27 de agosto de 2019

Na pista de Virgílio Ferreira,

em Melo, uma informação, em resposta a um pedido de esclarecimento sobre o Roteiro Literário do Escritor, levou-me à oficina do senhor Luís Filipe e, desta, ao Museu de Melo.
Surpresa! O percurso, programado para uma hora de duração, começou com um prólogo de mais de uma hora, escutando as informações do curador, autodidata exemplar e bem informado, que nos enriqueceu sobre Melo, a sua história e os seus filhos mais ilustres. E sobre curiosidades que só em informação boca-a-boca são possíveis.
Se perderam isto na deslocação literária anterior, a Melo, não percam na próxima.
Para abrir o apetite, deixo a fotografia da casa onde Virgílio Ferreira nasceu... (não a que, ainda briosa, se ergue ali ao fundo do terreiro, e que os pais do escritor adquiriram).
E, já agora, a fachada do Paço, em ruínas, reconstruído pelas mãos habilidosas do artista Luís Filipe.

E, para finalizar, podem, entretanto, espreitar http://museudemelo.webnode.pt

2 de agosto de 2019

os ['brandos costumes'] entre parênteses

«Durante as devastações que o país sofrera nas sucessivas guerras civis dos últimos períodos de nossa história, a casa de Entre-Arroios não fora mais do que as outras respeitada, e os estragos que, no resto da habitação, tinham já sido cuidadosamente reparados, conservavam-se ainda visíveis no pequeno templo, onde havia muito se não exercia por isso o ofício divino.» Júlio Dinis, Serões da Província [1870], Domingos Barreira Editor, Porto, 1945, p. 131.

1 de agosto de 2019

IP 2

Oito óbitos por quilómetro
é muito insecto esborrachado no
no pára-brisas.


São muitas vidas.
É muita abelha, muita borboleta,
muito mosquito.


Mas tu não és menos chegado ao finito
e o mais certo é que andes distraído
de que há um vidro


entre ti e o horizonte.


Rui Lage, Estrada Nacional, Lisboa, IN-CM, 2016, p. 32.

29 de julho de 2019

REGRESSO A QUIONGA


"O tempo levaria, sem aviso, uma dor aflita ou sinal de alerta, o meu avô José, atraiçoado pelo fraquejar inesperado do coração. O falecimento do meu avô, amigo, companheiro predilecto de toda a vida, ocorrido numa tarde acalorada dos meados de Julho, quando provava uns bagos de uvas de português azul, a primeira casta a amadurecer na sua dúzia de pedaços de vinha, desencadearia o segundo grande terramoto nas minhas emoções. Por esse tempo cultivava a incapacidade de entender a perda definitiva, o finamento dos entes queridos mais próximos, o cerco de amor que ofereciam não poderia, num passe de magia estranha, desaparecer na curva de uma estrada sem retorno. Abanava, com fúria, o pensamento, numa tentativa de saltar do pesadelo, e, depois de todos estes anos, em muitas noites, ainda corria para o doce regaço de minha mãe, a partir da tarde desse Julho quente, passei a somar à imaginação o sorriso benevolente de meu avô abrindo os braços"

  
Romance histórico da inequívoca lavra de um historiador (o que o A. é, segundo penso saber). 
Realço a grande coerência estrutural e formal, o ritmo vertiginoso da narrativa, a grande riqueza de informação histórica acerca do período compreendido entre os anos trinta do século XIX e os inícios da presente centúria, o enorme acervo de pormenores ficcionais, tão realísticos que até parecem verídicos e perfeitamente encadeados, os frequentes laivos de lirismo.
Li com muito agrado.

De menos bom, aponto dois ou três capítulos, perto do final, em que o narrador passa a personagem principal, em que a escrita se torna, às vezes, enfadonha e quase inconsequente. Penso também que o leitor esperava um final mais empolgante (até pelo título do romance...)

Notei, finalmente, sinais de algum desleixo na construção das frases - talvez pressão para terminar -, com vírgulas no lugar de pontos ou pontos e vírgulas (um claro exemplo está na última frase do excerto transcrito), frequentes erros de ortografia (às vezes sintaxe), inúmeras gralhas e má pontuação. Parece ter faltado uma cuidada revisão final... Pena...   

FF

2 de julho de 2019

Um pedacinho de A MANCHA HUMANA


(Um magistral e implacável libelo contra o preconceito e a boataria... Mas, atenção, ainda só cheguei à página 250...)






