24 de setembro de 2026

A BUGANVÍLIA

 


Extractos de um longo texto da nossa colega MARIA JOSÉ ALBARRAN DE CARVALHO. Selecção da minha exclusiva responsabilidade. Nele se vê que como fonte inspiradora não há só a buganvília de Gedeão.


Na esplanada traseira do meu espaço residencial ergue-se, a meia dúzia de metros, exuberante trepadeira na sua cor violeta avermelhada, folhagem verde-escuro. Um sol. Arbusto trepador na origem, hoje árvore de grosso tronco. Uma buganvília! Não perde a folhagem em lâminas. As flores são tubulares, de abril a setembro. Pouco se podam caules lenhosos e espinhosos. Um ciclo perene de beleza, todavia nascendo e morrendo.

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Resido num espaço sénior desde os 79 anos – “Viva Vitae” do Panorama Sénior.

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Tive a lucidez de observar a progressiva decadência: não aguentar ir às compras, carregá-las, cozinhar de pé; incapaz de me ocupar da limpeza da casa, das roupas, trem de cozinha e afins; ter-me tornado incompetente para gerir as burocracias e os aborrecimentos da vida, entre muitas responsabilidades cansativas que a net pode auxiliar a quem a saiba usar, não a mim. De coluna atingida por maleitas degenerativas e crónicas, com a vértebra desfeita – onde se instalaram dois quistos – sofrendo crises de ciática, além de cardíaca grave e diabética, compreendi só me restar a cabeça em funcionamento pleno 

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Um universo tipo felliniano me rodeia e atrai. Que entes são estes? Antigos profissionais de espírito circulam de olhar perdido, bebendo um gole de cada copo... Travar diálogos, com que significância? Um desertor da guerra colonial, graduado, no seu fechado mundo, outros de carreira tentam comunicar, e conseguem-no em sucessão de gaguejos, ainda mais dificilmente se movem. Os cuidadores de inesgotável criatividade, serenos e de fôlego, são oriundos do Brasil e dos PALOP... Aqueles confraternizam, estimulam a auto estima; estes, abnegadamente delicados, animam-nos.

(…)

Os medíocres, irresponsáveis predadores estatais, vêm desistindo da longevidade, não protegem os seus mais velhos e atiram a culpabilidade de más opções, furúnculos da democracia, para nenhures, ou seja, para os outros, isto é, o RINOCERONTE! Unamo-nos contra essa imagem do mal, sob a buganvília resplandecente... Oiço aplausos e uma funda, frontal gargalhada. É a buganvília!

(…)

À sombra da frondosa buganvília, densamente cerrada, admiro, das janelas traseiras, numa merecida pausa, em refeições, sempre sorridentes e em desvelada atenção aos residentes, os membros da maravilhosa e terna plataforma de assistentes – deixo-lhes elevada menção de excelência, em vénia de franca admiração.

23 de setembro de 2026

101 poemas portugueses - #78

 


Juntei-me um dia à flor da mocidade
partindo para Angola no Niassa
a defender eu já não sei se a raça
se as roças de café da cristandade

a minha geração tinha a idade
das grandes ilusões sempre fatais
que não chegam aos anos principais
por defeito da própria ingenuidade

a guerra era uma coisa mais a Norte
de onde ela voltaria havendo sorte
à mesma e ancestral tranquilidade

azar de uns quantos se pagaram porte
esses a que atirou a dura morte
diz-se que estão na terra da verdade


Lisboa
28-IV-94

Fernando Assis Pacheco (Coimbra, 1937 - Lisboa, 1995),
Respiração Assistida (2003)

2 de setembro de 2026

101 poemas portugueses - #77

 

IN MEMORIAM


Requiem aeternum dona eis,
                                                                                                                                                                   Domine, et lux perpetua
                                                                                                                                                                                          luceat eis.»


Que a terra lhe seja pesada.
Que lhe apodreça o corpo e os olhos fiquem vivos,
Se lhe soltem os dentes e a fome fique intacta
E a alma, se a tiver, que lha fustigue o vento
E arrase com ela a memória gravada
Na lembrança demente dos que o choram.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Cheio de ossos e uivos
E garfos aguçados
E que reparta o medo com o primeiro intruso
E o vento se insinue pelas portas fechadas
E rasteje no quarto
E suba pela cama
E lhe entre no olhar como estiletes de aço
Lhe penetre os ouvidos como agulhas de som,
Lhe emaranhe os cabelos como um nó de soluços,
Lhe desfigure o rosto como um ácido em chama.

Que a mulher que foi dele oiça o vento na noite,
Que a mulher que foi dele oiça o vento na cama!

Que o nome que era o seu o persigam os ecos,
O gritem no deserto as gargantas com sede,
O murmurem no escuro os mendigos com frio,
O clamem na cidade as crianças com fome,
O soluce o amante de súbito impotente,
O maldigam no exílio as almas sem descanso

Que o nome que era o seu seja a bandeira negra,
A pálpebra doente,
O vómito de sangue..

Que o gesto que era o seu o imitem as mães
Que se torcem de dor quando abortam nas trevas,
O desenhem a lume os braços amputados,
O perpetue o esgar dos jovens mutilados,
O dance o condenado que morre na fogueira.

Que o gesto que era o seu seja o punhal do louco
A arma do ladrão
A marca do vencido.

Que o sangue que era o seu seja o rictus da tara,
A máscara de sal,
A vingança do pobre.
E que o Exterminador, no seu trono de enxofre,
O faça tilintar os guizos da tortura
Até que o mundo o esqueça
E mais ninguém o chore.

José Carlos Ary dos Santos (Lisboa, 1936-1984),

A Liturgia do Sangue (1963)