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29 de janeiro de 2015

de Bertolt Brecht



Estes que aqui vêem
são os delatores. Por três vinténs
vendem seu vizinho.
Que são conhecidos
bem no sabem; mas a gente
lembrar-se-á sempre?
A noite dormem-na mal --
-- muitos dias há
antes do dia final.

Poema em epígrafe ao quadro «A denúncia», in O Terror e a Miséria no terceiro Reich, tradução de Fiama Hasse Pais Brandão, Lisboa, Portugália Editora, s.d., p. 13,

28 de janeiro de 2015

de Ferreira de Castro

«Zola teve um grande papel na Literatura. Para se avaliar toda a sua extensão, basta imaginarmos que ele não existiu: basta imaginar a literatura dos últimos oitenta anos sem a sua presença. Depois deste pequeno passatempo, rapidamente encontraremos um enorme vazio, que não sabemos como preencher, uma enorme corrente partida, que não sabemos como ligar...»

(Último parágrafo dum texto publicado no volume colectivo Présence de Zola (Paris, 1953), republicado, nesse mesmo ano, na Vértice. Estávamos no cinquentenário da morte do autor de Germinal ). Coligi-o para a antologia de dispersos, que intitulei «A Unidade Fragmentada», Vária Escrita #3, Sintra, 1996)

(lido na sessão de quarta-feira, 21.I.2015)

23 de janeiro de 2015

Em Todas as Ruas te Encontro, Mário Cesariny

Kai Ziehl
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo...
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


 in "Pena Capital" 

Renata Correia BotelhoLido


Lido na sessão de 21 de Janeiro.

Seremos sempre cinco, José Luís Peixoto


Lido na sessão de 21 de Janeiro.

Ruy Cinatti


Lido na sessão de 21 de Janeiro.

Dora Bruder, de Patrick Modiano

Excerto lido na sessão de 21 de Janeiro.


21 de janeiro de 2015

de Antero de Figueiredo

«Este moço, que, aos treze anos de idade, Leonor Teles, pasmada do seu ardimento de criança, por suas mãos armou cavaleiro (servindo-se do pequeno arnês do Mestre de Avis) e depois andou por morador em casa de el-rei, como escudeiro da rainha -- tem agora vinte e dois anos»

início de «O baptismo de sangue de Nuno Álvares», 14 Novelas Históricas Portuguesas, Lisboa, Estúdios Cor, 1965, p. 291.

(lido na sesão de quarta-feira, 14.I.2015)

9 de janeiro de 2015

LEITURAS DAS QUARTAS...


«Era uma montanha como as outras.
Tinha formas arredondadas, como todas as montanhas já velhas, muito batidas pelos ventos. Tinha vales pouco profundos, por onde corria um regato que nascia no cume mais alto e descia em múltiplas curvas até à planície. Aí recebia água de outros riachos, nascidos noutras montanhas, e virava rio grande. Mas isso já era longe da nossa montanha, não entra na estória. Aqui era mesmo só um regato de água límpida, saltitando entre os rochedos, lambendo as raízes das árvores que cresciam nas margens. Toda a montanha estava coberta por vegetação: árvores grandes como a mafumeira, a molemba ou a amoreira de tronco branco, e também as de frutas silvestres. No chão se misturavam fetos de diferentes formas e tamanhos, begónias e rosas-de-porcelana. Só num ou noutro sítio tinha capim, capim tenrinho e que não crescia muito, por causa da sombra das grandes árvores, gigantes teimosos escondendo o Sol.
O clima não era muito quente, por causa da altitude. E chovia bastante, daquelas chuvadas rápidas que sem avisar nos caem em cima, embora nunca com grande violência.
A montanha tinha dois cumes principais: o cume Lupi, o mais alto, onde nascia o rio do mesmo nome, e o cume do Sol, no extremo oposto. No meio dos dois cumes havia um morrozito com pedras, sem plantas nem árvores, apenas capim baixo. Era o sítio mais calmo e perfumado da montanha e dali se podia ver melhor o luar de Lua cheia; por isso era o morro da poesia.
Era uma montanha como as outras. Mas seria mesmo?»

(Lido numa quarta-feira destas...)


   

de Ferreira de Castro

 «A imaginação de Reinaldo era tão opulenta e constituía uma tão profunda característica da sua personalidade, que, meia hora depois dele ter assistido a um acontecimento, o tornava incapaz de o reproduzir tal qual o vira. Vestia-o, fatalmente, de aspectos imaginários, tirando-o da mesquinhez da verdade para o colocar em relevo, em grandeza, em interesse -- para que ele fosse o que devia ter sido e não o que fora. E Reinaldo não fazia isto por cálculo, por técnica, por experiência do ofício, mas espontaneamente, naturalmente -- porque não podia ver a vida de outra maneira. A sua personalidade forçava-o a ser infiel à realidade, porque `realidade falta, geralmente, encanto, mistério, fascinação.»