"Depois aparece Bronfmann. Bronfmann, o brontossáurio. O sr. Fortissimo! Entra Bronfmann para tocar Prokofiev a tal ritmo e com tal arrebatamento que põe a minha morbidez completamente fora de combate. Tem a parte superior do tronco extraordinariamente maciça, uma força da natureza camuflada por uma camisola de treino, dir-se-ia alguém que entrou no Alpendre da Música vindo de um circo onde é o colosso e que considera o piano um desafio ridículo à força gargantuesca com que se delicia. Yefim Bronfmann parece menos a pessoa que vai tocar piano do que o indivíduo que devia transportá-lo. Eu nunca tinha visto ninguém atirar-se a um piano como este judeu russo robusto, baixo e de barba crescida. Quando ele acabar, pensei, têm de deitar aquilo fora. Ele esmaga-o. Não deixa aquele piano esconder nada. Seja o que for que exista lá dentro, vai sair, e sair de mãos no ar. E quando isso acontece, quando está tudo cá fora até à derradeira pulsação, ele levanta-se e sai, deixando atrás de si a nossa redenção."


25 de junho de 2019

VERGÍLIO FERREIRA, DE MELO


Para os que não puderam deslocar-se a Gouveia e Melo no passado sábado, aqui deixo uma pequena nota acerca do evento:

Participaram na jornada de intercâmbio sete magníficos (não temos culpa de termos sido sete)  membros ou confrades do Clube de Leitura Ferreira de Castro, de Sintra, e cerca de dez da Comunidade de Leitores de Gouveia.

Os pontos principais do programa foram:
1- Visita à aldeia de MELO, terra de naturalidade de Vergílio Ferreira, com um pequeno percurso/visita por/a alguns dos principais sítios ligados ao escritor, ou por ele evocados nas suas obras. Realço: a casa que os pais construíram depois de regressarem dos EUA, pelos vistos com um bom pé-de-meia porque a casa tem todo o ar de um bonito chalé, e que a CM de Gouveia adquiriu e pretende converter numa Casa-Museu ou de Cultura vergiliana; o Chão do Paço, ampla praça central da aldeia, toda ela convertida num espaço de evocação de VF, onde avultam uma estátua dele e um conjunto escultórico evocativo e várias inscrições com excertos de escritos e dados biográficos do escritor; a capela da Misericórdia, monumento creio que medieval, na sua origem, que só por si justifica uma visita a Melo; a igreja matriz e respectivo presbitério. A aldeia está pejada de placas, de belo gosto estético, com excertos vergilianos alusivos aos diferentes sítios e edifícios.
2 - Almoço opíparo no restaurante Fonte dos Namorados (não pudemos vislumbrar nenhum casalinho, talvez porque lhes reservem recantos adequados...)
3 - Discussão do romance APARIÇÃO, na já referida Capela da Misericórdia. Participada e rica, a discussão. Pena que não tivesse haviso mais tempo...
4 - Visita à Biblioteca Municipal de Gouveia, onde se "sente" também com intensidade a "presença" tutelar do mais distinto filho da terra.

Gerou-se uma clara cumplicidade literária entre as duas comunidades de leitura e, penso poder adiantá-lo, ficou agendada para o dia 19 de Outubro pf a reedição do encontro em Sintra.





F.F.
   
  

3 de junho de 2019

AGUSTINA BESSA-LUÍS




A minha homenagem a uma grande Escritora e Cidadã que hoje deu o passo definitivo para a imortalidade.


"No Natal, o padrinho, que veio consoar com a madrinha, disse:
- Ema não tem namorado? - E deitou-lhe um olhar que a enxovalhava, que lhe rompia as entranhas como uma arma branca.
Ema pensou, pela primeira vez, que o casamento estava a preparar-se como uma nova condenação, como uma injustiça mais elaborada. Carmezim deu-lhe a notícia de que precisava de tomar as águas. Tinha o fígado avariado, era o termo que usava, como se se referisse a uma máquina, um motor que, de tempos a tempos, precisasse de reparação. Mas o que pretendia, no absoluto da sua vontade, odiosa apesar de afectar complacência e grandeza de alma (outro dos seus termos favoritos), era despertar na afilhada a perturbação sexual que iria resolver-se no casamento. A juventude, minada assim na sua substância equivalente à eternidade, teria que receber o golpe que não cicatriza mais; seria corrompida pelo desejo revelado; e a aventura humana começaria para Ema com todos os seus males do século, a ansiedade e o tema da senilidade. Convidou-a para os acompanhar às termas."

