011

despojamento

Era uma pequena casa de camponeses. Uma casa nua, onde só estavam escritos os gestos da vida. Havia uma cozinha e dois quartos. Num rebordo da parede de cal estava colocada uma imagem; em frente da imagem ardia uma lamparina de azeite; ao lado, alguém poisara um ramo de flores bentas na Páscoa.

Sophia de Mello Breyner Andresen, «A viagem», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s.d., pp. 90-91.

6 de novembro de 2011

Sophia, 92

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu há 92 anos, no Porto.
(desenho de Árpád Szenes)

18 de setembro de 2011

olhar de frente

«O Bispo olhou-o. Era um homem igual a muitos outros. Lembrava a gente de Varzim. Tinha lama nos trapos e a escrita da fome na cara. Nas mãos havia um gesto de paciência. Um gesto muito antigo de paciência. E de repente pareceu ao velho Bispo que todo o abandono do mundo, todo o sofrimento, toda a solidão, o olhavam de frente no rosto daquele homem. Coisa difícil de olhar de frente.»

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O jantar do Bispo», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s. d., p. 67.

A exemplaridade destes contos de Sophia, publicados em 1962 e prefaciados por D. António Ferreira Gomes, o bispo do Porto então no exílio.
Exemplaridade porque escritos sob a pureza de uma mensagem cristã, ao arrepio da Igreja oficial, comandada pelo cardeal Cerejeira, conivente com um país onde imperava a pobreza e o medo; Igreja que, cúmplice de um estado policial, se atraiçoava a si própria. Por isso, aqueles que não suportaram a mentira e olharam de frente, tiveram os destinos que são conhecidos. 

21 de julho de 2011

uma epígrafe de Cervantes

Heles dado el nombre de ejemplares, y si bien lo miras no hay ninguna de quien no se pueda sacar un ejemplo.

(aposta por Sophia de Mello Breyner Andresen aos Contos Exemplares)