20 de junho de 2018

Juan, Zenobia, Platero e Eu

Na senda de Cristóvão Colon, rumei a Moguer. Objetivo principal? O Mosteiro de Santa Clara, ligado à história do navegador, bastante provavelmente, português.
Mas - palavra tão pequena, quão tramada - descubro que Juan Ramón Jiménez nascera ali, e havia Casa-Museu a convidar para visita. Despromovi CC para segunda prioridade, e rumámos à casa do escritor, dedicada também à sua esposa Zenobia Camprubi.
Como só o conhecia através da leitura do livro dedicado ao famoso burrico - que tem estátuas por Moguer - e associado à poesia, a curiosidade era evidente.
A arrumação da casa está perfeita, organizada por temas: Sala Prólogo, Biblioteca Pessoal, Revistas, Escritório, Salinha, Quarto, Salão, Sala Platero e Pátio. Cada uma funciona como um capítulo sobre o autor e Zenobia: um resumo geral biográfico; três mil e quinhentos livros pessoais, com ex-libris, anotações pessoalíssimas e dedicatórias; sete mil revistas organizadas por temas; obra poética; pintura; elementos fotográficos e decorativos de cunho íntimo; traduções de Rabindranath Tagore - o milagre que o fez encontrar a que seria sua esposa; referências e dados relativos ao exílio, por alergia a Franco; traduções de Platero Y Yo, em todo o mundo - referiram que só a Bíblia e D. Quixote tiveram mais; pormenores de um pátio de casa grande, onde impera estátua de Platero e a sua sela.
Foi-lhe atribuído o Nobel em 1956.
Tenho de ler mais de J. R. Jiménez para o compreender, porque fiquei com a impressão de se tratar de um homem profundamente angustiado, que viveu suportado, primeiro, na alma do pai; depois na de Zenobia Camprubi e, só depois, na dele mesmo.
Não desejo alongar-me, pelo que refiro apenas uma curiosidade: no exílio da pátria, primeiro em Nova Iorque, sentiu-se duplamente banido, também da sua língua, tendo passado mesmo a recusar-se a falar inglês, ao aperceber-se de que, dentro de si, estava a sentir empobrecer a sua capacidade linguística em castelhano, sua ferramenta de trabalho, o que o levou a encaminhar-se para Porto Rico e Cuba, para suavizar a agrura e a perda.
Acabámos a visita no dia e hora em que começava o "meu" Clube de Leitura, em Sintra.
Depois, fui pedir informações a Platero... e não é que o jerico sabia quase cinquenta línguas diferentes!

2 comentários:

  1. Gostei deveras do relato!
    E registo a postura humilde do Zé perante o Platero, aparentemente rendido às aptidões poliglotísticas do asno!

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