(Vale Abraão, Os Grandes Escritores Portugueses Planeta deAgostini, pag. 27-28)  

2 de junho de 2019

sem trabalho e sem abrigo

«Uma única ideia ocupava o seu cérebro vazio de operário sem trabalho e sem abrigo, -- a esperança de que o frio seria menos vivo depois do romper do dia.»  Émile Zola, Germenial [1885], tradução de Bel Adam, Lisboa, Biblioteca d'Educação Nova-Editora, 1903, p. 1. 

21 de maio de 2019

uma vinheta de Art Spiegelman


Art Spiegelman, Maus - A História de um Sobrevivente (1980)
trad., Fernando Amorim, Lisboa, Difel, 1988, p.  23

7 de maio de 2019

caminho marítimo para o exílio

«Ai do cabo-verdiano se não tem aprendido a defender-se por si. Já não existíamos. Quem evitou a emigração para a América, Brasil, Dakar, Argentina, Guiné? Foi o Governo Português? Foi o próprio cabo-verdiano, que descobriu o caminho marítimo para todas essas paragens.»  Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda [1978], Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., p. 261.

2 de maio de 2019

O ÊXITO FÁCIL

A história de um escritor de grande sucesso que à hora da morte se apercebe da fragilidade da sua obra. Uma obra escrita sem nada de si, em obediência aos gostos do público leitor. Assim vendia muito, vendendo-se... Esta é a 2ª edição, de 1932, de O Êxito Fácil. E com uma bela capa de Roberto Nobre.
Numa entrevista do jornal O Diabo, de 10-2-1940, Ferreira de Castro diz o seguinte: «O desejo de produzir muitos livros de qualquer maneira, para vender muito e ganhar muito dinheiro, nunca me embriagou (…) Não me esqueço de que sou autor de uma novela que se intitula O Êxito Fácil – uma novela contra os fáceis êxitos.»

24 de abril de 2019

"- Diz a Sua Majestade que quero vê-la nua.

- Vossa Majestade está louco.
A cara que fez a dama ultrapassou os limites do estupor, mas restaram-lhe forças para desabafar com a sua amiga mais próxima, e esta com a sua vizinha, e, assim, a notícia deu imediatamente a volta ao salão e chegou até ao padre Villaescusa, com a sua carga de horror e de clarividência; o capuchinho compreendeu que, entre tanta gente, só ele tinha a razão do Senhor repartida entre o coração e a cabeça, e só ele sabia como havia que agir. Não se despiu: com paramentos e casula, permaneceu no altar e, ao descer dele, fez-se preceder pela cruz e pelos ciriais; deambulou assim por corredores e galerias, de modo que, quando o Rei se aproximou dos aposentos da Rainha, com intenção de entrar, topou com ele pela frente. E quando o Rei estendeu a mão para o puxador, a cruz atravessou-se-lhe diante da porta, em ângulo inclinado sobre o eixo vertical, e nos olhos inflamados do padre Villaescusa pôde ler um veto indiscutível. A sua mão largou o puxador, persignou-se e rodou sobre si próprio. O Valido estava ali, e o Rei confiou-lhe: 
- Quero ver a Rainha nua.
E afastou-se com o mesmo rosto pasmado, embora nas suas pupilas já brilhasse a esperança."

(Crónica do Rei Pasmado, Gonzalo Torrente Ballester, Colecção Essencial, Livros RTP, pg. 42)

23 de abril de 2019

«E, deixem-me dizer-lhes,

se entrassem na nossa sala dos criados em qualquer dessas noites, não teriam ouvido mera tagarelice; o mais provável seria assistirem a debates sobre as grandes questões que preocupavam os nossos patrões, no andar de cima, ou então sobre assuntos importantes relatados pelos jornais.» Kazuo Ishiguro, os Despojos do Dia [1989], trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, Gradiva, 1991, p. 20. 

5 de abril de 2019

«O verdadeiro prazer de ler um romance

começa quando conseguimos ver o mundo, não de fora, mas sim através dos olhos dos protagonistas que habitam esse mundo.» Orhan Pamuk, O Romancista ingénuo e o Sentimental [2010], trad. Álvaro Manuel Machado, Lisboa, Editorial Presença, 2012, p. 16.

4 de abril de 2019

a 'pneumónica' em Vila Velha

«Um vago perfume de eucalipto queimado pairava nas ruas. Era o único sinal de combate que a Vila travava contra a morte. Vultos de preto cruzavam-se de longe, separados por uma barreira de medo. Em algumas casas uma luz mortiça escapava-se através das janelas, luz de velório ou visita de médico.» Álvaro Guerra, Café República (1982), 3.ª ed., Lisboa, o Jornal, 1984, p. 37.

