10 de novembro de 2013

CULTURA ITALIANA: PIRANDELLO E OS CONFLITOS DO EU





                                           CULTURA ITALIANA: PIRANDELLO E OS CONFLITOS DO EU 


O Clube de Leitura de Sintra debateu em de Maio a obra e a representação literária de Pirandello (1867-1936). As linhas de força deste verista são: a solidão, o absurdo da existência, o mistério da personalidade. Lembrei nesta ocasião a proximidade ‘familiar’ desta poética a três outras: Giacomo Leopardi (1798-1837), Antero e Pessoa. Os conflitos do Eu e da Existência têm caracter dominante e percursos únicos e vários nas Obras destes escritores.

A profundidade destas interrogações seja num discurso pessoal seja num percurso ontológico vai diferenciar as três poéticas embora com referentes simbólicos comuns: a Dor física e a sua libertação pela morte como a propõe Leopardi ou o Antero no Ciclo do Elogio da Morte.; por outro lado a solidão, as máscaras, a multiplicação do Eu, a despersonalização, os percursos do Não-Ser até ao Ser único e absoluto, aproximam-nos de Pessoa e do próprio Pirandello.

Dá-se o caso de eu amar a cultura italiana. Dá-se a circunstância de eu ter participado no evento: ‘ E naufragar me é doce neste mar: Leopardi na Madeira’ que assinalou o bicentenário do nascimento deste importantíssimo poeta italiano. Nessa ocasião, isto é, em 1999, depois da leitura dos Canti escrevi para Pádua e disse que o nosso Camões possui terríveis afinidades com o poeta de Recanati. Disse: ‘de facto, o nosso épico, que muito bebe nos académicos de Florença, reflete na Canção IX, da minha especial predileção, e nos sonetos, problemáticas semelhantes ao caso do poeta italiano’.

Observei a feliz coincidência das relações de cultura entre os dois povos. Subtis mas perenes, impercetíveis mas resistentes e plásticas como as qualidades das suas respetivas línguas. Fossem essas relações diplomáticas ou comerciais de antiquíssimo registo desde a remota Génova e da poderosa Veneza de Quinhentos; fossem literárias ou artísticas com a deslocação de pintores e suas escolas, de arquitetos e de escultores; fossem musicais e até científicas: a organização dos nossos gabinetes de História Natural, o recorte dos nossos jardins botânicos desde o renascentista ao barroco.

São lentos mas de sábia lentidão os processos criativos na teia que reúne os povos. Contudo, o universo das palavras, o ser das palavras domina as poéticas neste fascínio em busca do cerne da poesia; incessante desvendar do outro para a compreensão de nós-mesmos. Agora, na busca da essencialidade também num refazer de linguagens plásticas que ultrapassam a própria razão e vai mais longe que Descartes: para existirmos não basta nos pensarmos. Parafraseando a essencialidade de Clarice Lispector direi que existimos quando nos vemos ao espelho. Se nos movemos  na busca do outro, deslocando os eixos culturais do mundo, atualizando Quinhentos, é por que já desanuviamos a nossa aura. E nos confirmamos como europeus.                                 

1 de novembro de 2013

JESUS POBREZINHO, anónimo

Vindo um lavrador da arada,
Encontrou um pobrezinho;
O pobrezinho lhe disse:
-- Tenho fome e tenho frio;
Lavrador, por Deus te peço,
Leva-me no teu carrinho. --
Deu-lhe a mão o lavrador,
No carro já o metia;
À sua casa o levava,
À melhor sala que tinha.
Mandou-lhe fazer a ceia,
Do melhor manjar que havia;
Sentou-o à sua mesa,
Coa a sua mão o servia.
Mandou-lhe fazer a cama,
Da melhor roupa que tinha;
Por baixo damasco roxo,
Por cima cambraia fina.

Era meia-noite em ponto,
O pobrezinho gemia.
Levantou-se o lavrador,
A ver o que o pobre tinha:
Deu-lhe o coração um baque,
Como ele não ficaria...
Achou-o crucificado
Numa cruz de prata fina!

-- Meu Senhor, quem tal soubera,
Que em minha casa vos tinha...
Mandara fazer preparos,
Do melhor que se acharia...
-- Cala, cala, ó lavrador,
Não fales com fantasia...
No Céu te tenho guardada
Cadeira de prata fina;
Tua mulher a teu lado,
Que também o merecia.

in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler, Lisboa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956, pp. 18-19.

