3 de junho de 2019

AGUSTINA BESSA-LUÍS




A minha homenagem a uma grande Escritora e Cidadã que hoje deu o passo definitivo para a imortalidade.


"No Natal, o padrinho, que veio consoar com a madrinha, disse:
- Ema não tem namorado? - E deitou-lhe um olhar que a enxovalhava, que lhe rompia as entranhas como uma arma branca.
Ema pensou, pela primeira vez, que o casamento estava a preparar-se como uma nova condenação, como uma injustiça mais elaborada. Carmezim deu-lhe a notícia de que precisava de tomar as águas. Tinha o fígado avariado, era o termo que usava, como se se referisse a uma máquina, um motor que, de tempos a tempos, precisasse de reparação. Mas o que pretendia, no absoluto da sua vontade, odiosa apesar de afectar complacência e grandeza de alma (outro dos seus termos favoritos), era despertar na afilhada a perturbação sexual que iria resolver-se no casamento. A juventude, minada assim na sua substância equivalente à eternidade, teria que receber o golpe que não cicatriza mais; seria corrompida pelo desejo revelado; e a aventura humana começaria para Ema com todos os seus males do século, a ansiedade e o tema da senilidade. Convidou-a para os acompanhar às termas."

(Vale Abraão, Os Grandes Escritores Portugueses Planeta deAgostini, pag. 27-28)  

9 comentários:

  1. Como disse no outro lado, a vida continua...

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  2. Como disse no outro lado
    ou
    Como disse, no outro lado
    ?
    (estou a brincar)

    De qualquer das formas, para a Agustina, a afirmação é sempre verdadeira... Ela pertence ao tal número dos que se libertam da lei da morte.

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    1. A combinação da densidade da sua escrita (diferente de 'dificuldade') e a extensão invulgar da obra assim o determina. Ainda escrito 'no outro lado', é uma inevitabilidade.

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  3. Por estes dias, escrevi em outros lados:
    «Plotino citado por Agustina no explicit de "Fanny Owen": " Quando o corpo deixa de existir, isso é devido a que a sua alma e as almas que lhes estão próximas não lhe resultam suficientes. Como pode pois continuar a viver? Mas, então, o que aconteceu? Será que a sua vida desapareceu? Digamos simplesmente que esta vida era o reflexo de uma luz. E não se encontra já aqui."»
    Dos livros de Agustina, recordo-me bem dos que conheci em grupos de leitura: "Os Meninos de Ouro" no Museu Ferreira de Castro e "A Ronda da Noite" na Comunidade de São Domingos de Rana. Por causa deste fui ao Rijksmuseum em 2013.
    Uma frase de Eduardo Lourenço: « Infelizmente, a escrita constantemente paradoxal e surpreendente de Agustina ainda não encontrou, pela sua dificuldade, o eco que merece» (Revista "Ler", Janeiro de 2009); e outra, do espanhol José María Guelbenzu, "El País" de 25.10.200?: «Quando os bens sucedidos morrerem de sucesso e ninguém se lembrar deles, ela estará aqui, viva e singular, como um excitante milagre literário.» (Ambas as citações tiradas de "Agustina Bessa-Luís, uma apresentação da vida e obra - Guimarães Editores/Instituto Camões, 2009).

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    1. Tenho ouvido por estes dias nas reportagens dos telejornais alusões a essa 'dificuldade', que leio agora, com espanto, nas palavras do Lourenço. Não considero a escrita da Agustina nada difícil (talvez ele esteja a referir-se a outro tipo de dificuldades, que passam pela inserção da obra num mundo aparentemente desaparecido -- 'aparentemente' porque as paixões humanas se mantêm, e com isso se mantém o interesse dos seus livros.
      Mas a ideia com que fiquei, ouvindo os telejornais, foi a de que ela seria uma escritora de leitura difícil, juízo só explicável por um padrão pouco (ou minimamente) exigente.

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    2. Sim, a dificuldade será essa, também não acho difícil a sua escrita, pelo menos naquele sentido tantas vezes apontado a Saramago ou a Lobo Antunes. E para todos estes casos há naturalmente uma falta de preparação e exigência. Em certa parte de "A Ronda da Noite" diz-se que no Porto de hoje já não há calistas, apenas manicuras, «o que não é a mesma coisa, nem se lhe compara.» São os calistas (e não as manicuras)que entram nos seus romances desse «mundo aparentemente desaparecido».

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    3. Confesso que, de fio a pavio mesmo, li apenas e por enquanto A Sibila. Tenho mais umas quatro obras que espero ainda poder saborear, enquanto a lei da morte me não vencer.
      Surpreendeu-me pela harmonia, grandiosidade e maturidade da escrita e, consequentemente, da autora, que, à data da publicação (porque à da criação seria consideravelmente mais nova ainda) teria os seus 32 anos, idade quase criancil hoje em dia para a maioria dos mortais.
      Pelo que me ficou da leitura, não me revejo também em muitas das considerações paridas pelos nossos actuais comentadores e críticos. Foi, por ex., com surpresa, que vi em mais que um sítio a referência um comentário de, salvo erro, David Mourão Ferreira, segundo o qual Agustina era o grande escritor português de "morceaux choisis", opinião que se poderá interpretar, penso eu, como escritora de bons nacos. E isso parece-me redutor...
      E, MN, andando eu há muito tempo com vontade de visitar o Rijksmuseum, vou primeiro ler A Ronda da Noite, para ver se me decido...

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    4. Leituras da Agustina:
      romance: «A Sibila», «Os Meninos de Ouro» (2x, 1 delas aqui no CLMFC), «Antes do Degelo»;
      novela: «Aquário, Sagitário»;
      teatro: «A Bela Portuguesa»;
      infantil: «A Memória de Giz»;
      em espera: «Fanny Owen», romance (há que tempos...);
      com gula: «Os Incuráveis» «A Ronda da Noite» (romances); «Contemplação Carinhosa da Angústia» (crónica).

      Não conheço essa observação, mas percebo-a. Não tenho o conhecimento suficiente da obra para corroborar a ideia de que havia um certo desleixo na estrutura romanesca; recordo-me de, no meio de muito encantamento, ter torcido o nariz á «Sibila», talvez por causa disso mesmo, já não me lembro. Mas como não há literatura sem nacos, vivam as imperfeições!

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  4. Que ela não se tenha lembrado, e ninguém se venha a lembrar de usar o título de "escritor", em vez de "escritora"!

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