11 de março de 2026

as aberturas de PALAVRAS NÓMADAS

28. «Parlez-vous français?» «Aeroporto de Luang Prabang, 11 de Fevereiro de 2018.»

27. «As amendoeiras de Pequim». «De repente, sinto esse sopro.»

26.«Em Amesterdão, na ronda da noite». «Entro no mundo de Rembrandt.»

25. «Da metamorfose das papoilas à identidade mediterrânica». «Cruzamos as estradas da Toscana, rumo a San Gimigniano, Sienna e às Terras do Chianti.»

24. «Londres ou "o outro lado do espelho"». «Quando se chega a Londres, vinda do Extremo Oriente -- mesmo sendo o dia após o atentado na London Bridge -- invade-nos a estranha sensação de termos passado para o "outro lado do espelho", para um mundo, uma realidade diferente daquela onde mergulha agora o nosso quotidiano lá do outro lado do mundo.» 

23. «A sombra de Lovecraft sobre Providence». «O meu reencontro com Howard Philipps Lovecraft aconteceu em Fevereiro de 2013 quando aproveitei a pausa lectiva motivada pelo início do Ano Novo Chinês (dessa vez o da Serpente) em Macau, para uma semana de investigação nas bibliotecas da Brown.»

22. «Em Istambul, pela mão de Orhan Pamuk». «Istambul é a doçura vermelha de uma romã aberta, a mão de Pamuk a guiar-me pelo labirinto de ruas, o som de uma oração dolente, derramando-se de uma qualquer mesquita, a gotejar serena.»

21. «As encruzilhadas do feminismo -- de Salem ao insustentável peso do ar condicionado». «Participei, há uns anos, na Universidade de Harvard, numa Escola de Verão promovida pelo Instituto de Literatura-Mundo». 

20. «O marido imaginário». «No aeroporto de Kuala Lumpur, o meu olhar procura, em vão, um papel com o meu nome.»

19.«Siem Reap: nas pegadas de Loti, com um tuk-tuk, dois elefantes e uma mariposa». «Dois elefantes ao longe, derramando o peso dos seus passos dolentes no pó do caminho, ao encontro da noite a descer também devagar a sua cortina.»

18. «We no Happy... we go!» «Partimos para Sanya, Hainão, num fim de semana alargado de Dezembro, sonhando com sol, banhos azuis no cálido imaginado Mar da China.»

17. «No dentista com o Pikachu». «Uma ida ao consultório de dentista nunca é uma experiência agradável nem desejada.»

16. «A via crucis da pele». «Há uns bons anos que a minha pele começou a ser abundantemente habitada de numerosos sinais, alguns deles a requererem certa vigilância, já que, resumindo, "sou uma moça com muita pinta".»

15. «Das uniões de facto aos tentáculos burocráticos». «Recordo uma canção da banda "Xutos e Pontapés", já com uns bons anos, intitulada "voar"  que começa assim: "Eu queria ser astronauta / o meu país não deixou".»

14. «Irrealidades oníricas». «Sabem aqueles sonhos em que vamos trabalhar nus ou em camisa de dormir?»

13. «Entre a corrida e a arte da palavra». «Durante anos, no início da década de noventa, quando era aluna de licenciatura, na Universidade de Évora e travessava o jardim (ao qual ironicamente chamávamos Hyde Park), a caminho do edifício do Colégio do Espírito Santo, sonhava estender-me na relva durante horas a ler, a contemplar o céu, em suave sintonia com as nuvens.»

12. «Lou Lim Leoc». «Passamos o portão, entramos num reino de magia.»

11. «No reino das lâmpadas». «Acordarmos de manhã cedo com o pescoço dorido e decidirmos comprar uma almofada mais confortável pode ter consequências verdadeiramente imprevisíveis.»

10. «Dia de São Pedreiro». «O processo de procura de casa em Macau é algo que ultrapassa as fronteiras da mais fértil imaginação.»

9. «A chegada: no dorso do dragão». «Chega-se a Macau, a chamada "Las Vegas do Oriente", depois de 27 horas de viagem, uns emplastros nas costas, curvada devido a fortes dores que começam a habitar o corpo na véspera.»

8. «Macau -- cheiros, sabores e saberes colados à alma». «Vi Macau, pela primeira vez, em Agosto de 1991 -- um prémio de escrita inesperado, quando terminara o primeiro ano da minha licenciatura -- conduziu-me àquele universo, onde tudo era diferente, e, ao mesmo tempo, embrulhado na breve névoa da familiaridade.»

7.  «Em Amherst: no universo de Emily Dickinson». «Uma carícia fria a semear salpicos de branco no rosa-dourado, nos múltiplos tons de castanho das árvores.»