23 de março de 2019


MÚSICA NO CORAÇÃO


"A 15 de Março, diante do palácio imperial, a toda a largura da praça, até à grande estátua equestre de Carlos de Áustria, a multidão, a pobre multidão austríaca, enganada, maltratada, mas em última análise aquiescente, está ali para aclamar. Quando se soerguem os horríveis andrajos da História, é isso que se encontra: a hierarquia contra a igualdade e a ordem contra a liberdade. De modo que, induzida em erro por uma ideia de nação mesquinha e perigosa, sem futuro, esta imensa multidão, frustrada por uma derrota precedente, estende o braço para o ar." 

14 de março de 2019

fintar a vida

«Viajei, comi bem, fiz amor, trabalhei afincadamente no meu arquivo de anedotas que os meus amigos escolhiam por tema e eu desenrolava a eito depois do café, sem jeito nenhum, mais morto de riso do que eles. Fui fazendo tudo isso porque não sou de me deixar estar, a permitir que o mundo me esfregue sal na grande ferida que sou. Mas também nunca me deixei enganar por estes falsos expedientes.»  Victória F., «Requerimento», Elogio da Infertilidade, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 2018, p. 6.

6 de março de 2019

a chegada da família real ao Porto

«Afinal chegava o cortejo. Os foguetes estouravam com um estampido digno do município; os vivas elevavam-se em um crescente ameaçador; uma nuvem de crianças precedia os batedores; tudo falava na sua passagem, tudo arrastava consigo; o povo pendurava-se às portinholas do carro em que vinha a família real, devorava com o olhar a rainha, o rei e os príncipes, e ficava como que espantado de os ver rir e conversar como simples mortais.» Júlio Dinis, Serões da Província [1870], Domingos Barreira Editor, Porto, 1945.

2 de março de 2019


4º CENTENÁRIO DA MORTE DE FREI AGOSTINHO DA CRUZ





A pedido do coordenador das celebrações comemorativas do 4º Centenário da Morte do Poeta Frei Agostinho da Cruz, que se cumpre no próximo dia 14 do corrente, aqui fica o convite.

Todos serão bem-vindos. Esta parte do programa decorrerá em Setúbal.

Posso desde já adiantar que no âmbito das celebrações se realizará um colóquio em Sintra, no dia 8 de Junho próximo futuro, com intervenção de especialistas na obra do poeta e de mim próprio.                                                                                                                                                Oportunamente publicarei o convite. 


F. Faria

27 de fevereiro de 2019

ELOGIO DA INFERTILIDADE



"Simplício viu o do bigodinho aprisioná-los juntos, sem ciúme aparente, por detrás da barra de segurança, viu as estrelas principiarem a mover-se num arco perfeito e transformarem-se em missangas, viu os pés a mulher, também eles perfeitos, nas sandálias rasas. Um instante soberbo.
Custava-lhe muito subir os olhos por ela acima porque o vinho evaporava rapidamente e com ele a coragem, mas de alguma forma conseguiu fazê-lo e viu-a devolver-lhe o olhar com uma imperturbabilidade demovedora. Mirava-lhe sobretudo as costas curvas, que ele se apressou a endireitar. Depois, muito inesperadamente, ela tocou-o, sacudindo-lhe os ombros. Apesar da vergonha da caspa, ele gostou que ela o tivesse tocado. - És um homem muito estranho - disse-lhe ela, continuando as escovar-lhe para fora das costas, com a mão, qualquer hipótese de desgraça. - O destino brinca às escondidas contigo. - E Simplício, em vez de lhe responder, encomendou a alma ao criador e beijou-a. O beijo durou o resto do tempo da viagem na roda gigante, mas assim que parou Irondina afastou-se a passo largo." 

(Do conto 'Irondina', pag. 46-47)

Gostei muito do livro. Revela-nos uma escritora madura, dona de uma escrita inteligente, fluida e ritmada, hábil no uso da linguagem e na caracterização das personagens, e possuidora da arte do pormenor, que é, para mim, uma das pedras de toque da boa Literatura.

22 de fevereiro de 2019

A Batalha

Não podia faltar a referência à colaboração de Ferreira de Castro e não faltou.
A Batalha dos 100 anos

CM 1339 - Serranilha das bombas de Candedo

A estrada é serrana, erma, ventosa;
vi venir senhora obesa, torpe, andrajosa.

