19 de outubro de 2017

"verbo áspero"

«[...] a mãe passou a carpir em sua própria língua, puxando um lamento milenar que corre ainda hoje a costa pobre do Mediterrâneo: tinha cal, tinha sal, tinha naquele verbo áspero a dor arenosa do deserto.» Raduan Nassar, Lavoura Arcaica [1975], Lisboa, Companhia das Letras, 2016, p. 170.

17 de outubro de 2017

a morte, essa galhofeira

«A morte costuma assim zombar com algumas das suas presas, como a fera com a vítima, quando a deixa fugir já ferida, e salteando-a outra e muitas vezes, renova o gozo de lhe rasgar as carnes, até que duma assentada a despedaça.» Camilo Castelo Branco, O Judeu [1866], Silveira, E-Primatur, 2016, p. 127.

13 de outubro de 2017

o início da DESGRAÇA

«Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo.» J. M. Coetzee, Desgraça [1999], trad. José Remelhe, Lisboa, Biblioteca Sábado, 2008, p. 5.



11 de outubro de 2017

"Percebi que as mulheres têm maior dificuldade em matar."


«A sensação insuportável de que não se quer morrer está sempre no centro. Ter de matar é ainda mais insuportável porque a mulher dá vida. Doa-a. Transporta-a longamente dentro de si, cria-a, desfaz-se em cuidados. Percebi que as mulheres têm maior dificuldade em matar.» Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), trad. Galina Mitrakhovich, Lx., Elsinore, 2016, p. 24.

2 de outubro de 2017

"e todos de mãos dadas a olhamos com sofreguidão e candura."

«Por melhores e mais conscientes amizades que mais tarde se adquiram, nenhuma chega à dos vinte anos, quando o homem não tem interesses a defender e os sentimentos estão em pleno viço. Não há um de nós que saiba ainda o que vale a existência e todos de mãos dadas a olhamos com sofreguidão e candura.» Raul Brandão, A Morte do palhaço e o Mistério da Árvore [1926], Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 7.



26 de setembro de 2017

"os vermes do tempo"


    «A voz de Januário toldou-se. A recordação cobria-se novamente de realidade. Os vermes do tempo devolviam aos ossos a carne que lhe haviam comido, o corpo refazia-se, aquecia, voltava a ser sensível.»
Ferreira de Castro, A Experiência [1954], 11.ª ed., Lisboa, Cavalo de Ferro, 2014, p. 31.

22 de setembro de 2017

"Fica mais feio o feio que consente o belo"

«--Não se pode esperar de um prisioneiro que sirva de boa vontade na casa do carcereiro; da mesma forma, pai, de quem amputamos os membros, seria absurdo exigir um abraço de afeto; maior despropósito que isso só mesmo a vileza do aleijão que, na falta das mãos, recorre aos pés para aplaudir o seu algoz; age quem sabe com a paciência proverbial do boi: além do peso da canga, pede que lhe apertem o pescoço entre os canzis. Fica mais feio o feio que consente o belo...»


Raduan Nassar, Lavoura Arcaica [1975], Lisboa, Companhia das Letras, 2016, p. 143. 

21 de setembro de 2017

coisas memoriais

fonte
«Ao mesmo tempo, D. João V lançava a primeira pedra daquela vasta mole de granito e mármore que aí está chamada mafra, cousa de triste e pavoroso aspecto, monumento que a si se levantou um braço real, como se a qualidade do braço o ressalvasse, posteridade além, da nota de se ter imergido no tesouro da pátria, tirando e espalhando às rebatinhas mãos-cheias de ouro que deviam cair em estradas, em colónias, em benefícios da navegação, em benefícios da agricultura, em recultivação das terras de D. Dinis, cujos arados D. Manuel e João III converteram em espadas e mandaram ensopar no sangue das nações de além-mar.»

Camilo Castelo Branco, o Judeu [1866], Silveira, E-Primatur, 2016, p. 120.

