4 de dezembro de 2019
29 de novembro de 2019
o início de O INSTINTO SUPREMO
«Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.» Ferreira de Castro, O Instinto Supremo [1968], 6.ª ed., Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 21.
28 de novembro de 2019
EPHEMERIDES
28 DE NOVEMBRO DE 1881 (138 ANOS)
STEFAN ZWEIG
"Toda a beleza do ser humano consiste em se tornar algo melhor do que se foi"
21 de novembro de 2019
EPHEMERIDES
21 DE NOVEMBRO DE 1694 (325 ANOS)
François Marie Arouet (VOLTAIRE)
"Devemos julgar um homem mais pelas suas perguntas que pelas respostas"
18 de novembro de 2019
EPHEMERIDES
18 DE NOVEMBRO DE 1943 (76 ANOS)
MANUEL ANTÓNIO PINA
"Vamos então os dois outra vez
ao longo de certas ruas sombrias e de certos dias
e sorris e falas alto; está calor mas tens as mãos frias,
compramos coisas, visitamos
talvez algum último amigo
sem sabermos que já não estou vivo"
16 de novembro de 2019
EPHEMERIDES
16 DE NOVEMBRO DE 1922 (97 ANOS)
JOSÉ SARAMAGO
(Prémio Nobel l998)
"Não tenham pressa; mas não percam tempo"
12 de novembro de 2019
A propósito de ATÉ AO FIM
Na sessão de dia 8 de novembro, induzido pelo livro de Virgílio Ferreira, foi lido o texto (poema?) que transcrevo:
CONDENAÇÃO? MISSÃO?
Largam-me,
na Terra, como farrapo em sangue,
Condenado
a morrer, tão só por ter nascido.
Clamo,
grito; no primeiro hausto, protesto…
E
sem respeito algum, apenas sorrisos satisfeitos.
Como
ousam?! Não veem quanto sofro,
Saído
de uma asfixia martirizante,
Para
um mundo glacial que não desejo?
Que
cobardia! Que egoísmo atroz!
Não
sou coisa; queria ser nada, mas sou gente.
Onde
está o meu livre-arbítrio que apregoam?
Onde
as leis e decretos que arquitectam a bel-prazer?
Rasguem-nos;
queimem-nos; não os quero agora:
Para
quê agora, se me condenaram antes?
Cínicos!
Mil vezes e hediondamente cínicos.
A
lei única, com justiça, era a exigência de ser ouvido…
Quando
alguém decidiu que queria um filho,
Alguém
me questionou se eu queria pais?
Não,
sabichões, não me trapaceiem; não se enganem,
Nem
me venham com a dádiva da vida,
Porque
não passa de um preâmbulo fútil para a morte.
Grito
de novo, e mais sorrisos: «o fedelho tem bofes!»
Ah!
Se eu pudesse, partia já…
Condenado
a morrer, porque condenado a viver.
Nu.
Só
Engordam-me;
criam-me; educam-me; moldam-me.
«Há
de fazer-se um homem!»
Atafulham-me
de regras, sabichonices,
tiradas pomposas,
Ambições,
roteiros e caminhos, experiências alheias,
Fitos,
habilidades, competições, mil sugestões repetidas…
E
quando fizeram de mim um boneco de fantocheiro,
Disseram-me
que era livre e estava pronto a ganhar a vida.
Mas
a vida?! Mas não foi isso que me impuseram,
Quando
me expeliram, num espasmo?!
“Eis
o homem”! Oferecido como escravo, ao mercado, à engrenagem.
Para
a vida que não quis, vendo pedaços de vida.
«Tens
de comer, beber, vestir-te, abrigar-te, ganhares conforto
E…
e… prevenir para a doença.»
Doença…
sim, porque a vida, na bandeja dourada,
É
afinal um livro corroído por traças persistentes.
“Se
isto é um homem.”
Terá
sido este o pecado em que Adão foi engodado?
Mas
os frutos de Eva são frutos da mesma morte.
Ah
Deus! Ah Criador, porque misturas no homem instinto e razão?
Que
faço, agora, comigo, enquanto a gadanha não aparece,
Envolta
em trapos hediondos, para tentar assustar-me?
Recuso
sacrificar mais nascituros ao holocausto:
Basta!
Não mais reses para a matança.
E
amar: amar estes tontos que se aturdem
Na
vaidade de máscaras de eternidade.
Ajudar:
ajudar perguntando sempre,
Implorando
ao juízo o que a tontaria escamoteia.
Apontar
a Terra, Água e Céu, inquirindo, duro:
Que
fazeis, loucos, que vos devorais em orgia?