«Reinaldo Ferreira», incluído n'O Livro do Repórter X, Lisboa, Agência Editorial Brasileira, 1936 -- livro de homenagem e auxílio à família de Reinaldo Ferreira, falecido no ano anterior.

(lido na sessão das quartas, 7-I-2015)

8 de janeiro de 2015

de José Eduardo Agualusa

«Chamava-se Hotel Gaivota e ficava quase escondido por detrás de uma enorme duna, numa praia deserta da Paraíba. Vi-o de longe e à luz incerta do entardecer pareceu-me um esplêndida toalha de renda, como aquelas que se vendem na Feira de Caruaru, estendida entre palmeiras altas. Quando me aproximei percebi que o edifício inteiro fora construído com tijolos dispostos lado a lado -- e não no enfiamento uns dos outros, como é usual --, de forma a que o ar pudesse circular livremente através dos orifícios. Mais tarde pude confirmar as virtudes deste ardil: os quartos, embora pequunos, permaneciam sempre frescos. À noite, estendido na minha cama, eu ouvia a brisa atravessar as paredes, e era como se o prédio inteiro respirasse.»

Início de «Um hotel entre palmeiras», Fronteiras Perdidas, 5.ª edição, Alfragide, Publicações Dom Quixote, 2009, p. 33.
(lido na sessão de quarta-deira, 10 de Dezembro de 2014)

15 de dezembro de 2014

IN MEMORIAM, José Carlos Ary dos Santos

Requiem aeternum dona eis,
                                                                                                                                                                         Domine, et lux perpetua
                                                                                                                                                                                         luceat eis.»

Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminadsor, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.


José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) / Obra Poética, edição de Francisco Melo, 6.ª edição, Lisboa, Edições «Avente!», 2002.
(lido na sessão de 4.ª feira, 19 de Novembro de 2014)

10 de dezembro de 2014

LEITURAS DAS QUARTAS-FEIRAS...

«Lhe entrego dinheiro, prometo, tenho muito dinheiro fora. Não duvide: são cifras, maquias e quantidades. Tenho e tenho. E dou-lhe tudo, totalmente. Mas me traga chuva, uma porção de chuva boa, grossa e gorda. Estou doido? Por causa de querer que chova aqui, dentro da prisão? Pode ser, pode ser loucura. Mas a loucura é a única que gosta de mim. O senhor que é um inventador de realidades, me faça esse favor. Me invente, rápido, uma urgente chuvinha.
Antigamente, valia a pena ser preso. O cantinho da prisão nem era mau, comparado com o mundo que nos cabia, lá fora. Falo sério. Maioria do que aprendi foi na prisão. Ler, escrever: foi na prisão que me letrinhei. Minha vida era uma roda-ronda entre roubo e grades. Me prendiam: era um consolo cheio de sossego. Lá fora ficava o mundo, mais suas doenças, suas nauseabundâncias.»

(Do conto "A última chuva do prisioneiro")





de Jane Austen

«As minhas filhas começam agora a exigir a minha atenção de um modo algo diferente ao que têm sido acostumadas, uma vez que atingiram, neste preciso momento, aquela idade em que lhes é, de certa forma, necessário tornarem-se mais sociais e activas no mundo circundante. A minha Augusta perfez dezassete e a sua irmã mal é um ano mais nova. Posso congratular-me do facto de a sua educação não ter constituído tarefa árdua, não representando, portanto, a sua apresentação social, tenho razões para o crer, algum tipo de problema. Efectivamente, são raparigas doces: sensíveis, mas sem qualquer tipo de afectamento; realizadas, porém, fáceis no trato; carinhosas e, no entanto, vivas.»
início de «Um conjunto de cartas» [De uma mãe à sua amiga"], Amor e Amizade, tradução de Inês Fraga, Sassoeiros, Coisas de Ler, 2005, p.77.
(lido na sessão de quarta-feira, 19 de Novembro de 2014)

2 de dezembro de 2014

QUEIXA E IMPRECAÇÕES DUM CONDENADO À MORTE, José Carlos Ary dos Santos

Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.


Passo a passo os encontro no caminho
Que os Deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram
Com angústia e com lama.


Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.


Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.


Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu que me corto a mim mesmo no pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.


Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.


Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.


Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.


Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
De serem inúteis e ficarem vivos.