12 de setembro de 2017

1944, DESFILE DE 60000 PRISIONEIROS DE GUERRA ALEMÃES NAS RUAS DE MOSCOVO - Este o filme referido pela nossa colega Maria José na última sessão


historiadora da alma

fonte
«Não escrevo sobre a guerra, mas sobre o ser humano na guerra. Não escrevo a história da guerra, mas a história dos sentimentos. Sou historiadora da alma. Por um lado, estudo um homem concreto que vive num tempo concreto, tendo participado em acontecimentos concretos, por outro, preciso de descobrir um homem eterno. A trepidação da eternidade. O que sempre existe no homem.»

Svtelana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, trad. Galina Mitrakhovich, Lisboa, Elsinore, 2016, pp. 21-22.

7 de setembro de 2017

o início de A MORTE DO PALHAÇO E O MISTÉRIO DA ÁRVORE

«[K. Maurício] // A cada passo se formam por aí grupos literários.»

Raul Brandão, A Morte do palhaço e o Mistério da Árvore [1926], Lisboa, Editorial Verbo, 1972, p. 7



5 de setembro de 2017

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER - Notas de leitura

- querer devorar o livro, mas, ao contrário de outros que ficam no palato como um vinho bom quando o estilo é superior, ou se debicam continuamente como um petisco num fim de tarde de praia, sem querer nem saber como parar a leitura, querer e não querer que esta acabe, tal a pressão psicológica a que somos sujeitos;

- testemunho indirecto da saga da mulher soviética de armas (e outros artefactos) na mão, enfrentando o invasor germânico, uma miríade de histórias pessoais e contraditórias, tendo por comum pano de fundo a bestialidade da guerra e sofrimento generalizado. Por vezes, uma centelha de humanidade, o milagre da humanidade no meio do inferno que os homens engendram;

- A Guerra não Tem Rosto de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich pertence àquela categoria de obras que nos retratam cruamente, como realmente podemos ser em situações-limite. No testemunho pode emparceirar com Se Isto É um Homem (1947), de Primo Levi, ou O Arquipélago Gulag (1973), de Alexander Soljenitsin; em ficção, podemos verificar uma clima opressivo correspondente em narrativas de inspiração autobiográfica, como A Oeste Nada de Novo (1929), de Erich Maria Remarque, ou A Selva (1930), de Ferreira de Castro, ou ainda a desesperança sórdida da Viagem ao Fim da Noite (1932), de Céline;

- forma superior de jornalismo, é já literatura, uma literatura para a História.

31 de agosto de 2017

UMA PÁGINA...

"Correu o rumor de que os alemães tinham trazido à vila os nossos prisioneiros e quem reconhecesse os seus poderia levá-los. As nossas mulheres levantaram-se, correram para lá! À noite, umas trouxeram os seus, e outras trouxeram estranhos, contaram coisas inacreditáveis: as pessoas apodreciam vivas, morriam de fome, comeram todas as folhas das árvores... Comiam erva... Cavavam raízes... No dia seguinte, corri para lá também, não encontrei nenhum familiar, pensei que podia salvar o filho de alguém. Reparei num moreninho. Chamava-se Schakó, como agora o meu netinho. Tinha uns dezoito anos... Dei a um alemão toucinho e ovos, jurei: «É o meu irmão.» Fiz sinais da cruz. Chegámos a casa, ele não era capaz de comer um ovo, tão fraco estava. Não passou um mês sequer de estar connosco, apareceu um canalha. Vivia como outros, era casado, com dois filhos... Foi ao comando alemão e denunciou-nos, que tínhamos trazido gente estranha. No dia seguinte, os alemães vieram de moto. Suplicámos, caímos de joelhos, mas eles enganaram-nos, disseram que iam levá-los para mais perto das suas casas. Dei ao Schakó o fato do meu avô... Pensava que ele iria viver...
Levaram-nos para fora da aldeia... E abateram-nos a tiros de pistola metralhadora... Todos. Todinhos... Eram jovens, bonitos!"

A GUERRA NÃO TEM ROSTO DE MULHER, pg. 324-325

(A escritora (ou a testemunha) chamou canalha ao delator. É pouco. Ando aqui à procura de palavra mais adequada... Talvez não haja. Os inventores da língua talvez não tivessem conhecido malvadez tamanha...)  