E
se houver um só que escute e pense,
Terei
deixado melhor o universo que encontrei,
E
na hora em que Ela baixar a espada sobre mim,
Possa
sorrir, em desafio, mas duvidando:
“Tudo
vale a pena, se a alma não é pequena”.
Depois,
aniquilo-me na chama que consome e purifica.
Nu.
Só.
Etiquetas:
Até ao fim,
existencialismo,
J. A. Marcos Serra,
Vergílio Ferreira
6 de novembro de 2019
EPHEMERIDES
6 DE NOVEMBRO DE 1919 (100 ANOS!)
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN
(infelizmente,
não consegui inserir
uma imagem da
POETISA)
"Pelas tuas mãos medi o mundo
E na balança pura dos teus ombros
Pesei o ouro do Sol e a palidez da Lua"
5 de novembro de 2019
ATÉ AO FIM
(V.F. QUE ME DESCULPE, MAS NÃO ESPERAVA TÃO BOM...)
"Vamos então a um café. Desculpe, o seu nome? Não sei se disse.
- Cláudio.
Atravessámos o jardim em frente, havia pássaros nas árvores. Mas não tinham razão contra o tráfego. Flora não era alta, mas eu tinha dificuldade, pela intensidade do seu corpo, em ser mais alto do que ela. Um vestido cor de - de que cor? devia ser claro para o teu esplendor, mas da cor dele ficou-me só na memória a firmeza flexível do seu andar. Direita ondeada tensa. Abruptamente sinto-a na minha posse por levá-la ao meu lado e haver gente a ver. Escolheu um café ali perto, sentou-se perpendicular, chamou ela o criado. Da malinha tirou uma boquilha e acendeu um cigarro. E por entre uma baforada
- Diga lá então.
- Ora bem. A doutora sabe...
- Ah, não. «Doutora» não.
Não ríspida, seca. Só como se me admoestasse. Tratei-a por Flora. Era um nome pagão."
(De como em meia dúzia de linhas se resume o "romance" impossível ou fracassado entre duas personagens tão miscíveis como o azeite e o vinagre)
FF
2 de novembro de 2019
EPHEMERIDES
2 DE NOVEMBRO DE 2019 (100 ANOS!)
JORGE DE SENA
"Nasceu-te um filho. Não conhecerás,
jamais, a extrema solidão da vida."
30 de outubro de 2019
22 de outubro de 2019
o início de OS LOUCOS DA RUA MAZUR
«A montra negra da Livraria Thibault era a moldura mais respeitada da Rue de Nevers, um beco desconsolado que se escondia entre as costas de dois quarteirões do Quartier de la Monnaie e que, séculos antes, servira de escoadouro às Irmãs da Penitência de Jesus Cristo.» João Pinto Coelho, Os Loucos da Rua Mazur, Lisboa, Leya, 2017, p. 9.
17 de outubro de 2019
o início de A MANCHA HUMANA
«Foi no verão de 1998 que o meu vizinho Coleman Silk -- que, antes de se reformar dois anos antes, fora professor de estudos clássicos no Athena College durante vinte e tal anos, além de ter servido dezasseis como reitor da faculdade -- me confidenciou que, aos 71, tinha um caso com uma empregada de limpeza de 34, que trabalhava na universidade.» Philip Roth, A Mancha Humana, 2.ª ed., tradução de Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, Leya, s.d., p. 19.
8 de outubro de 2019
o início de O ÚLTIMO CABALISTA DE LISBOA
«Abraham Vital, advogado particular em Istambul, ganha a sua vida apresentando petições ao Governo turco para conseguir subsídios para as pessoas que, devido a acidente ou doença, deixaram de poder trabalhar.» [«Nota do Autor -- A descoberta do manuscrito de Berequias Zarco»] Richard Zimler, O Último Cabalista de Lisboa [1996], trad. José Lima, Porto, Porto Editora, 2013, p. 9.
30 de setembro de 2019
O INSTINTO SUPREMO
- Fui. Pouco tempo - tornou Manga Verde, com secura, como se lhe desagradasse aquela intervenção. Logo, porém, o seu rosto, longo e oval, na boca o espaço vazio de três dentes emigrados da frente, se abriu de novo. - É, ainda outro dia me estava a lembrar dessas coisas, quando se falava da loja de seu Lobo, em Três Casas. Você ouviu? Diferentes as coisas, mas parecidas. Quando eu era curumim, também havia uma loja diante da minha casa, em Manaus, mesmo diante, diante. Não mercearia, nem de dono de seringal, não. Loja pequena, de sírio, que tinha sido mascate. Fazendas, não sei que mais, brinquedos, pouca mercadoria. Havia um tambor pequeno e bonito, como esse dos brindes. Eu queria ele, mamãe não dava dinheiro, não tinha, e eu pensava que quando fosse homem também havia de ter uma loja. Loja maior, muita coisa, muitos brinquedos. Pensava, mas duvidava.