Vi-a venir detrás de barraca indecorosa;
cheguei-me per'ela com grã cortesia.

Cheguei-me per'ela de grã cortesia,
disse-lhe: senhora, tendes gasolina?

Disse-me: forasteiro, segui vossa via,
aqui só temos gasóleo agrícola.


Rui Lage, Estrada Nacional (2015)

18 de fevereiro de 2019

Beldemónio e Bel-Adam (e Zola)

«Dans la pleine rase, sous la nuit sans étoiles, d'une obscutité et d'une épaisseur d'encre, un homme suivait seul la grande route de Marchiennes à Montsou, dix kilomètres de pavé coupant tout droit les champs de betteraves. Émile Zola, Germinal (1885)

«Na planície rasa, sob a noite sem estrelas, de uma escuridão crassa de tinta, um homem seguia sozinho a estrada de Marchiennes a Montsou, dez quilómetros de caminho a direito, por entre campos de beterrabas.» Tradução de Beldemónio (Eduardo Barros Lobo, 1885)

«Na planície rasa, por uma noite escura, sem estrelas, um homem seguia sozinho a estrada real de Marchiennes a Montsou, dez quilómetros de caminho a direito, através os campos de beterraba.» Tradução de Bel-Adam (Severino de Carvalho, 1903)

«Devant lui, il ne voyait même pas le sol noir, et il n'avait la sensacion de l'immense horizon plat que par les souffles du vent de mars, des raffales larges comme sur une mer, glacées d'avoir balayé des lieues de marais et de terres nues.»

«Adiante do nariz não via nem sequer o chão negro; e não tinha a sensação do imenso horizonte plano senão pelos bafos do vento de Março, rajadas largas como no mar alto, glaciais de terem varrido léguas e léguas de pântanos e de terras escalvadas.» (Beldemónio)

«Não via sequer o chão negro, e do imenso horizonte chato só tinha a sensação pelos corpos rijos do vento de Março, rajadas largas como no mar, glaciais de terem varrido léguas e léguas de pântanos e terrenos escalvados.» (Bel-Adam)

«Aucune ombre d'arbre ne tachait le ciel,  le pavé se déroulait avec la rectitude d'une jetée, au milieu de l'embrun aveuglant des ténèbres.»

«Nem sombra de árvore manchava o céu; a estrada desenrolava-se com a prumada de um quebra-mar, em meio das trevas obcecantes» (Beldemónio)

«Nem sombra de árvore manchava a atmosfera; a estrada desenvolvia-se com a planeza dum quebra-mar, no meio da cerração obcecante das trevas.» (Bel-Adam) 

espreitar aqui e aqui

1 de fevereiro de 2019

MAUS, a vinheta inicial


Art Spiegelman, Maus - A História de um Sobrevivente (1980)
trad., Fernando Amorim, Lisboa, Difel, 1988, p. 4


31 de janeiro de 2019

o top de 2018



1.º Germinal, de Émile Zola (8 votos)

2.º Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro (6 votos)

3.º A Tempestade, de Ferreira de Castro (4 votos) 

4.º Maus, de Art Spiegelman;  Ilhéu de Contenda, de Teixeira de Sousa (3 votos)

6.º O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk; Insanus, de Carlos Querido; Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho (1 voto)

sem votos: Donde Viemos - História de Portugal I, de António Borges Coelho; Café República, de Álvaro Guerra; Malditos -- Histórias de Homens e de Lobos, de Ricardo J. Rodrigues

23 de janeiro de 2019

chão sem cadáveres e céu sem explosões

«Da raiz à nuca é escura como os olhos de Asmahn, esmorecida, como agora estão os olhos, em confronto com uma espera infinita, numa ilha que lhe oferece pouco mais do que o chão sem cadáveres e o céu sem explosões.» Julieta Monginho, Um Muro no Meio do Caminho, Porto, Porto Editora, 2018, pp. 39-40.

10 de janeiro de 2019

lestada

«Quando clareou o dia, a lestada já havia amainado. Eusébio saiu a averiguar os estragos do temporal. A verdura que na véspera cobria as achadas, os cutelos, as ribeiras, transformou-se da noite para o amanhecer num emaranhado de hastes e folhas ardidas. O milharal que tanto prometia, as faquetas arremangadas prometendo fartura, encontrava-se agora alastrado no chão, de mistura com as cordas de aboboreira e caules de feijoeiro. As árvores pareciam aves depenadas, os galhos contorcendo-se de desespero. O vento leste queimara tudo.» Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda [1978], Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., p. 215.