(lido na sessão de 4 de Outubro de 2013)

22 de outubro de 2013

1 parágrafo de Carlos Daniel

De todas as vidas se pode escrever um livro, é verdade, mais que não seja para narrar ao pormenor a sua infindável rotina quotidiana. Mas nem de todas se pode fazer uma nota marcante, breve e verdadeira. Quem tiver dúvidas que retire dos escaparates meia dúzia de calhamaços, com mais de quatrocentas páginas, e pratique esse exercício na parte de dentro de uma carteira de fósforos, relendo depois o que lá conseguiu meter. Se encontrou matéria suficiente para precisar da tal folha de papel de máquina, essa vida já valeu a pena.

A Morte do Rei de Espanha, Lisboa, Chiado Editora, 2012, p. 203.

5 de outubro de 2013

e assim termina OS MILAGRES DO ANTICRISTO

«Ninguém pode livrar as pessoas dos seus males, mas muito se deverá perdoar àquele que fizer nascer nelas nova coragem para carregá-los.»
O Anticristo, neste extraordinário romance de Selma Lagerlöf, materializou.se numa pequena imagem, alegadamente do Salvador, ostentando a inscrição: "O meu reino é deste mundo." Publicado em 1897, quando as forças socialistas estão pujantes e parecem imparáveis, o anticristo, necessário e fundamental ante a miséria que as sociedades modernas exorbitavam, é o socialismo. Conciliar "a Terra com o Céu" (p. 348), porque nem todos se bastam com a matéria, parece-me ser o sentido (ou um dos sentidos) desta narrativa da escritor sueca -- não distante, aliás, do que preconizava o seu contemporâneo e confrade russo, Tólstoi.

Luca Signorelli, Os Milagres do Anticristo
(Catedral de Orvieto)

3 de outubro de 2013

outro soneto de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
Passava, contentando-se com vê-la;
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
Lhe fora assim negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida,

Começa de servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida!

in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler, Lisboa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956, pp. 16-17.

(lido na sessão de 7 de Setembro)

25 de setembro de 2013

Valter Hugo Mãe 42

Valter Hugo Mãe (Valter Hugo Lemos) nasceu em Saurimo, na Lunda Sul,  Angola,
em 25 de Setembro de 1971

19 de setembro de 2013

e assim começa OS MILAGRES DO ANTICRISTO

Corria o tempo em que Augusto era imperador de Roma e Herodes rei de Jerusalém.

Selma Lerglöf, Os Milagres do Anticristo, tradução de Liliete Martins, Lisboa, Cavalo de Ferro, 2008, p. 9.

6 de setembro de 2013

dou estrelas a Régio...

Hoje apetece-me dar estrelas aos contos do Régio (a bloga ou é lúdica ou não é bloga!); e como gosto de pensar que sou um gourmet  destas coisas (como diria o Jaime Brasil), aqui vai o atrevimento dum mero leitor.

«Menina Olímpia e sua criada Belarmina» (****) Um conto cheio de piedade. A caracterização da grotesca menina Olímpia, menina já entrada e metida consigo -- na realidade, no limiar da demência --, que se veste e pinta como quando era rica e casadoira sem deixar indiferentes os passantes, e da velha criada Belarmina que a acompanha na degradação do modo de vida de ambas, numa ilha portuense. O confronto entre as duas, quando, por bem-querer,  a aia Belarmina sugere à patroa que se vista com mais conforto na sua pobreza e com menos espavento do que costumava na sua idumentária de vinte anos atrás, é, para mim, o grande momento da história:  «Quando compreendera, menina Olímpia esganiçara umas risadas de escárnio, tivera uns gestos de frenéticos, falara -- pela primeira vez -- na diferença de condição que as separava [...]» -- e por aí fora, até à cruel humilhação da criada: «Reparasse ela ao menos, bruta!, (chegara a chamar-lhe bruta!) reparasse ela ao menos, bruta!, como a cumprimentavam respeitosamente os cavalheiros [...]» (p. 34).

«História de Rosa Brava» (*****) O melhor dos textos, cheio de raça, de finura psicológica, o modo como as personagens nos são reveladas, a força selvagem  de Rosa, com «os seus esplêndidos olhos negros, olhos cuja sombria beleza só primo Rogério até então soubera ver [...]» (p. 65). Do melhor que se pode ler.