Calou-se um instante, olhou ao longe, como se fosse das cristas da floresta que a sua memória, voando, lhe acudisse melhor:
- Aos dezassete anos é que fui para criado de bordo. Para o «Japurá». Viu algum dia essa gaiola?
Etelvino hesitou:
- Há tantos vapores... Mas tenho uma ideia... Não era um de cano amarelo, com barra preta? Um pequeno, que ia para o Purus, para o Juruá...
Esse! Não era grande como um vaticano, não, mas também não era assim nenhuma lancha. Comida, muita e boa. Mas ordenado de moleque."
***
Sempre a mesma mestria na construção da narrativa. Parece que tudo foi planeado ao pormenor, antes de começar a escrever. E sempre uma qualidade literária inquestionável.
Penso que a volta ao nosso patrono FC pode e deve ser um motivo para a enchente da sala, que tão desfalcada tem andado.
Até sexta-feira!
FF
20 de setembro de 2019
o início da CRÓNICA DO REI PASMADO
«1. A madrugada daquele domingo, tantos de Outubro, foi de milagres, maravilhas e surpresas, embora tivesse havido, como sempre, desacordo entre testemunhas e testemunhos.» Gonzalo Torrente Ballester, Crónica do Rei Pasmado [1989], trad. António Gonçalves, 4.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1992, p. 11.
13 de setembro de 2019
o início de A ORDEM DO DIA
O Sol é um astro frio. O seu coração, espinhos de gelo. A sua luz, sem perdão. Em Fevereiro. as árvores estão mortas, o rio tornado pedra, como se a nascente não deitasse água e o mar não conseguisse engolir mais. O tempo imobiliza-se.» Éric Vuillard, A Ordem do Dia [2017], tradução de João Carlos Alvim, Lisboa, D. Quixote, 2018, p. 11.
5 de setembro de 2019
"gestos de trolha"
«Ouvira dizer que aquele era um lugar onde enfermeiras de mãos ásperas ajeitavam almofadas e mudavam algálias com gestos de trolha, e por isso palpava com pena o corpo debaixo do pijama, para se despedir dele.» Victória F. «Uma visita», Elogio da Infertilidade, Sintra, Câmara municipal, 2018, p. 11.
29 de agosto de 2019
SÓ FALTA UMA SEMANA...
E para acicatar os apetites, deixo aqui um pequeno naco:
"Quando deram pelas horas, Tauba e a mãe levaram as mãos à cabeça. Despediram-se num instante e fizeram o caminho de regresso quase em passo de corrida. Talvez fosse por isso que não se aperceberam dos dois homens de fato com quem se cruzaram. A poucos metros de casa, estranharam ver Baruch parado na soleira a olhar para a rua com um ar aparvalhado. Tinha um papel na mão e, ao ver a mulher, entrou em casa sem fechar a porta. Tauba foi ter com ele, mas não lhe conheceu o olhar, nunca o vira devastado. «Está assinado pelo Govorov», disse ele, mostrando-lhe a notificação. Apenas duas linhas escritas à máquina, qualquer uma inequívoca e brutal: Tauba deveria apresentar-se no manicómio Pasternak na manhã seguinte. Mesmo levando a mão à boca, a mãe da rapariga não foi a tempo de abafar um grito: a prisão!, a Sibéria! E foi isso que arrancou Baruch à letargia: empertigou-se e mandou calar a sogra, deixar-se de disparates, não se prende ninguém com um postalzinho."
27 de agosto de 2019
Na pista de Virgílio Ferreira,
em Melo, uma informação, em resposta a um pedido de esclarecimento sobre o Roteiro Literário do Escritor, levou-me à oficina do senhor Luís Filipe e, desta, ao Museu de Melo.
Surpresa! O percurso, programado para uma hora de duração, começou com um prólogo de mais de uma hora, escutando as informações do curador, autodidata exemplar e bem informado, que nos enriqueceu sobre Melo, a sua história e os seus filhos mais ilustres. E sobre curiosidades que só em informação boca-a-boca são possíveis.
Se perderam isto na deslocação literária anterior, a Melo, não percam na próxima.
Para abrir o apetite, deixo a fotografia da casa onde Virgílio Ferreira nasceu... (não a que, ainda briosa, se ergue ali ao fundo do terreiro, e que os pais do escritor adquiriram).
