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16 de julho de 2025

101 poemas portugueses - #68

 

VÓS QUE OCUPAIS A NOSSA TERRA


É preciso não perder

de vista as crianças que brincam:

a cobra preta passeia fardada

à porta das nossas casas.

Derrubam as árvores fruta-pão

para que passemos fome

e vigiam as estradas

receando a fuga do cacau.

A tragédia já a conhecemos:

a cubata incendiada,

o telhado de andala flamejando

e o cheiro do fumo misturando-se

ao cheiro do andu

e ao cheiro da morte.

Nós nos conhecemos e sabemos,

tomamos chá do gabão,

arrancamos a casca do cajueiro.

E vós, apenas desbotadas

máscaras do homem,

apenas esvaziados fantasmas do homem?

Vós que ocupais a nossa terra?


Maria Manuela Margarido (Roça Olímpia, Ilha do Príncipe, 1925 - Lisboa, 2007)

Poetas de S. Tomé e Príncipe (1963) /in Manuel Ferreira,  No Reino de Caliban II (1976)



28 de maio de 2025

101 poemas portugueses - #64

 

PRIMAVERA DE BALAS


Agarro

Na minha última humilhação

E sem ir embora da minha terra

Emigro para o Norte de Moçambique

Com uma primavera de balas ao ombro.

 

E lá

No Norte almoço raízes

Bebo restos de chuva onde bebem os bichos

No descanso em vez da minha primavera de balas

Pego no cabo da minha primavera de milhos

E faço machamba ou se for preciso

Rastejar sobre os cotovelos

E os joelhos

Rastejo.

 

Depois

 

Escondido em posição no meio do mato

Com a minha primavera de balas apontada

Faço desabrochar no dólman do sr. Capitão

As mais vermelhas flores florindo

O duro preço da nossa bela

Liberdade reconquistada

Aos tiros!

 

José Craveirinha (Lourenço Marques / Maputo, 1922 - Joanesburgo, 2003)

in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban III

29 de novembro de 2024

101 poemas portugueses - #55

 

SONETO


Eu tenho a pagar 10 e na carteira
Apenas tenho 8. Eis a arrelia.
Eis-me buscando em mente uma maneira
De pagar o que devo em demasia.

E fico às vezes nisto todo o dia,
Um dia inteirinho em estúpida canseira.
Se busco distrair-me, de vigia,
Olha-me a rir a dívida grosseira.

E entretanto na rua vão passando
Carros de luxo, altivos salpicando
O lodaçal dos trilhos sobre mim...

E sinto, na revolta, o algarismo,
Do trono do brutal capitalismo,
A rir de nós, os bobos do festim!


Rui de Noronha (Lourenço Marques [Maputo], 1906-1943),

in Manuel Ferreira, No Reino de Caliban III (1996)