6. «Numa esquadra em Montevideu: entre as paredes do devaneio». «Estamos na esquadra da polícia de Montevideu.»

5. «Pouca sorte com cabeleireiros». «Manhã de luz em Montevideu, um sol de inverno que brilha mas não aquece.»

4. «Da identidade provisória e amarela». «Estou novamente nessa longa fila, numa rua erma, escondida da Cidade Velha, de uma decadência cinzenta a escamotear tempos áureos já quase esquecidos, junto ao edifício das migrações, a destoar do panorama humano que me rodeia.»

3. «O dragão da biblioteca». «Entro agora na biblioteca da Faculdade de Humanidades da Universidade da República Oriental do Uruguai.»

2. «A visitante». «Abro as portas da memória e entro num dia de Março de 2002, uma página de calendário já desbotada, arrancada dos muros escorregadios do tempo.»

1. «Voo para um novo tempo». «Revejo aquele 30 de Novembro de 2001 como uma espécie de retrato a sépia posto em cima da cómoda da memória, as horas atribuladas, a ida de comboio para Lisboa, depois de táxi para o aeroporto.»


Dora Nunes Gago, Palavras Nómadas, Vila Nova de Famalicão, Húmus, 2023.

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5 de março de 2026

as aberturas de FLORES AO TELEFONE

4. «Os doces braços da noite»: «Estava ali a olhar para os pais e a ouvi-los, e ao mesmo tempo a sentir que algo de si ficara a vaguear, esquecido ou perdido, no escritório do tio Jaime, não viera com ela.»  

3. «O casamento»: «O padre disse:»

2. «A estranha ressonância do nome de Alma». «A mulher rompeu o silêncio e disse: "Queres ouvir, Hermes?"»

1. «Flores ao telefone». «A mulher pegou no auscultador subitamente vivo, ser-objecto preto e luzidio, às vezes repugnante quando vomitava coisas sujas de que ela não gostava, embora as devorasse, esfomeada, pegou-lhe e disse numa voz ausente, demasiado fria, voluntariamente fria, que estava, sim, que era ela, sim.»


Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.

3 de março de 2026

as aberturas de CONTOS BÁRBAROS

6. «A Quinta do Algarve». «Se eu contasse a Vossa Senhoria esta história, Vossa Senhoria enchia-se de rir...»

5. «O Doutor Hermenegildo». «Saiu de casa à tardinha para dar o passeio do costume.»

4.«A Mimosa de Carrapatelo». «Em todo o Carrapatelo não havia o que se diz uma árvore!»

3. «Os Figos de Pau». «O tio António Chapeleiro -- assim chamado, porque a sogra, falecida havia muitos anos, fabricava de sua mão chapéus de palha centeia e os vendia nas feiras --, era um velhote rijo e conservado como trave de castanho cortado em boa lua.»

2. «Milagre». «Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas.»

1. «A Velha das Panelas». «Debaixo do grande carrego dos púcaros, tão grande, que tapava o sol, a velha sacudia os pés nus sem tropeção, pós-catrapós, à flor das pedras, em caminhos que se estiravam desde a Candelária, subindo e descendo montes, preguiçosamente, até o campo da feira.»

João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.

16 de fevereiro de 2026

o início de A LETRA ESCARLATE

«Defronte de um edifício de madeira, cuja porta fortíssima, em carvalho, era guarnecida com pregos de ferro, estacionava uma multidão compacta de homens de barbas, com seus fatos de cor escura ou acinzentada e chapéus de copa muito alta, juntamente com mulheres, umas de touca e outras em cabelo.» Nathaniel Hawthorne, A Letra Escarlate [1850], trad. Aurora Rodrigues (Dora), Lisboa, Edição Romano Torres, 1955, p. 9.

8 de fevereiro de 2026

nota sobre O BANQUEIRO ANARQUISTA, de Fernando Pessoa

                                                                            I

Conto publicado na Contemporânea n.º 1 (1922) – revista para gente civilizada e para civilizar gente

Literariamente é uma novela de raciocínio em que se trabalha a destreza argumentativa; politicamente é uma blague, uma vez que o banqueiro não é efectivamente anarquista, embora queira convencer o interlocutor de que o é.

Posicionamento político de Fernando Pessoa: uma direita não alinhada, embebida de um nacionalismo místico, mas também mítico, contrastando com a decadência do país, que vem do século anterior.

Era um admirador contido do fascismo de Mussolini – também ele evocador de um passado mítico, brutal, vigoroso e tecnicamente progressivo (Marinetti, um fascista) – e detestava Salazar pelo que este representava de passadismo, ruralismo, seminarismo…

E detestava ainda mais todas as ideias democráticas, revolucionárias e de esquerda, socialistas, anarquistas ou bolchevistas.