E, já agora, a fachada do Paço, em ruínas, reconstruído pelas mãos habilidosas do artista Luís Filipe.
Surpresa! O percurso, programado para uma hora de duração, começou com um prólogo de mais de uma hora, escutando as informações do curador, autodidata exemplar e bem informado, que nos enriqueceu sobre Melo, a sua história e os seus filhos mais ilustres. E sobre curiosidades que só em informação boca-a-boca são possíveis.
Se perderam isto na deslocação literária anterior, a Melo, não percam na próxima.
Para abrir o apetite, deixo a fotografia da casa onde Virgílio Ferreira nasceu... (não a que, ainda briosa, se ergue ali ao fundo do terreiro, e que os pais do escritor adquiriram).
E, já agora, a fachada do Paço, em ruínas, reconstruído pelas mãos habilidosas do artista Luís Filipe.
E, para finalizar, podem, entretanto, espreitar http://museudemelo.webnode.pt
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Luís Filipe Gonçalves,
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Vergílio Ferreira
2 de agosto de 2019
os ['brandos costumes'] entre parênteses
«Durante as devastações que o país sofrera nas sucessivas guerras civis dos últimos períodos de nossa história, a casa de Entre-Arroios não fora mais do que as outras respeitada, e os estragos que, no resto da habitação, tinham já sido cuidadosamente reparados, conservavam-se ainda visíveis no pequeno templo, onde havia muito se não exercia por isso o ofício divino.» Júlio Dinis, Serões da Província [1870], Domingos Barreira Editor, Porto, 1945, p. 131.
1 de agosto de 2019
IP 2
Oito óbitos por quilómetro
é muito insecto esborrachado no
no pára-brisas.
São muitas vidas.
É muita abelha, muita borboleta,
muito mosquito.
Mas tu não és menos chegado ao finito
e o mais certo é que andes distraído
de que há um vidro
entre ti e o horizonte.
é muito insecto esborrachado no
no pára-brisas.
São muitas vidas.
É muita abelha, muita borboleta,
muito mosquito.
Mas tu não és menos chegado ao finito
e o mais certo é que andes distraído
de que há um vidro
entre ti e o horizonte.
Rui Lage, Estrada Nacional, Lisboa, IN-CM, 2016, p. 32.
29 de julho de 2019
REGRESSO A QUIONGA
"O tempo levaria, sem aviso, uma dor aflita ou sinal de alerta, o meu avô José, atraiçoado pelo fraquejar inesperado do coração. O falecimento do meu avô, amigo, companheiro predilecto de toda a vida, ocorrido numa tarde acalorada dos meados de Julho, quando provava uns bagos de uvas de português azul, a primeira casta a amadurecer na sua dúzia de pedaços de vinha, desencadearia o segundo grande terramoto nas minhas emoções. Por esse tempo cultivava a incapacidade de entender a perda definitiva, o finamento dos entes queridos mais próximos, o cerco de amor que ofereciam não poderia, num passe de magia estranha, desaparecer na curva de uma estrada sem retorno. Abanava, com fúria, o pensamento, numa tentativa de saltar do pesadelo, e, depois de todos estes anos, em muitas noites, ainda corria para o doce regaço de minha mãe, a partir da tarde desse Julho quente, passei a somar à imaginação o sorriso benevolente de meu avô abrindo os braços"
Romance histórico da inequívoca lavra de um historiador (o que o A. é, segundo penso saber).
Realço a grande coerência estrutural e formal, o ritmo vertiginoso da narrativa, a grande riqueza de informação histórica acerca do período compreendido entre os anos trinta do século XIX e os inícios da presente centúria, o enorme acervo de pormenores ficcionais, tão realísticos que até parecem verídicos e perfeitamente encadeados, os frequentes laivos de lirismo.
Li com muito agrado.
De menos bom, aponto dois ou três capítulos, perto do final, em que o narrador passa a personagem principal, em que a escrita se torna, às vezes, enfadonha e quase inconsequente. Penso também que o leitor esperava um final mais empolgante (até pelo título do romance...)
Notei, finalmente, sinais de algum desleixo na construção das frases - talvez pressão para terminar -, com vírgulas no lugar de pontos ou pontos e vírgulas (um claro exemplo está na última frase do excerto transcrito), frequentes erros de ortografia (às vezes sintaxe), inúmeras gralhas e má pontuação. Parece ter faltado uma cuidada revisão final... Pena...
FF
2 de julho de 2019
Um pedacinho de A MANCHA HUMANA
(Um magistral e implacável libelo contra o preconceito e a boataria... Mas, atenção, ainda só cheguei à página 250...)