«Os namorados de Amância» (**) Talvez o menos conseguido, história de proveito e exemplo sobre a frivolidade, provavelmente adequado à revista Eva, onde foi originalmente publicado.

«Os paradoxos do bem» (***) Muito interessante para quem conhece bem Régio, versando sobre os grandes problemas que sempre o interessaram, a Arte e Deus. Neste particular, prefiro o Régio escritor de ideias, o crítico, o ensaísta, o diarista, o metafísico desse deslumbrante Confissão dum Homem Religioso.

«Marina e a Camélia» (****) Um pequeníssima jóia, quase neo-realista...

28 de agosto de 2013

Régio: menos é mais

Na apresentação desta colectânea, organizada para a colecção «Livros de Bolso» da Europa-América (# 391), José Alberto Reis Pereira (sobrinho do autor) incluiu um lapidar excerto de José Régio, datado de 1948 e então inédito (desconheço se já foi publicado), sobre a arte da escrita como desígnio:
«[...] uma arte em que as palavras fossem as rigorosamente justas, próprias, adequadas -- e ao mesmo tempo inesperadas e sugestivas. Uma combinação imprevista de palavras vulgares. O rigor científico, a precisão ascética -- e o indefinido e rico da música. A simplicidade que nada sacrifica da densidade, da subtileza... e do perigo.»



17 de agosto de 2013

V. S. Naipaul, 81

V. S. (Vidiadhar Surajprasad) Naipaul, nasceu a 17 de Agosto de 1932,
em Chaguanas, Trinidad e Tobago

16 de agosto de 2013

Quero a fome de calar-me, Daniel Faria

Quero a fome de calar-me. O silêncio. Único Recado que repito para que me não esqueça. pedra Que trago para sentar-me no banquete A única glória no mundo - ouvir-te. Ver Quando plantas a vinha, como abres A fonte, o curso caudaloso Da vergôntea - a sombra com que jorras do rochedo Quero o jorro da escrita verdadeira, a dolorosa Chaga do pastor Que abriu o redil no próprio corpo e sai Ao encontro da ovelha separada. Cerco Os sentidos que dispersam o rebanho. Estendo as direcções, estudo-lhes A flor - várias árvors cortadas Continuam a altear os pássaros. Os caminhos Seguem a linha do canivete nos troncos As mãos acima da cabeça adornam As águas nocturnas - pequenos Nenúfares celestes. As estrelas como as pinhas fechadas Caem - quero fechar-me e cair. O silêncio. DANIEL FARIA

12 de agosto de 2013

Miguel Torga, 106

Miguel Torga (pseuydónimo de Adolfo Rocha, com que assinou os
primeiros livros) nasceu em São Martinho de Anta, Sabrosa, em
12 de Agosto de 1907

24 de julho de 2013

Carlos Vale Ferraz, 67

Carlos Vale Ferraz, pseudónimo de Carlos Matos Gomes
-- nome com que também assina obras de história militar --,
nasceu em Vila Nova da Barquinha, a 24 de Julho de 1946


22 de julho de 2013

TROVA À MANEIRA ANTIGA, Sá de Miranda

Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,
Antes que esta assim crescesse;
Agora já fugiria
De mim, se de mim pudesse.
Que meio espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo,
Tamanho imigo de mim?

in José Régio, Poesia de Ontem e de Hoje para o Nosso Povo Ler, Lisboa, Campanha Nacional de Educação de Adultos, 1956, pp. 11-12.

(lido na sessão de 7 de Junho de 2013)

8 de julho de 2013

TODA A POESIA É LUMINOSA, Eugénio de Andrade

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Os Sulcos da Sede

lido na sessão de 5 de Julho de 2003

4 de julho de 2013

Gide sobre Kafka

O realismo das suas descrições raia muitas vezes pelo imaginário e não saberei dizer o que mais admiro nelas: a anotação «naturalista» de um universo fantástico, mas que a exactidão minuciosa da descrição torna real aos nossos olhos, ou a firme audácia dos desvios para o extraordinário.

no Dicionário Biográfico Universal de autores, Artis/Bompiani, vol. 2.

3 de julho de 2013

27 de junho de 2013

João Guimarães Rosa, 105

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de Junho de 1908.