30 de agosto de 2017

uma epígrafe de Óssip Mandelstam,

a abrir os «Excertos do diário» de A Guerra não Tem Nome de Mulher (1985), de Svetlana Alexievich:

                                                        Milhões de mortos ao desbarato
                                                        Trilharam o seu caminho nas trevas...

fonte

2 de junho de 2017

atribulações de um autor

«Mais do que um livro sobre a inveja, este livro é sobre alguém tentando escrever um livro sobre a inveja.»


Zuenir Ventura, Inveja - Mal Secreto [1998], Lisboa, Planeta, 2009, p. 15.

31 de maio de 2017

V ENCONTROS FERREIRA DE CASTRO - OSSELA E BARALHAS, 26 E 27 DE MAIO

«De regresso à estrada, vê-se, logo adiante das Baralhas, um panorama surpreendente. É o vale de Cambra. Quase ignorado até há pouco, a sua beleza ganha, dia a dia, maior renome. (...) O espectáculo imponente pode-se contemplar da estr., onde existe um miradoiro próprio.» -- GUIA DE PORTUGAL, 3º volume, Beira e  Beira Litoral; Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, pp. 609 e 610, texto de Ferreira de Castro. -- Sábado, 27 de Maio, os participantes no miradoiro das Baralhas.
 
 

8 de maio de 2017

Sobre a Inveja de Zuenir Ventura

Desta feita, a leitura do mês é já uma antiga conhecida… há 10 anos. (Parece-me numa outra vida.) Na altura, estava empenhada em ler toda a coleção Planos Pecados da editora brasileira Objetiva… hoje continuo com a mesma contabilidade de leitura. 
No entanto, este foi um daqueles livros que contribuiu para uma transformação pessoal, talvez quase imperceptível, pelo menos para os outros. Ao acompanhar as pesquisas e reflexões apresentadas pelos autor, fui percebendo como a mesma agia e, como tal, percebi como minava alguma das minhas re(l)ações, o que me deu uma base para agir e introduzir algumas (pequenas) alterações no modo como lido/lidava com certas pessoas e situações. Sintetizei algumas dessas aprendizagens desta forma:
  • A inveja é o mais inconfessável dos pecados e realça as características mais vis das pessoas. Enquanto todos os outros pecados são contra uma virtude, ela é contra toda virtude.
  • A inveja necessita sempre de pelo menos dois indivíduos com uma relação de desigualdade e o invejoso é sempre aquele que se sente prejudicado. Ela é socialmente útil, pois controla a vaidade e o orgulho; além disso, estimula a inovação, impedindo a acomodação, reduzindo o desequilibro entre os indivíduos. Só se inveja quando se está triste e a quem está perto. A sua base é a busca do poder: a mais-valia; mas o que mais desperta é a impotência: ficar passivo, olhando, se corroendo por dentro. Muitas das vezes é a projecção nos outros da malícia que na verdade está dentro de nós.
  • A inveja é mais azeda entre as mulheres por causa de uma vivência de privação. Elas têm de lutar mais, ter mais talento, mais competência. A maioria das coisas invejadas pertence à esfera do narcisismo: beleza, juventude, honra, glória, fama, poder, coisas tangíveis mas que se podem perder facilmente.
  • A inveja é a exploração de nosso campo magnético por outra pessoa e está sempre associada ao olhar, ao mau-olhado. E a inocência não serve para proteger. Mascara-se muitas vezes sob a forma de elogio, que é sempre recebido com reservas, porque se teme que ele funcione como mau agouro. Ninguém elogia com boas intenções.
  • A inveja tem sempre uma energia negativa e não há diferenciação entre boa e má inveja: destrói e corrói sempre.
Espero que apreciem esta leitura. Eu vou fazer o exercício de ler o livro 10 anos depois.

J

Altarriba & Kim, A Arte de Voar: «3.º andar 1910-1931 - O carro de madeira»


vinheta p. 37, com um eco de Hergé