"Depois aparece Bronfmann. Bronfmann, o brontossáurio. O sr. Fortissimo! Entra Bronfmann para tocar Prokofiev a tal ritmo e com tal arrebatamento que põe a minha morbidez completamente fora de combate. Tem a parte superior do tronco extraordinariamente maciça, uma força da natureza camuflada por uma camisola de treino, dir-se-ia alguém que entrou no Alpendre da Música vindo de um circo onde é o colosso e que considera o piano um desafio ridículo à força gargantuesca com que se delicia. Yefim Bronfmann parece menos a pessoa que vai tocar piano do que o indivíduo que devia transportá-lo. Eu nunca tinha visto ninguém atirar-se a um piano como este judeu russo robusto, baixo e de barba crescida. Quando ele acabar, pensei, têm de deitar aquilo fora. Ele esmaga-o. Não deixa aquele piano esconder nada. Seja o que for que exista lá dentro, vai sair, e sair de mãos no ar. E quando isso acontece, quando está tudo cá fora até à derradeira pulsação, ele levanta-se e sai, deixando atrás de si a nossa redenção."
25 de junho de 2019
VERGÍLIO FERREIRA, DE MELO
Para os que não puderam deslocar-se a Gouveia e Melo no passado sábado, aqui deixo uma pequena nota acerca do evento:
Participaram na jornada de intercâmbio sete magníficos (não temos culpa de termos sido sete) membros ou confrades do Clube de Leitura Ferreira de Castro, de Sintra, e cerca de dez da Comunidade de Leitores de Gouveia.
Os pontos principais do programa foram:
1- Visita à aldeia de MELO, terra de naturalidade de Vergílio Ferreira, com um pequeno percurso/visita por/a alguns dos principais sítios ligados ao escritor, ou por ele evocados nas suas obras. Realço: a casa que os pais construíram depois de regressarem dos EUA, pelos vistos com um bom pé-de-meia porque a casa tem todo o ar de um bonito chalé, e que a CM de Gouveia adquiriu e pretende converter numa Casa-Museu ou de Cultura vergiliana; o Chão do Paço, ampla praça central da aldeia, toda ela convertida num espaço de evocação de VF, onde avultam uma estátua dele e um conjunto escultórico evocativo e várias inscrições com excertos de escritos e dados biográficos do escritor; a capela da Misericórdia, monumento creio que medieval, na sua origem, que só por si justifica uma visita a Melo; a igreja matriz e respectivo presbitério. A aldeia está pejada de placas, de belo gosto estético, com excertos vergilianos alusivos aos diferentes sítios e edifícios.
2 - Almoço opíparo no restaurante Fonte dos Namorados (não pudemos vislumbrar nenhum casalinho, talvez porque lhes reservem recantos adequados...)
3 - Discussão do romance APARIÇÃO, na já referida Capela da Misericórdia. Participada e rica, a discussão. Pena que não tivesse haviso mais tempo...
4 - Visita à Biblioteca Municipal de Gouveia, onde se "sente" também com intensidade a "presença" tutelar do mais distinto filho da terra.
Gerou-se uma clara cumplicidade literária entre as duas comunidades de leitura e, penso poder adiantá-lo, ficou agendada para o dia 19 de Outubro pf a reedição do encontro em Sintra.
F.F.
19 de junho de 2019
3 de junho de 2019
AGUSTINA BESSA-LUÍS
A minha homenagem a uma grande Escritora e Cidadã que hoje deu o passo definitivo para a imortalidade.
"No Natal, o padrinho, que veio consoar com a madrinha, disse:
- Ema não tem namorado? - E deitou-lhe um olhar que a enxovalhava, que lhe rompia as entranhas como uma arma branca.
Ema pensou, pela primeira vez, que o casamento estava a preparar-se como uma nova condenação, como uma injustiça mais elaborada. Carmezim deu-lhe a notícia de que precisava de tomar as águas. Tinha o fígado avariado, era o termo que usava, como se se referisse a uma máquina, um motor que, de tempos a tempos, precisasse de reparação. Mas o que pretendia, no absoluto da sua vontade, odiosa apesar de afectar complacência e grandeza de alma (outro dos seus termos favoritos), era despertar na afilhada a perturbação sexual que iria resolver-se no casamento. A juventude, minada assim na sua substância equivalente à eternidade, teria que receber o golpe que não cicatriza mais; seria corrompida pelo desejo revelado; e a aventura humana começaria para Ema com todos os seus males do século, a ansiedade e o tema da senilidade. Convidou-a para os acompanhar às termas."