24 de junho de 2013

uma epígrade de de Pinedo


Ficheiro:Francesco De Pinedo.jpg

Ser forçado a descer naquele horror, mesmo que se aterre incólume, é ficar onde se desceu e morrer sepultado na sombra.
Francesco de Pinedo, 2.ª epígrafe de A Selva, de Ferreira de Castro.

14 de junho de 2013

...DE PASSAREM AVES, Jorge de Sena

Das aves passam as sombras,
um momento, no chão, perto de mim.
No tardo Verão que as trouxe e as demora,
por que beirais não sei
onde se abrigam piando
como ao passar chilreiam.

Um momento só. Rápidas voam!
E a vida em que regressam de outras terras
não é tão rápida: fiquei olhando,
as sombras não, mas a memória delas,
das sombras não, mas de passarem aves.

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp.110-111.
(lido na sessão de 7 de Junho)

5 de junho de 2013

brônzeo

Regresso aO Malhadinhas, quase trinta anos depois, sem nunca ter deixado de frequentar o Aquilino, não tantas vezes, porém, quanto devia, ai de mim.  Porque a leitura de qualquer livro do homem da Nave traduz-se num imenso prazer, físico inclusive. Isto sim, é grande literatura, é a escrita em estado vivo, e que assim permanecerá enquanto houver língua portuguesa. Como disse há dias, em amena cavaqueira com um editor esclarecido, o Aquilino é brônzeo!... 

24 de maio de 2013

A Magnólia: Letra de Luiza Neto Jorge e Música de Rodrigo Leão

A Magnólia

A exaltação do mínimo,
e o magnífico relâmpago
do acontecimento mestre
restituem a forma
o meu resplendor.

Um diminuto berço me acolhe
onde a palavra se elide
na matéria - na metáfora -
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos
sobre mim.

16 de maio de 2013

13 de maio de 2013

Bruce Chatwin, 73

Chatwin nasceu em Dronfield, Inglaterra, a 13 de Maio de 1940.

3 de maio de 2013

ELEGIA DE SETEMBRO, Eugénio de Andrade

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos poisados nas últimas rosas
dos grande e calmos dias de Setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se recordam os mortos, sem os ferir
sem os trazer a esta espuma negra
onde os corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada olhando as rosas
e tão alheia
que nem dás por mim.

Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp. 82-85.

(lido na sessão de 5 de Abril de 2013)

27 de abril de 2013

uma epígrafe de Carlos Ceia

Bem se esforçou o Autor real deste livro encontrar uma epígrafe apropriada para a abertura, mas não encontrou nada no mercado de citações que servisse a boa interpretação do romance e as suas personagens também não ajudaram nada.

Carlos Ceia, O Professor Sentado, Lisnoa, Edições Duarte Reis, 2004, p. 7.

19 de abril de 2013

um poema de Filipa Leal

Apontas para o rosto sarcástico do sol de Inverno
E disparas. Há tantos meses que não chove – reparaste?
É o próprio céu a desistir de ti. E mesmo assim tu disparas, só sabes disparar.
Estás enganada, Europa. Envelheceste mal e perdeste a humildade.
Não é contra o sarcasmo que disparas, não é contra o Inverno,
Nem sequer contra o insólito, contra o desespero.
Tu disparas contra a luz.
Podes atirar-nos tudo à cara, Europa: bombas, palavras, relatórios de contas.
Podes até atirar-nos à cara um deputado, uma cimeira.
Mas os teus filhos não querem gravatas. Os teus filhos querem paz.
Os teus filhos não querem que lhes dês a sopa. Os teus filhos querem trabalhar.
Há tantos meses que não chove – reparaste?
A terra está seca. Nem abraçados à terra conseguimos dormir.
Enquanto te escrevo, tu continuas a fazer contas, Europa.
Quem deve. Quem empresta. Quem paga.
Mas os teus filhos têm fome, têm sono. Os teus filhos têm medo do escuro.
Os teus filhos precisam que lhes cantes uma canção, que os vás adormecer.
Eu acreditei em ti e tu roubaste-me o futuro e o dos meus irmãos.
Se estamos calados, Europa, é apenas porque, contrários ao teu gesto,
Nós não queremos disparar.

