24 de novembro de 2011

despojamento

Era uma pequena casa de camponeses. Uma casa nua, onde só estavam escritos os gestos da vida. Havia uma cozinha e dois quartos. Num rebordo da parede de cal estava colocada uma imagem; em frente da imagem ardia uma lamparina de azeite; ao lado, alguém poisara um ramo de flores bentas na Páscoa.

Sophia de Mello Breyner Andresen, «A viagem», Contos Exemplares, Lisboa, Portugália Editora, s.d., pp. 90-91.

22 de novembro de 2011

grande prosa de altíssimo poeta

A filhita do carvoeiro, bonita e suja como uma moeda, brilhantes os olhos negros e rebentando sangue os lábios pretos entre a fuligem, está à porta da choça, sentada numa telha, adormecendo o irmãozinho.

Juan Ramón Jiménez, Platero e Eu, tradução de José Bento, Lisboa, Livros do Brasil, s.d., p. 57.

16 de novembro de 2011

no país da infância

     Estendido onde a sombra lhe parecera mais agradável, Manuel da Bouça seguia o trabalho da ave e recordava o tempo da infância, já distante, em que vasculhava veigas e montes à busca de ninhos, só pelo prazer de os descobrir e disso se vangloriar ante o rapazio do lugarejo. Outrora não teria hesitado e, zape-zape, pinheiro arriba, iria ver em que estado se encontrava o novo berço e voltaria, depois, pelos ovos ou pelas avezitas ainda implumes, as pálpebras cerradas e o biquito glutão semiaberto ante qualquer ruído. Mas, hoje, só se fosse em pinheiro baixo e de gaio ou de rola, que eram bons com arroz.
     Felizes esses tempos em que pastoreava a cabra pelas barrocas, roubava maçãs na quinta do Almeida e seguia, na Primavera, o voo dos pássaros de ramo em ramo!

     Ferreira de Castro, Emigrantes, 24.ª edição, Lisboa, Guimarães Editores, 1988, p. 20.

Saramago, 89

José Saramago nasceu há 89 anos, na Azinhaga, Golegã
(caricatura de Carlín, daqui)

13 de novembro de 2011

fim de festa com panache

Aquele mundo estava a acabar para eles, em África; penso que ninguém ali poria isso em causa não obstante todos os discursos e todo aquele cerimonial; mas estavam todos à vontade, a usufruir do momento, enchendo o velho salão com conversas e risos como quem não se importa, como quem sabe viver com a história. Nunca admirei tanto os portugueses como naquela altura. 

V. S. Naipaul, Uma Vida pela Metade, tradução de Maria João Delgado, 4.ª edição, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003, p. 174.

8 de novembro de 2011

VOLÚPIA, Florbela Espanca

No divino impudor da mocidade,
Nesse êxtase pagão que vence a sorte,
Num frémito vibrante de ansiedade,
Dou-te o meu corpo prometido à morte!

A sombra entre a mentira e a verdade...
A nuvem que arrastou o vento norte...
-- Meu corpo! Trago nele um vinho forte:
Meus beijos de volúpia e de maldade!

Trago dálias vermelhas no regaço...
São os dedos do sol quando te abraço,
Cravados no teu peito como lanças!

E do meu corpo os leves arabescos
Vão-te envolvendo em círculos dantescos
Felinamente, em voluptuosas danças...

Eros de Passagem -- Poesia Erótica Contemporânea, selecção e prefácio de Eugénio de Andrade, Porto, Limiar, 1982, p. 21.

(lido na sessão de 4 de Novembro de 2011)