José Carlos Ary dos Santos, A Liturgia do Sangue (1963) / Obra Poética, edição de Francisco Melo, 6.ª edição, Lisboa, Edições «Avente!», 2002.
(lido na sessão de 4.ª feira, 19 de Novembro de 2014)

20 de novembro de 2014

leituras das 4ª feiras


 «Perdera a vida só num olho, um lado da cara todo esfacelado. O olho dele era faz-conta um peixe morto no aquário do seu rosto. Mas o sargento era tão apático, tão sem meximento, que não sabia se de vidro era todo ele ou apenas o olho. Falava com impulso de apenas meia-boca. Evitava conversas, tão doloroso era ouvir-se. Não apertava a mão a ninguém para não sentir nesse aperto o vazio de si mesmo. Deixou de sair, cismado em visitar no obscuro da casa a antecâmara do túmulo. O Correia perdera interesses na vida: ser ou não ser tanto lhe desfazia. As mulheres passavam e ele nada. E ladainhava: «estou morto por metade»
Agora, reformado, sozinho, mutilado de guerra e incapacitado de paz, Antunes Correia e Correia tomava conta das suas lembranças. E se admirava do folgo da memória. Mesmo sem o outro hemisfério não havia momento que lhe escapasse nessa caçada ao passado. Das duas uma: ou minha vida foi muito enorme ou ela fugiu-me toda para o lado direito da cabeça. Para as recordações virem á tona ele inclinava o pescoço.

(do conto "A Viagem da Cozinheira Lagrimosa". Lido na sessão de 19-11-2014)

18 de novembro de 2014

de José Eduardo Agualusa

«-- O amigo acredita em Deus?
A pergunta apanhou-me desprevenido. Deus? Eu estava dentro de um táxi, tinha fechado a porta e indicado o destino. Ainda pensei em sair mas o carro já corria, às curvas, por entre o trânsito transtronado de Lisboa. Assim, acomodei-me no assento, suspirei fundo e preparei-me para o pior.»

Início de «O taxista de Jesus», in Fronteiras Perdidas, 5.ª ed., Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2009, p. 19. (Lido na sessão de quarta-feira, 12 de Novembro)

17 de novembro de 2014

de Sarah Adamopoulos

«Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Ele queria um filho. Vou fazer-te um filho. Mas eu não quero um filho. Mas eu preciso dum filho. Então manda vir. Mas eu quero um filho teu. Ou contigo. Ou qualquer coisa assim. Eu quero um filho. Então faz um. Mas um filho não se faz sozinho. Pois não. Faz-se com uma mulher que quer ter um filho. Dá-me um filho. Não. Então ele começou a beber. [...]»

Excerto de «O Adeus aos feijões verdes», A Vida Alcatifada, Lisboa, Fenda, 1997, p. 72.
(lido na sessão de quarta-feira, 12 de Novembro)

de Paul Auster

«L. e eu casámos em 1974. O nosso filho nasceu em 1977, mas no ano seguinte o casamento tinha terminado. Nada disto é relevante agora -- excepto para situar a cena de um incidente que ocorreu na Primavera de 1980.»

início do texto #4 de O Caderno Vermelho, tradução de Fátima Freire de Andrade, 8.ª ed., Porto, Edições Asa, 2002, p. 21.

(lido na sessão de quarta-feira, 12 de Novembro)

15 de novembro de 2014

de Alberto da Costa e Silva

«Poeta quis ser, e, agora consolam-me, dizendo-me que fui poeta e -- quem sabe? -- sou.»

Excerto de «O deslumbramento do mundo», discurso de aceitação do Prémio Camões 2014, em 29 de Outubro passado, na Fundação da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

De salientar outro excerto, formidável, de outro orador na cerimónia, Jorge Barreto Xavier, Secretário de Estado da Cultura, que aí se deslocou propositadamente, como era seu dever -- ao contrário do que sucedeu (talvez escandalosamente) com a ministra brasileira da Cultura, que justificou a ausência com "motivos de ordem pessoal". E disse Barreto Xavier: "Saúdo acima de tudo o homem que reúne de forma tão gloriosa todos eles [o poeta, o historiador, o ensaísta...], atribuindo a cada parte dons de palavra e de um imenso trabalho abençoado por uma escrita pessoal e ao mesmo tempo hoje património comum da língua portuguesa, uma escrita que que não se sabe bem se é literatura ou história, poesia ou prosa, ensaio ou novela, uma escrita que na reunião do conjunto da obra corresponde a um monumento construído ao rio Atlântico e às suas margens, do Brasil a África, de Portugal ao Brasil." 

in JL- Jornal de Letras, Artes e Ideias # 1151, Lisboa, 12 de Novembro de 2014
(lido na sessão de 12 de Novembro)