(Vale Abraão, Os Grandes Escritores Portugueses Planeta deAgostini, pag. 27-28)
2 de junho de 2019
sem trabalho e sem abrigo
«Uma única ideia ocupava o seu cérebro vazio de operário sem trabalho e sem abrigo, -- a esperança de que o frio seria menos vivo depois do romper do dia.» Émile Zola, Germenial [1885], tradução de Bel Adam, Lisboa, Biblioteca d'Educação Nova-Editora, 1903, p. 1.
21 de maio de 2019
uma vinheta de Art Spiegelman
Art Spiegelman, Maus - A História de um Sobrevivente (1980)
trad., Fernando Amorim, Lisboa, Difel, 1988, p. 23
7 de maio de 2019
caminho marítimo para o exílio
«Ai do cabo-verdiano se não tem aprendido a defender-se por si. Já não existíamos. Quem evitou a emigração para a América, Brasil, Dakar, Argentina, Guiné? Foi o Governo Português? Foi o próprio cabo-verdiano, que descobriu o caminho marítimo para todas essas paragens.» Teixeira de Sousa, Ilhéu de Contenda [1978], Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d., p. 261.
4 de maio de 2019
2 de maio de 2019
O ÊXITO FÁCIL
A história de um
escritor de grande sucesso que à hora da morte se apercebe da fragilidade da
sua obra. Uma obra escrita sem nada de si, em obediência aos gostos do público leitor.
Assim vendia muito, vendendo-se... Esta é a 2ª edição, de 1932, de O Êxito Fácil. E com uma bela capa de Roberto Nobre.
Numa entrevista do
jornal O Diabo, de 10-2-1940, Ferreira de Castro diz o seguinte: «O desejo de produzir muitos livros de
qualquer maneira, para vender muito e ganhar muito dinheiro, nunca me embriagou
(…) Não me esqueço de que sou autor de uma novela que se intitula O Êxito Fácil – uma novela contra os
fáceis êxitos.»
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Ferreira de Castro,
O Êxito Fácil
24 de abril de 2019
"- Diz a Sua Majestade que quero vê-la nua.
- Vossa Majestade está louco.A cara que fez a dama ultrapassou os limites do estupor, mas restaram-lhe forças para desabafar com a sua amiga mais próxima, e esta com a sua vizinha, e, assim, a notícia deu imediatamente a volta ao salão e chegou até ao padre Villaescusa, com a sua carga de horror e de clarividência; o capuchinho compreendeu que, entre tanta gente, só ele tinha a razão do Senhor repartida entre o coração e a cabeça, e só ele sabia como havia que agir. Não se despiu: com paramentos e casula, permaneceu no altar e, ao descer dele, fez-se preceder pela cruz e pelos ciriais; deambulou assim por corredores e galerias, de modo que, quando o Rei se aproximou dos aposentos da Rainha, com intenção de entrar, topou com ele pela frente. E quando o Rei estendeu a mão para o puxador, a cruz atravessou-se-lhe diante da porta, em ângulo inclinado sobre o eixo vertical, e nos olhos inflamados do padre Villaescusa pôde ler um veto indiscutível. A sua mão largou o puxador, persignou-se e rodou sobre si próprio. O Valido estava ali, e o Rei confiou-lhe:
- Quero ver a Rainha nua.
E afastou-se com o mesmo rosto pasmado, embora nas suas pupilas já brilhasse a esperança."
(Crónica do Rei Pasmado, Gonzalo Torrente Ballester, Colecção Essencial, Livros RTP, pg. 42)
(Crónica do Rei Pasmado, Gonzalo Torrente Ballester, Colecção Essencial, Livros RTP, pg. 42)
23 de abril de 2019
«E, deixem-me dizer-lhes,
se entrassem na nossa sala dos criados em qualquer dessas noites, não teriam ouvido mera tagarelice; o mais provável seria assistirem a debates sobre as grandes questões que preocupavam os nossos patrões, no andar de cima, ou então sobre assuntos importantes relatados pelos jornais.» Kazuo Ishiguro, os Despojos do Dia [1989], trad. Fernanda Pinto Rodrigues, Lisboa, Gradiva, 1991, p. 20.
5 de abril de 2019
4 de abril de 2019
a 'pneumónica' em Vila Velha
«Um vago perfume de eucalipto queimado pairava nas ruas. Era o único sinal de combate que a Vila travava contra a morte. Vultos de preto cruzavam-se de longe, separados por uma barreira de medo. Em algumas casas uma luz mortiça escapava-se através das janelas, luz de velório ou visita de médico.» Álvaro Guerra, Café República (1982), 3.ª ed., Lisboa, o Jornal, 1984, p. 37.