7 de novembro de 2011

Saramago despista-se

     Para que não haja dúvidas: sou um admirador de José Saramago, considero-o um grande escritor, um merecido Prémio Nobel. Li seis dos seus romances (Levantado do Chão, Memorial do Convento, O Ana da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra, Ensaio Sobre a Lucidez e A Viagem do Elefante), além de As Pequenas Memórias e a peça A Noite. Tenho especial interesse na História do Cerco de Lisboa, O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio Sobre a Cegueira, e também pela peça In Nomine Dei, os três primeiros com anos de espera na minha pilha infinita.
     Começando por referir-me ao que gostei nesta leitura dum livro que não apreciei: o uso rigoroso da palavra; as digressões já não garrettianas mas já muito saramaguianas -- característica própria que nele aprecio; a ironia, o sarcasmo; piscadelas de olho maliciosas ao leitor.
     Tal como não gostei da Jangada de Pedra, um romance desiquilibrado (aliás o próprio escritor admitiu algures o seu falhanço), também este Ensaio Sobre a Lucidez não me satisfez. Saramago a certa altura perdeu a mão, despistou-se, algo que ele também reconhece, lúcido romancista, desta vez no próprio corpo do texto (p. 188).
     A história é conhecida: os eleitores de uma cidade capital, mais de 80%, decidem expressar o seu voto de forma inusitada: depositam na urna o boletim em branco. Em presença estão três força políticas: o partido da direita (no governo), o partido do meio e o partido da esquerda. Os dois primeiro representam o establishment; o último está nele (digamos: pdd=psd[+cds?]; pdm=ps; pde=pcp). A partir daqui, o autor construiu uma trama em que um movimento popular de claras tendências anarquizantes (não esquecer que anarquismo é uma palavra de sentido positivo e nobre, com um laivo de utopia  que nada tem que ver com desordem e vocábulos equivalentes, apesar de se ter generalizado a percepção contrária) afronta dessa forma o poder instituído, que se sente ameaçado e irá ripostar.
     E como riposta, nesta ficção de Saramago, um governo de um sistema demo-liberal? Com a determinação e a violência de uma junta militar chilena, em 1973, ou polaca em 1981. Os freios e contrapesos de um sistema demo-liberal é coisa que não se vislumbra: nem parlamento nem tribunal constitucional, para não falar na imprensa -- a que conta, mancomunada com os interesses do Estado; a que não conta, residual. Existe o governo e o pr, do pdd; o pdm só existe porque o narrador nos afirma que ele existia, mas não passa de uma extensão do primeiro; o pde, o terceiro partido, não está na origem desta sedição eleitoral, mas identifica-se com, e os militantes apoiam-na, que remédio. Não sei se é por ser tão absurda esta parte do romance que o autor nele se perdeu, inflectindo a narrativa numa direcção investigatória e policiária, recorrendo a personagens do Ensaio Sobre a Cegueira, cosidas à trama inicial de uma forma bastante atabalhoada.  Há, portanto, uma incongruência e uma inverosimilhança intrínsecas ao romance que são irreparáveis.
     Sem querer ser injusto, partindo do esquema ideológico do autor, de base totalitária e fundamentalmente antiliberal, a denúncia simplista de uma espécie de ditadura democrática carece de base de sustentação, é inaplicável aos velhos estados democráticos e até aos menos velhos, como o nosso. O próprio sobressalto libertário do povo da cidade fica em suspenso (o que talvez não admire, sendo o anarquismo por alguns qualificado como o mais socialista dos liberalismos ou o mais liberal dos socialismos...). É evidente que quotidianamente assistimos a inúmeros entorses à democracia, que todos os estados democráticos cometem acções que extravasam e violam grosseiramente a legalidade (lembremo-nos dos serviços secretos franceses e do barco da GreenPeace; ou do estado espanhol e os GAL...), e que o poder, regra geral, se exerce antes de tudo para ser conservado. Mas o que é inestimável numa sociedade aberta é, entre outras coisas, a livre circulação da informação; e só ela permite que as populações tomem consciência e resistam aos abusos de poder perpetrados pelos governantes. Como dizia o velho Churchill, não há pior sistema que a democracia, à excepção de todos os outros.
    No fundo, o que quer Saramago com este livro? Denunciar o sistema? Francamente, é pouco.

6 de novembro de 2011

Sophia, 92

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu há 92 anos, no Porto.
(desenho de Árpád Szenes)

3 de novembro de 2011

O REFERENDO

O primeiro-ministro, olhando o ministro do interior e o ministro da defesa, o olhar gelado como naquele dia em que a democracia fora abalada com a votação em branco de mais de oitenta por cento dos eleitores, disse, Então o presidente da câmara vai realizar um referendo, assim se dá mais uma machadada no nosso sistema democrático, Um referendo, qual referendo, perguntou o ministro da defesa, o que comprava submarinos como quem enche o saco das compras de latas de feijão, ao que o ministro do interior respondeu, Um referendo sobre o estado de sítio democrático que foi imposto à capital, então o colega não sabia, Eu não, eu habituei-me a saber das notícias pelos telejornais, mas um referendo, francamente, uma consulta popular, é algo que pode abalar os fundamentos do nosso ordenamento constitucional, é o abrir de uma caixa de Pandora, o fim da nossa querida moeda única e da nossa união nacional, Presidentes da câmara como este, assentiu o ministro do interior, deviam ser imediatamente escorraçados do seio da democracia, interrogados diante do polígrafo, pestíferos que querem dar voz aos brancosos e arruinar os fundamentos da nossa civilização e de todos os estados de sítio democráticos por nós criados para salvação dos povos, amém.

(Texto apócrifo de um ensaio sobre a lucidez)

2 de novembro de 2011

Morte ao Meio-dia, Ruy Belo

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

O português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer