29 de junho de 2026

101 poemas portugueses - #76


Eu sabia por ela as estações
os esquilos os corvos as gaivotas.
Chegada a primavera abria os nós
em flores precipitadas e carnudas
de longas redondezas tacteantes
que batiam no vidro da janela.
Não dava fruto a minha castanheira
e na verdade não era sequer minha
ou só seria porque nos olhámos
cada manhã por mais de trinta anos.
Mas dava flores e esquilos e gaivotas
verão outono corvos primavera
sem contabilidades biológicas
doutras fertilidades transmissíveis.
Dava flores como se desse versos
sem precisar por isso de escrevê-los
como os amantes se amam num só corpo
sem ver onde um começa e o outro acaba
aberta toda em lábios vaginais
com uterinos longos falos brancos.
Também este ano floriu no tempo certo.
Mas o inverno chegou em plenas maias.
Disseram que a raiz rachou ao meio
que o centro do seu tronco estava oco
não percebiam como tinha flores.
Cortaram membro a membro a minha árvore
ficou só a raiz e o seu vazio
e sobre o campo em volta a neve quente
das suas flores perplexas
impossíveis.

Helder Macedo (Krugerdrop, África do Sul, 1935)
Viagem de Inverno (1994)

19 de junho de 2026

ENTREMENTES CONVERSAS (DES)CONFINADAS - 2.ª edição

Esgotada, há muito, a 1.ª edição de ENTREMENTES CONVERSAS (DES)CONFINADAS do confrade J. A. Marcos Serra e de Carlos Paiva Neves, acaba de ser disponibilizada, em suporte digital, a 2.ª edição (revista e complementada), livre para leitura, descarga ou impressão, sem fins comerciais.
Se lhe interessam temas como questionamentos filosóficos, religiosos, teorias de reencarnação, espiritualidade e espiritismo (por antítese ao materialismo e consumismo sem freio), parapsicologia, hipnotismo, fenómenos sociais, ambiente e futuro do planeta, humanidade (e as suas dimensões de alma, espírito, mente, emoções, corpo e vida), humanismo e outros, resultantes de uma troca de missivas entre duas historicidades que ousam dialogar sem proselitismo nem totalitarismo nem pretensiosismos, que só a ignorância pode alimentar, disponha livremente para uma leitura calma, que conduz ao imo de cada um.
Se os temas não lhe interessam, pode sempre informar amigos que gostem destes assuntos.
Deixo-lhe a hiperligação da 2.ª edição.
Boas leituras, em paz e bem.

as aberturas de CONTOS BÁRBAROS

9. «Maria de Lurdes». «Essa tal menina, Senhor Mendonça, enquanto esteve cá na parvalheira, deu-se muito bem com todos os vizinhos.»

8. «Os livros do Diabo». «Amigo de saias como aquilo não no houve nem no tornará a haver tão cedo cá na freguesia.»

7. «O vestido branco». «Mal me formei, em vez de me ficar pela cidade à espera de emprego ou de noiva rica, meti-me na aldeia, em casa de meus pais, lavradores de trinta pipas de vinho de consumo.»

6. «A Quinta do Algarve». «Se eu contasse a Vossa Senhoria esta história, Vossa Senhoria enchia-se de rir...»

5. «O Doutor Hermenegildo». «Saiu de casa à tardinha para dar o passeio do costume.»

4.«A Mimosa de Carrapatelo». «Em todo o Carrapatelo não havia o que se diz uma árvore!»

3. «Os Figos de Pau». «O tio António Chapeleiro -- assim chamado, porque a sogra, falecida havia muitos anos, fabricava de sua mão chapéus de palha centeia e os vendia nas feiras --, era um velhote rijo e conservado como trave de castanho cortado em boa lua.»

2. «Milagre». «Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas.»

1. «A Velha das Panelas». «Debaixo do grande carrego dos púcaros, tão grande, que tapava o sol, a velha sacudia os pés nus sem tropeção, pós-catrapós, à flor das pedras, em caminhos que se estiravam desde a Candelária, subindo e descendo montes, preguiçosamente, até o campo da feira.»

João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.

13 de junho de 2026

101 POEMAS PORTUGUESES - #75


MADAME BUTTERFLY, VELHA


Engano: não, não me matei,
suguei
a vida que outros deram.

Gueixa nasci e aqui estou de gueixa,
borboleta que fui, borboleta que sou,
mosca, ah, sim, mosca,
mas de manteiga.

E envelheço porque não morri.
Envelheço? Não pode envelhecer
quem sempre foi assim.
Dizem-me velha? Olhem-me as pinturas:
todos os dias chegam barcos,
barcos, marinheiros,
todos os dias chegam.

Pedro Tamen (Lisboa, 1934 - Setúbal, 2021),
Analogia e Dedos (2006)