14 de dezembro de 2017

INSANUS OU A INSÂNIA DO QUOTIDIANO

Insanus, de Carlos Querido, é um livro de contos editado em Julho deste ano pela Abysmo. Anteriormente, o autor publicara Salir de Outrora (2007), Praça da Fruta ( 2009), A Redenção das Águas (2013) e Príncipe Perfeito-Rei Pelicano, Coruja e Falcão (2015). Se o primeiro destes livros se apresenta como uma pesquisa em torno de documentos históricos relativos aos coutos do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça, Praça da Fruta é uma narrativa cuja acção decorre nos nossos dias, remetendo embora para os marcos históricos fundamentais das Caldas da Rainha (em cuja região nasceu e reside o autor), enquanto os dois últimos livros são romances históricos em torno das figuras reais de D. João V e D. João II, ambas com ligações conhecidas ao burgo caldense.
O conto, género literário agora trabalhado pelo autor, radica «em ancestrais tradições culturais que faziam do ritual do relato um factor de sedução e de aglutinação comunitária» (Dicionário de Narratologia de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes), processo bem patente em duas obras da tradição europeia: Decameron, de Boccaccio (séc. XIV), e Heptameron, de Margarida de Navarra (séc. XVI). É caracterizado pela concisão, brevidade e unidade de efeito (Allan Poe). Certa crítica realça-lhe a capacidade de criar uma atmosfera em detrimento da acção.
Os contos de Insanus não têm uma leitura linear e unívoca. Há a considerar uma história de superfície (em que o estranho ou o fantástico quase sempre imperam) e outra escondida, de segundo nível, a que não se acede directamente. Neste sentido, é compreensível que a epígrafe da colectânea tenha sido retirada de Edgar Allan Poe, autor de contos fantásticos e teorizador do género literário short story. São vinte e nove contos narrados na primeira e na terceira pessoa com as vozes das personagens fundidas no discurso do narrador. Tratando-se de contos curtos (entre duas a sete páginas), estabelece-se um relação próxima com o poema, o fragmento e até o sketch, tendo em conta o humor amargo que transparece em alguns deles. As marcas da ambiguidade e do inesperado estão presentes nas alusões aos universos paralelos e às dicotomias sombra/luz e mundo real/mundo fictício. A referência em diversos textos à figura da “Repartição”, opressora e castradora dos sonhos das personagens, sugere a dimensão do desejo irrealizado face ao desencanto da vida quotidiana, trazendo à lembrança o poema “O Funcionário Cansado”, de António Ramos Rosa, do livro Viagem através de uma Nebulosa (1960): «Sou um funcionário apagado / um funcionário triste / a minha alma não acompanha a minha mão» – da mesma forma que a sombra não acompanha o corpo da personagem do conto “Sombras”, antes se solta dele num registo paradoxal e inquietador.      
Não sendo possível abordar todos os textos da colectânea, referir-nos-emos de forma breve a “MitoLógico”, “Legião é o Meu Nome” e “Insanus”.
“MitoLógico” retoma a imagem do unicórnio de Júlio Pomar, pintura realizada em 1955 para o Café Central das Caldas da Rainha, já referida pelo autor em Praça da Fruta. Porém, a atenção do leitor é conduzida neste conto para a lição de Kafka, precisamente a que é dada em A Metamorfose. Com uma diferença assinalável: se o infeliz Gregor Samson não encontra forma de resolver a sua monstruosa transformação, acabando por morrer para alívio de toda a família, a inominada personagem de “MitoLógico” descobre talvez a salvação no relacionamento com a sua colega de curso. Neste sentido, apesar do final ambíguo, regista-se uma mensagem que diríamos de esperança. História de recorte fantástico, deve ser vista com mais propriedade na sua dimensão metafórica e simbólica. O género conto, pela concisão e brevidade, presta-se à transmissão de um conceito moral ou um exemplo. Vários títulos testemunham esta aptidão que lhe é normalmente reconhecida: Contos & Histórias de Proveito & Exemplo (Gonçalo