3 de novembro de 2026

as aberturas de FLORES AO TELEFONE

10. «Correio sentimental». «O Dr. Pinho dizia que ela dava complexos de inferioridade às pessoas, de tanta perfeição moral.»

9. «Carta aberta à família». »Foi no último domingo de Outubro -- encontrávamo-nos sempre no último domingo do mês, todos os meses (porquê no último e não no primeiro ou em qualquer dos outros?, pensei eu muitas vezes até ter deixado definitivamente de pensar nisso) --, foi nesse domingo de céu cinzento e chuva miúda mas constante que a ideia, que ainda o não era, me aflorou uma vez com a brevidade quase inexistente de um vislumbre.» 

8. «O avião é o meio de transporte ideal». «A mulher contou uma vez m,ais como tinha sido.»

7. «O aquário». «O pequeno móvel ia atravessando a sala lentamente, em diagonal.»

6. «Um diário para Saudade». «Creio que em quase todos os colégios de meninas há uma ou duas extremamente bonitas e graciosas, geralmente alunas medíocres, de longos cabelos loiros e olhos azuis (têm quase sempre esse tipo físico), a quem a maioria presta incondicional vassalagem.»

5. «O homem voador e a mulher que não tinha asas». «Corredor de automóveis teria sido uma profissão para ele.»

4. «Os doces braços da noite»: «Estava ali a olhar para os pais e a ouvi-los, e ao mesmo tempo a sentir que algo de si ficara a vaguear, esquecido ou perdido, no escritório do tio Jaime, não viera com ela.»  

3. «O casamento»: «O padre disse:»

2. «A estranha ressonância do nome de Alma». «A mulher rompeu o silêncio e disse: "Queres ouvir, Hermes?"»

1. «Flores ao telefone». «A mulher pegou no auscultador subitamente vivo, ser-objecto preto e luzidio, às vezes repugnante quando vomitava coisas sujas de que ela não gostava, embora as devorasse, esfomeada, pegou-lhe e disse numa voz ausente, demasiado fria, voluntariamente fria, que estava, sim, que era ela, sim.»


Maria Judite de Carvalho, Flores ao Telefone (1968), Obras Completas III, Coimbra, Minotauro, 2024.

2 de novembro de 2026

as aberturas de CONTOS BÁRBAROS

12. «O ferro bento». «Comprou a um fidalgo esbanjador o melhor casal de Fornos.»

11. «Uma cabeçada». «O maior escândalo da freguesia no primeiro quartel do século XX foi o caso da D. Guilhermina Póvoas.»

10. «A morte do pai». «O viúvo da Tia Rosa Lamelas era um velhote de barba feita a quem chamavam o Tio João Abade -- por alcunha, que o nome dele era João Novais.»

9. «Maria de Lurdes». «Essa tal menina, Senhor Mendonça, enquanto esteve cá na parvalheira, deu-se muito bem com todos os vizinhos.»

8. «Os livros do Diabo». «Amigo de saias como aquilo não no houve nem no tornará a haver tão cedo cá na freguesia.»

7. «O vestido branco». «Mal me formei, em vez de me ficar pela cidade à espera de emprego ou de noiva rica, meti-me na aldeia, em casa de meus pais, lavradores de trinta pipas de vinho de consumo.»

6. «A Quinta do Algarve». «Se eu contasse a Vossa Senhoria esta história, Vossa Senhoria enchia-se de rir...»

5. «O Doutor Hermenegildo». «Saiu de casa à tardinha para dar o passeio do costume.»

4.«A Mimosa de Carrapatelo». «Em todo o Carrapatelo não havia o que se diz uma árvore!»

3. «Os Figos de Pau». «O tio António Chapeleiro -- assim chamado, porque a sogra, falecida havia muitos anos, fabricava de sua mão chapéus de palha centeia e os vendia nas feiras --, era um velhote rijo e conservado como trave de castanho cortado em boa lua.»

2. «Milagre». «Nesse Inverno, de tanto chover, as estradas ficaram esbeiçadas.»

1. «A Velha das Panelas». «Debaixo do grande carrego dos púcaros, tão grande, que tapava o sol, a velha sacudia os pés nus sem tropeção, pós-catrapós, à flor das pedras, em caminhos que se estiravam desde a Candelária, subindo e descendo montes, preguiçosamente, até o campo da feira.»

João de Araújo Correia, Contos Bárbaros [1939], 8.ª ed., Lisboa, Âncora Editora, 2023.