(lido na sessão de 5 de Abril de 2013)

6 de abril de 2013

Os Fragmentos -- Um Romance e Algumas Evocações

Livro híbrido, como indica o subtítulo, completando a designação principal da obra: fragmento, o que ficou estilhaçado, o que não se completou. Trata-se de um melancólico acerto de contas de Ferreira de Castro com uma parte do trabalho literário (e também jornalístico) que a Censura suprimiu.
Morto em 29 de Junho de 1974, o percurso do autor de A Selva foi marcado por essa circunstância, de Emigrantes (1928) a O Instinto Supremo (1968) -- e mesmo estes fragmentos tiveram de aguardar pela revolução do 25 de Abril para que pudessem ver a luz do dia.
Foi importante termos lido no ano passado os textos dos Ecos da Semana, crónicas publicadas  no suplemento de A Batalha, entre 1924 e 1926, para verificarmos que, descontado o arrebatamento quase juvenil desses escritos anarquistas, Ferreira de Castro, se manteve visceralmente libertário.
Presumo que ele soubesse que este livro não acrescentaria nada à relevância da sua obra literária e do lugar que ela ocupa na ficção narrativa portuguesa novecentista; mas fora-lhe um imperativo a subtracção desses textos ao esquecimento:
     O Intervalo, o tal romance com pano de fundo na Revolta da Andaluzia (1931), que fazia parte dum painel mais vasto, intitulado «Biografia do Século XX», nunca concretizado, com pretexto para a contextualização epocal em «Origem de "O Intervalo"»;
     «O Natal em Ossela», inofensivo (ou nem por isso...) conto alusivo à quadra, que não escapou ao lápis azul, motivando uma importante reflexão a propósito do sentido de pertença a essa «Aldeia Nativa», para além dos artifícios nacionalistas;
     o sensacional «Historial da Velha Mina», evocação duma reportagem nunca publicada junto dos homens das Minas de São Domingos, exploradas por capital britânico; e sensacional, acima de tudo, pela extrema contensão do tom castriano, característica da generalidade da sua escrita madura.
Os Fragmentos são, pois, a um tempo, testemunho, (re)afirmação de um ideário e de uma concepção da literatura impregnada de sentido no tempo que lhe coube.

2 de abril de 2013

BIOGRAFIA DO SÉCULO XX

“Os socialistas, que haviam lançado a greve de Badajoz, tornaram-se pele de bombo constantemente surrada. Não escaparam sequer os que tinham assento nas Cortes, nem mesmo a mais bela de todas as deputadas, porque tempos antes palmilhara as pobres terras estremenhas, a pregar essas modestas reformas que constituíam o breviário do seu partido. Ansiosas de a castigarem, damas aristocráticas e da alta burguesia, formando copioso grupo, dirigiram-se ao Parlamento. E ao seu presidente solicitaram que a formosa palradora fosse despida das imunidades que usufruía e levada imediatamente à fronteira, pois embora nada e criada em Espanha, trazia glóbulos rubros germânicos no sangue provadamente venenoso.”
(FERREIRA DE CASTRO, O Intervalo, cap. VI.)
Margarita Nelken  (Madrid, 1896 - México, 1968), feminista e deputada socialista das Cortes Constituintes republicanas a quem Ferreira de Castro, provavelmente, se refere.

1 de abril de 2013

O SONHO SEM DESTINO, Natércia Freire

Se os caminhos são breves
e os dias tão compridos,
e as tuas mãos mais leves
que a espuma dos vestidos;

se é de ti que me ondeia
uma brisa subtil...
E a vaga diz: -- Sereia!
E o sonho diz: -- Abril!

Se cresces e dominas
os campos que acalento,
e inundas as colinas
de fontes que eu invento;

se tens na luz dos olhos
o misterioso apelo
das cidades de fogo,
das cidades de gelo;

se podes bem guardar
na tua mão fechada
o meu altivo Tudo
e o meu imenso Nada;

se cabe nos meus braços
a bruma que tu és,
e em algas e sargaços
te abraço nas marés;

se, puro, na presença
da nossa grande Casa,
pões na voz de horizonte
um lume de asa e brasa.

Não sei porque te sonho
na sombra matinal,
e ao meu lado te vejo,
real e irreal.

Sabeis -- adaga fria,
que ao meu peito cintilas --
onde se oculta o dia
das aragens tranquilas?

Se tudo sabes, mata
com dedos de oiro fino,
ou com gume de prata,
o sonho sem destino!

in Ana Hatherly, Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa, Lisboa, Direcção-Geral do Ensino Primário, 1960, pp. 73-74.
(lido na sessão de 1 de Março)