MADAME BUTTERFLY, VELHA
Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.
Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.
E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.
E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.
Pedro Tamen (Lisboa, 1934 - Setúbal, 2021),
Analogia e Dedos (2006)