Fernandes Trancoso), Novelas Exemplares (Cervantes), Contos Exemplares (Sophia). Em “MitoLógico” há indiscutivelmente uma história de proveito e exemplo: a do adolescente incompreendido pelos seus progenitores, o recurso a psicólogos para suprir as consequências da falta de amor, a necessidade de encontrar fora da família, entre os da sua idade, o amparo que lhe falta em casa. Há aqui, sob a narrativa de superfície, uma mensagem não explícita para o leitor desvendar. Aliás, a introdução da letra capital L no cerne do título, desintegrando a estrutura semântica do vocábulo e transformando-o no sintagma “mito lógico”, estabelece um paradoxo indiciador de que muito mais há a ler e a compreender para além da peripécia do aparecimento do corno na testa do protagonista.
“Legião É o Meu Nome” representa, de certa fora, um diálogo intertextual com o episódio do geraseno endemoninhado, segundo os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas. De que maneira pode aceitar um defensor dos direitos dos animais, como é o caso do protagonista do conto, o sacrifício da vara de porcos a que se acolheu, por vontade de Jesus, a legião de demónios? O conto questiona a mensagem dos evangelhos e a insensibilidade do Filho de Deus que deixou afogar no mar os indefesos animais. Marcos dá-nos conta do desespero dos próprios gerasenos perante aquele “massacre” de consideráveis consequências económicas (a vara tinha cerca de dois mil porcos), tendo suplicado a Jesus que abandonasse os seus territórios (Marcos, 5-17). Assim, a alusão ao hermético episódio dos evangelhos e a incompreensão dos pastores da Igreja (padre Serafim) perante a crise psíquica do protagonista traduzem-se numa crítica aos que, confundidos por princípios religiosos, abandonam os homens à solidão e ao sofrimento sem remédio. Aspecto interessante deste conto é o facto de a narração se efectuar em registo epistolar através de carta dirigida pelo protagonista à sua mulher, carta datada de Rilhafoles, 13 de Maio de 2013 ( curioso, tanto o local como a data), não faltando mesmo um post scriptum.   
Finalmente, “Insanus”,  o último conto que dá título à colectânea. Neste texto, segundo um efeito de mise en abyme, há um narrador que conta uma história sobre o autor-narrador dos vinte e oito contos antecedentes. Mais uma vez, estão presentes as alusões a lugares das Caldas da Rainha (fonte das Cinco Bicas) e da sua região (feira medieval de Óbidos). É na noite da cidade termal, entre o «cheiro tépido de cinza e enxofre», que ocorre a revolta das personagens contra o criador que lhes deu a vida (vida de cão, como se lê em diversos contos). É grande o rol das criaturas: «um tipo que cheira a cinza, um unicórnio, náufragos, suicidas, uma mulher que tem o corpo do marido a apodrecer em casa, um pistoleiro sem nome, dois pregadores, um surfista, etecetera, etecetera» – todas saídas das páginas do livro. Protestam as infelizes por não lhes ter sido dada uma existência decente, fazendo-as protagonistas de enredos tristes e desgraçados.  O autor-narrador sente-se culpado, tem dúvidas sobre a legitimidade das histórias e pensa em outras soluções que poderia ter encontrado para não fazer tão infelizes as suas criaturas. Tomado pelas dúvidas, talvez se tenha lembrado da conhecida frase de Nietzsche: «Não é a dúvida, mas a certeza que nos torna loucos»  –  ele que havia criado os seus contos ao abrigo de uma frase peremptória sobre a insânia:  I became insane, with long intervals of horrible sanity. E sente-se  aliviado quando por fim amanhece e as personagens contestatárias desaparecem «para cumprir os enredos que são os seus destinos».
Pela nossa parte, não tendo motivo para recear personagens de ficção, ficamos a aguardar com interesse os próximos contos de Carlos Querido.

 




2 comentários:

  1. Respostas
    1. Pode ser, Ricardo. Vou perguntar ao Carlos Querido qual o mês que lhe é mais conveniente. Abraço

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