23 de março de 2019
MÚSICA NO CORAÇÃO
"A 15 de Março, diante do palácio imperial, a toda a largura da praça, até à grande estátua equestre de Carlos de Áustria, a multidão, a pobre multidão austríaca, enganada, maltratada, mas em última análise aquiescente, está ali para aclamar. Quando se soerguem os horríveis andrajos da História, é isso que se encontra: a hierarquia contra a igualdade e a ordem contra a liberdade. De modo que, induzida em erro por uma ideia de nação mesquinha e perigosa, sem futuro, esta imensa multidão, frustrada por uma derrota precedente, estende o braço para o ar."
14 de março de 2019
fintar a vida
«Viajei, comi bem, fiz amor, trabalhei afincadamente no meu arquivo de anedotas que os meus amigos escolhiam por tema e eu desenrolava a eito depois do café, sem jeito nenhum, mais morto de riso do que eles. Fui fazendo tudo isso porque não sou de me deixar estar, a permitir que o mundo me esfregue sal na grande ferida que sou. Mas também nunca me deixei enganar por estes falsos expedientes.» Victória F., «Requerimento», Elogio da Infertilidade, Sintra, Câmara Municipal / Museu Ferreira de Castro, 2018, p. 6.
6 de março de 2019
a chegada da família real ao Porto
«Afinal chegava o cortejo. Os foguetes estouravam com um estampido digno do município; os vivas elevavam-se em um crescente ameaçador; uma nuvem de crianças precedia os batedores; tudo falava na sua passagem, tudo arrastava consigo; o povo pendurava-se às portinholas do carro em que vinha a família real, devorava com o olhar a rainha, o rei e os príncipes, e ficava como que espantado de os ver rir e conversar como simples mortais.» Júlio Dinis, Serões da Província [1870], Domingos Barreira Editor, Porto, 1945.
2 de março de 2019
4º CENTENÁRIO DA MORTE DE FREI AGOSTINHO DA CRUZ
A pedido do coordenador das celebrações comemorativas do 4º Centenário da Morte do Poeta Frei Agostinho da Cruz, que se cumpre no próximo dia 14 do corrente, aqui fica o convite.
Todos serão bem-vindos. Esta parte do programa decorrerá em Setúbal.
Posso desde já adiantar que no âmbito das celebrações se realizará um colóquio em Sintra, no dia 8 de Junho próximo futuro, com intervenção de especialistas na obra do poeta e de mim próprio. Oportunamente publicarei o convite.
F. Faria
27 de fevereiro de 2019
ELOGIO DA INFERTILIDADE
"Simplício viu o do bigodinho aprisioná-los juntos, sem ciúme aparente, por detrás da barra de segurança, viu as estrelas principiarem a mover-se num arco perfeito e transformarem-se em missangas, viu os pés a mulher, também eles perfeitos, nas sandálias rasas. Um instante soberbo.
Custava-lhe muito subir os olhos por ela acima porque o vinho evaporava rapidamente e com ele a coragem, mas de alguma forma conseguiu fazê-lo e viu-a devolver-lhe o olhar com uma imperturbabilidade demovedora. Mirava-lhe sobretudo as costas curvas, que ele se apressou a endireitar. Depois, muito inesperadamente, ela tocou-o, sacudindo-lhe os ombros. Apesar da vergonha da caspa, ele gostou que ela o tivesse tocado. - És um homem muito estranho - disse-lhe ela, continuando as escovar-lhe para fora das costas, com a mão, qualquer hipótese de desgraça. - O destino brinca às escondidas contigo. - E Simplício, em vez de lhe responder, encomendou a alma ao criador e beijou-a. O beijo durou o resto do tempo da viagem na roda gigante, mas assim que parou Irondina afastou-se a passo largo."
(Do conto 'Irondina', pag. 46-47)
Gostei muito do livro. Revela-nos uma escritora madura, dona de uma escrita inteligente, fluida e ritmada, hábil no uso da linguagem e na caracterização das personagens, e possuidora da arte do pormenor, que é, para mim, uma das pedras de toque da boa Literatura.
22 de fevereiro de 2019
A Batalha
Não podia faltar a referência à colaboração de Ferreira de Castro e não faltou.
A Batalha dos 100 anos
CM 1339 - Serranilha das bombas de Candedo
A estrada é serrana, erma, ventosa;
vi venir senhora obesa, torpe, andrajosa.
Vi-a venir detrás de barraca indecorosa;
cheguei-me per'ela com grã cortesia.
Cheguei-me per'ela de grã cortesia,
disse-lhe: senhora, tendes gasolina?
Disse-me: forasteiro, segui vossa via,
aqui só temos gasóleo agrícola.
