31 de outubro de 2025

NOVAS CARTAS PORTUGUESAS, a alegria da literatura



A meio da releitura, pensava como a literatura nos pode preencher.

Novas Cartas Portuguesas não é apenas um dos grandes livros do século passado, obrigatório numa lista muito curta; atrevo-me a escrever que se trata de um dos grandes livros da nossa história literária, em forma e fundo.

Apesar de não estar tipificado quanto ao género literário -- pois que tudo esta obra encerra -- não me repugna nada arrumá-lo (gosto de arrumações) ou inscrevê-lo como romance. Estarei certo, errado, certo e errado?

Livro feminista -- na mais nobre acepção do termo, que outra não deveria haver --, percebemos que 1972 é passado. Mas quão passado é?

Dois pontos para debate, no próximo dia 7.

16 de outubro de 2025

101 poemas portugueses - #71

 

QUOTIDIANO


As mulheres afadigam-se

a estender a migalha de sargaço

que a nortada trouxe à beirada.

Mesmo à mão, sem graveta.

Interrompo o meu cerzir de escrita

e abarco-as num golpe de olhar.

Longe, num rosal de espumas,

cruzam-se duas traineirinhas:

uma entra, em direcção à Póvoa,

outra sai, rumo ao largo.


Luísa Dacosta (Vila Real, 1927 - Matosinhos, 2015),

A Maresia e o Sargaço dos Dias (2011)

15 de outubro de 2025

O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro

 


O Egipto, civilização eterna fundada há cinco mil anos (!), que continua a suscitar tanto interesse em todo mundo, deixou também um legado ao estado que continua a ostentar o seu nome -- o Egipto contemporâneo, que, como ainda hoje mesmo as notícias nos recordam, persiste como um dos países mais importantes à escala global, por várias razões.

Eça de Queirós e Ferreira de Castro visitaram-no com décadas de intervalo e em séculos diferentes (1869 e 1935). Romancistas diferentes, com idades diferentes, tal como diversas foram as circunstâncias em que por lá andaram, deixaram o testemunho escrito, tanto acerca do tempo dos faraós, como aquilo que os seus olhos puderam observar no terreno.

Sobre as diferenças e semelhanças dos dois olhares irá constar minha conversa,  esta sexta-feira, 17 de Outubro, às 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.


 

3 de outubro de 2025

RELEITURAS EM FÉRIAS 3

 


Detesto o abuso ilimitado e sem vergonha da expressão «é único», para impingir banalidades numa sociedade que (quase) conseguiu exaurir o significado das palavras, mas encontro-me numa situação em que me questiono como hei de classificar o livro de António Lobato, LIBERDADE OU EVASÃO.
É que é mesmo único: e particularmente para mim.
Reli-o pela terceira vez - o que é já sintomático - e decidi propô-lo para leitura no nosso Clube, agora que foi feita mais uma edição.
Esperam que lhes descreva o conteúdo? Não vou fazê-lo. O desafio da leitura perderia com isso.
Deixo apenas alumas notas pessoais.
Por via de danças palacianas do sec.XVI, que a esposa dirigia, conheci o António e tornámo-nos amigos: próximos.
Quando ele foi libertado, era eu enfermeiro militar em Neurocirurgia e Neuropsiquiatria, e acolhi militares que tinham vindo da Operação Mar Verde, o que me levou a tomar conhecimento de factos de alto secretismo, ao tempo.
Por acaso da História, um conterrâneo amigo esteve envolvido no ato de abertura do portão que colocou o António Lobato numa liberdade... condicionada. Omito o nome por respeito à privacidade.
Conheciam-se, e quando comuniquei ao ZP que o Major Lobato tinha morrido, respondeu apenas com uma expressão perturbadíssima: «já sabia». Não me revelou como.
Desafio feito, encerro assim as minha pequenas crónicas de Releituras.

2 de outubro de 2025

o início de O DELFIM

 

«Aqui estou.» José Cardoso Pires, O Delfim [1968], 9.ª ed., Lisboa, Moraes Editores, 1979, p. 9