Talvez seja por isso que ele caracteriza os “falsos” anarquistas como “esses parvos dos sindicatos e das bombas” (p. 23)

 

II

 

Senão, vejamos:

a glorificação ultra individualista do salvar-se a si próprio deixando de ser dominado pelo dinheiro, possuindo-o – nunca seria libertação, uma vez que se escravizou a esse desígnio: ter dinheiro para não ser dominado por ele e, naturalmente, todo esse capital acumulado na banca e nos negócios, se preciso de uma forma desleal, como confessa o banqueiro (p. 54), são incompatíveis com a ética e a moral anarquistas – até porque tal só seria conseguido, mais do que pelo engano, pela exploração dos outros.

Pessoa era suficientemente informado, embora pudesse detestar o anarquismo, de que nem este é incompatível com a actividade bancária ou comercial – previstas por Proudhon pelas mutualidades e pelas cooperativas. Mas isso já lhe estragaria o argumentário.

Outra fraqueza conceptual deste conto ou novela de raciocínio, reveladora aliás do preconceito do autor é a caracterização do anarquismo como algo que se concentra «nos tipos dos sindicatos e das bombas» (p. 22). Esta é uma expressão parcelar, incompleta e distorcida, no fundo a visão do vulgo burguês, pouco condizente, de resto, com as pretensões de uma revista de elite ou para as elites.

Sim, há um anarquismo individualista ou ultra-individualista, que põe o Eu em primeiro lugar, não caindo na imoralidade cínica do banqueiro pessoano que para se livrar a si escraviza forçosamente os outros, com a pobre desculpa que essa tirania já existiria, e que portanto ele limitou-se a utiliza-la, garantindo assim o anarquismo de um, o seu próprio.

Em segundo lugar, “os tipos das bombas” são uma corrente ultraminoritária do movimento anarquista, que provocou muitos estragos à própria ideia, entre finais do século XIX e o princípio do XX, execrada pela larguíssima maioria das correntes e equiparadas a puro banditismo e marginalidade. Foi o que ficou no imaginário.

Também a ideia de que o anarquismo é uma corrente que provém do lúmpen social e proletário faz sorrir, se pensarmos nos nomes de algumas das suas maiores figuras: um conde Tolstói, um príncipe Kropótkin, um Malatesta, filho de um latifundiário pertencente a uma das grandes famílias nobres italianas desde a Idade Média. E só falo em aristocratas, podia falar doutros casos como o geógrafo Reclus, filho de um pastor protestante ou do nosso Neno Vasco, ou seja Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós e Vasconcelos, jurista e revolucionário, filho de um abastado comerciante do Norte. Não foi Francisco de Assis, esse anarquista avant la lettre, um jovem rico que se despojou dos seus bens?

 III

A construção é/parece perfeita; os pressupostos estão errados; logo, a conclusão é falsa.

24 de janeiro de 2026

101 poemas portugueses - #75

 

ARDE UM FULGOR EXTINTO

Arde um fulgor extinto
no longe da tarde agoniada.
Não me pesaria tanto
a caminhada se, em lugar do dia,
no seu extremo achasse a noite.

Exacta e concisa é a claridade.
Não mente à luz o que a noite
ilude. Terrível destino
o de quem é nocturno à luz solar.

Não vos ponha em cuidado,
porém, este meu penar:

são palavras e não sangram
.

Rui Knopfli (Inhambane, 1932 - Lisboa, 1997)
Mangas Verdes com Sal (1969)

19 de janeiro de 2026

Um poema de Carlos Poças Falcão

 
"É na fragilidade do teu nome que resguardas
palavras para um tempo de secura e de esquecimento.
A liberdade ampara-as e o desejo pronuncia-as
até que sejam corpo de teu corpo e irradies.

Não é de muita água que precisa o dia fértil
numa concha da palavra é ouvido o mundo todo
- e a vida vai fendendo as durezas mais rugosas
não como veios de água ou aflorações do sangue
mas com uns versos frágeis e volantes, quase ditos.

Do poema é a voz pobre. Respirando a céu aberto
ele vem da escuridão, já perdido de si mesmo.
Até que ouça luz de alguma luz - e fique escrito."


Carlos Poças Falcão em "Sombra Silêncio"
Opera Omnia
Outubro de 2018

16 de janeiro de 2026

o início de O BANQUEIRO ANARQUISTA

«Tínhamos acabado de jantar.» Fernando Pessoa, O Banqueiro Anarquista [1922], Lisboa, Guerra & Paz, 1921, p. 21.  

10 de janeiro de 2026

101 poemas portugueses - #73

 

Ferido de inocência desde sempre

Boston

Novembro 90


Alberto de Lacerda (Ilha de Moçambique, 1928 - Londres, 2007),

Átrio (1997)