Rui Lage, Estrada Nacional (2015)
vi venir senhora obesa, torpe, andrajosa.
Vi-a venir detrás de barraca indecorosa;
cheguei-me per'ela com grã cortesia.
Cheguei-me per'ela de grã cortesia,
disse-lhe: senhora, tendes gasolina?
Disse-me: forasteiro, segui vossa via,
aqui só temos gasóleo agrícola.
Rui Lage, Estrada Nacional (2015)
18 de fevereiro de 2019
Beldemónio e Bel-Adam (e Zola)
«Dans la pleine rase, sous la nuit sans étoiles, d'une obscutité et d'une épaisseur d'encre, un homme suivait seul la grande route de Marchiennes à Montsou, dix kilomètres de pavé coupant tout droit les champs de betteraves. Émile Zola, Germinal (1885)
«Na planície rasa, sob a noite sem estrelas, de uma escuridão crassa de tinta, um homem seguia sozinho a estrada de Marchiennes a Montsou, dez quilómetros de caminho a direito, por entre campos de beterrabas.» Tradução de Beldemónio (Eduardo Barros Lobo, 1885)
«Na planície rasa, sob a noite sem estrelas, de uma escuridão crassa de tinta, um homem seguia sozinho a estrada de Marchiennes a Montsou, dez quilómetros de caminho a direito, por entre campos de beterrabas.» Tradução de Beldemónio (Eduardo Barros Lobo, 1885)
«Na planície rasa, por uma noite escura, sem estrelas, um homem seguia sozinho a estrada real de Marchiennes a Montsou, dez quilómetros de caminho a direito, através os campos de beterraba.» Tradução de Bel-Adam (Severino de Carvalho, 1903)
«Devant lui, il ne voyait même pas le sol noir, et il n'avait la sensacion de l'immense horizon plat que par les souffles du vent de mars, des raffales larges comme sur une mer, glacées d'avoir balayé des lieues de marais et de terres nues.»
«Adiante do nariz não via nem sequer o chão negro; e não tinha a sensação do imenso horizonte plano senão pelos bafos do vento de Março, rajadas largas como no mar alto, glaciais de terem varrido léguas e léguas de pântanos e de terras escalvadas.» (Beldemónio)
«Não via sequer o chão negro, e do imenso horizonte chato só tinha a sensação pelos corpos rijos do vento de Março, rajadas largas como no mar, glaciais de terem varrido léguas e léguas de pântanos e terrenos escalvados.» (Bel-Adam)
«Aucune ombre d'arbre ne tachait le ciel, le pavé se déroulait avec la rectitude d'une jetée, au milieu de l'embrun aveuglant des ténèbres.»
«Nem sombra de árvore manchava o céu; a estrada desenrolava-se com a prumada de um quebra-mar, em meio das trevas obcecantes» (Beldemónio)
«Nem sombra de árvore manchava o céu; a estrada desenrolava-se com a prumada de um quebra-mar, em meio das trevas obcecantes» (Beldemónio)
«Nem sombra de árvore manchava a atmosfera; a estrada desenvolvia-se com a planeza dum quebra-mar, no meio da cerração obcecante das trevas.» (Bel-Adam)
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traduções
15 de fevereiro de 2019
1 de fevereiro de 2019
MAUS, a vinheta inicial
Art Spiegelman, Maus - A História de um Sobrevivente (1980)
trad., Fernando Amorim, Lisboa, Difel, 1988, p. 4
31 de janeiro de 2019
o top de 2018
1.º Germinal, de Émile Zola (8 votos)
2.º Os Despojos do Dia, de Kazuo Ishiguro (6 votos)
3.º A Tempestade, de Ferreira de Castro (4 votos)
4.º Maus, de Art Spiegelman; Ilhéu de Contenda, de Teixeira de Sousa (3 votos)
6.º O Romancista Ingénuo e o Sentimental, de Orhan Pamuk; Insanus, de Carlos Querido; Um Muro no Meio do Caminho, de Julieta Monginho (1 voto)
sem votos: Donde Viemos - História de Portugal I, de António Borges Coelho; Café República, de Álvaro Guerra; Malditos -- Histórias de Homens e de Lobos, de Ricardo J. Rodrigues
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top 2018
23 de janeiro de 2019
chão sem cadáveres e céu sem explosões
«Da raiz à nuca é escura como os olhos de Asmahn, esmorecida, como agora estão os olhos, em confronto com uma espera infinita, numa ilha que lhe oferece pouco mais do que o chão sem cadáveres e o céu sem explosões.» Julieta Monginho, Um Muro no Meio do Caminho, Porto, Porto Editora, 2018, pp. 39-40.
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